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A QUESTÃO DO SUICÍDIO

‘Covarde, como estava sem trabalho enforcou-se’

O potencial complicador da visão do suicida como 'covarde', 'fraco' e até 'culpado' em um país que precisa se mexer contra o aumento dos suicídios

‘Covarde, como estava sem trabalho enforcou-se’
O suicídio é a quarta maior causa de mortes evitáveis entre jovens no Brasil (Foto: Flickr)

Há mais de 20 anos, por volta do Natal de 1994, a Folha de S.Paulo publicava uma nota intitulada “Suicida sofre preconceito”, e que dizia logo de cara: “a polícia e os hospitais de Itapetininga maltratam o suicida fracassado”. A cidade, Itapetininga, no interior de São Paulo, então com 120 mil habitantes, registrava na ocasião média anual de 37,8 casos de suicídios ou tentativas de suicídio, um índice três vezes maior do que o considerado aceitável pela Organização Mundial de Saúde, que é um caso de suicídio por ano para cada 10 mil pessoas. Uma psicóloga da cidade, ouvida pelo jornal, denunciava que nos hospitais locais o preconceito se manifestava de diversas formas, “desde a demora no atendimento até tratamentos desnecessários e doloridos”.

O preconceito contra suicidas no Brasil não tem, portanto, nada de novo. Ao contrário: é nuance dos piores preconceitos que o povo brasileiro carrega consigo e sobre si próprio. O que há de “novidade” é o potencial complicador que a enraizada visão do suicida como “covarde”, “fraco” e, dependendo do caso,  “culpado” ganha em um país cuja taxa de suicídios cresceu 60% desde 1980, com média atual de 11 mil pessoas por ano tirando a própria vida em território nacional (o oitavo país com mais suicídios no mundo, em números absolutos).

Este ‘novo’ velho preconceito na praça, no Brasil em profunda e múltipla crise (econômica, política, institucional, social, moral), contrasta de maneira dramática com a absoluta urgência de que se ponha na praça, para além do “setembro amarelo”, políticas amplas e perenes para tentar pôr freios naquela que é a segunda maior causa de mortes evitáveis entre jovens em todo o mundo, e a quarta no Brasil.

Chinelo Azul

A quarta. Não obstante, há poucos meses, quando o sangrento “jogo da Baleia Azul” ganhou destaque na imprensa, por vitimar precisamente tantos jovens, chamou a atenção que a quantidade de alertas sobre o perigo em circulação rivalizasse com a circulação em grande quantidade de “memes” tratando o assunto como piada, e com desdém, como o do assim chamado “jogo do Chinelo Azul”, cuja imagem de divulgação, por assim dizer, garantia: “Esse funciona! Pode pular direto para o nível 50. Cinquenta chineladas!”.

Recentemente a agência de comunicação Nova/sb analisou mais de um milhão de manifestações sobre o tema do suicídio em redes sociais; postagens feitas entre abril e maio deste ano, quando o jogo da Baleia Azul era notícia e quando havia estreado a dramática série sobre suicídio “13 Reasons Why”, da Netflix. O resultado do monitoramento mostrou que a maneira predominante de os brasileiros se manifestarem sobre suicídio na internet é mesmo aquela: a piada.

Mas nem tudo são meros gracejos, que são meros e inocentes apenas na aparência. Quando esse Opinião e Notícia publicou detalhada matéria sobre os porquês do suicídio do reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, não tardou para que aparecessem reações de leitores como esta, espécie de sugestão póstuma ao cadáver espatifado contra o chão: “se não fez nada de errado, que se defendesse e provasse sua inocência”.

O suor e o Ribeiro 

Também recentemente, no fim de maio último, a revista Exame publicou uma matéria sobre os porquês do crescimento de casos de suicídios no Brasil. As razões primeiras foram apresentadas logo de cara: “instabilidade econômica e fragilidade social”, que são formas diferentes de mencionar crise e pobreza.

Em um dos mais importantes livros de sua fase mais atenta às agruras da gente pobre e às profundas contradições de seu país, Jorge Amado narra o suicídio em Salvador da Bahia do operário português Manuel de Tal, que havia 38 anos residia no Brasil e que pusera fim à própria vida em um quarto imundo do número 68 da Ladeira do Pelourinho, cujo aluguel há três meses não conseguia mais pagar, uma vez que “há meses fora demitido da fábrica Ribeiro”.

Como o jornal do dia seguinte tivesse muita matéria política, sobrara espaço apenas para uma notinha de meia coluna, mas com a foto do morto, no necrotério. “O título, em letras gordas, opinava”:

COVARDE, COMO ESTAVA SEM TRABALHO
ENFORCOU-SE

E dizia a notícia:

“É mais um caso de covardia ante a vida. Porque perdeu um emprego, preferiu desertar, sem se esforçar para conseguir outro. Porque, com o maior orgulho o dizemos, se há um país onde a situação do operário seja de absoluto bem-estar, esse país é o Brasil, onde não falta trabalho para os que não são preguiçosos”.

O narrador de Suor, porém, enriquece com mais algumas informações o relato do repórter, observando que ele “se esqueceu de dizer que Manuel de Tal procurara trabalho por toda a cidade e que os patrões lhe respondiam com uma única palavra: CRISE. Que o operário não comia há dois dias e que ia ser posto fora do quarto, etc., e outras coisas também sem importância para o jornalista provinciano, que fazia versos e tinha de ir entrevistar o capitalista Rômulo Ribeiro, que partia para a Europa em viagem de recreio”.

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5 Opiniões

  1. Rogerio Faria disse:

    O que vejo são comentários fortemente influenciados pela religião. Como pode dar fim a vida se deus coloco-o no Éden?
    Tirando as psicopatologias que tem um forte componente à elevação dos números de suicidas, pessoas perfeitamente normais se suicidam.
    Sabemos que a sociedade humana é um lixo, com suas hipocrisias, rodeada por usurpadores, larápios e “espertos.”
    Sim temos que ter a consciência que não há esperança. Pastores, padres, políticos, governantes, o mundo corporativos é o suprassumo da frieza e da enganação.
    Viver a vida e ter um comportamento crítico com alta dose de ceticismo é a melhor forma de “tocar a vida” aceitando que a esperança é a maior das utopias. Quando tentamos a “perfeição” divina nos afastamos da justiça e é por onde ainda vale a pena lutar.

  2. olbe disse:

    Suicidas sim sofrem preconceitos..e mulheres que sangram também. Minha empregada foi destratada na minha frente pq estava sangrando e não era aborto como as enfermeiras pensavam…O suicida é um grande covarde diante da vida e um corajoso para conseguir dar fim a um sofrimento atrós..

  3. Natanael Ferraz disse:

    Matéria longa, cometário curto:
    Suicidas são pessoas desprendidas, acham-se uns derrotados e poupam a sociedade de carregá-los como fardo.

  4. José Carlos do Canto disse:

    Quem era o dono do jornal que fez tão civarde comentario. Talvez um desses burgueses ou defensor.

    Os primeiros casos de suicidio no pais ocorreu com indios que se negavam ao trabalho escravo e depois com os negros por motivos que iam de se negar a propria esceavidao à saudade da patria e dafamilia.

    Não podemos nos esquecer que a burguesia brasileira tem o DNA dos escravocratas e acham normal o sujeito conviver numa com o desemprego, miseria e salario vil.

    Não por acaso Temer consegue aval da maioria do congresso para torpes ações contra o povo trabalhador.

    Quem são os senadores e deputados que apoiam seus projetos? A maioria tem suas senzalas no interior do pais. A imprensa publucou tempos atras que o senhor Jorge Picciani mantinha teabalho escravo em sua fazenda.
    Trabalho escravo é crime inafiançável? Não para esses senhores e diversas autorudades e latifundiarios.

    Quem mando assassinar Chico Mendes? A madre Dorothy e outras centenas de pessoas. Olhem no sangue dos mandantes descubram seus DNA. Obvio que existem alguns mais novos. Mas a ideologia é a mesma.

    Desespero, perda, pode levar ao suicidio. Qulquer perda. Inclusive as amorosas.

    O que temos que fazer não é criticar os que cometem ou tentam o suicidio, mas sim nos unirmis contra os cretunos do poder que levam desespero à população e expulsa-los do poder. E a sua mudia.Eles, sim, são os verdadeiros covardes.

  5. laercio disse:

    Há necessidade de uma mudança radical no país em relação a tudo. Consciente ou inconscientemente todos sabemos disto, entretanto a ganância exacerbada de empresários e políticos faz com que haja concentração de renda em detrimento de políticas que poderiam equacionar algumas atividades fazendo com que houvessem melhor distribuição de renda. Mesmo diante o caos que aterroriza o país as autoridades parecem que optam pelo favorável silêncio que subsidiam suas vidas em detrimento de todo um povo. Temos que mudar com urgência os conceitos sociais conhecidos até então; se houver um combate a corrupção certamente sobrarão os recursos necessários para reformar o falido sistema no qual estamos vivendo. Nossa população não dispõem de bons níveis de informações em âmbito gerais, então há de se começar um trabalho proporcional ao conhecimento de cada qual propiciando assim que todos tenham ocupação. Uma ideia recomendável tem início com a transferência de moradores das favelas para bairros previamente planejados fazendo com que este tenha estruturas de alto subsistência em sua rede de atividades…
    o país está repleto de terras sem uso onde pode ter início vários projetos experimentais com a construção de imóveis com estruturas funcionais que contenham edificações que aproveitem os recursos naturais diversos, a exemplo de luz natural até declives/ aclives…Um terreno com 250 metros quadrados é suficiente para erguer sobrado com 60 metros quadrados, suficiente para abrigar uma família com seis pessoas, as demais áreas do terreno podem ser adaptadas para cultivos em hidroponia, criação de aves com produção de ovos, oficinas de costuras e reformas de outros objetos, até mesmo criação de caprinos onde os interessados podem trabalhar na produção de leite e derivados.
    Uma residência com tais adendos trará ocupação e renda para aqueles menos qualificados bem como um bairro planejado pode suportar as diversidades de prestações de serviços e venda de produtos fazendo com que hajam menos deslocamentos para um trabalho noutra região. Desta forma haverá absorção de muitos dos desempregados e consequentemente diminuição nos índices criminais e outros causadores de déficits diversos.
    Precisamos de uma nação nova que tenha novos conceitos quanto as questões sociais. Tudo isto pode soar como sonho porque parece que nutrimos o paradigma do impossível quanto a ideias novas, preferimos ficar regando desgraças.
    Existem uma infinidade de outros afazeres que devem ser adotados com urgência para acabar com os problemas em nosso país.

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