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CPI das fake news é o novo foco de instabilidade do governo

Investigação parlamentar tem potencial para chegar ao núcleo de poder do clã dos Bolsonaro

CPI das fake news é o novo foco de instabilidade do governo
CPI pode atingir personagens com foro privilegiado (Foto: Pillar Pedreira/Agência Senado)

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O presidente Jair Bolsonaro (PSL) posta em sua página no Twitter – que conta com mais de 5 milhões de “seguidores” – um vídeo em que três homens, fantasiados de guerrilheiros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), reverenciam Lula (PT) e declaram guerra ao Brasil. Minutos depois, também no Twitter, uma deputada federal do partido de Bolsonaro, Bia Kicis, denuncia a falsidade do vídeo que ela própria também havia postado, e posteriormente apagou: “Não compactuo com a mentira, valeu? A gente pode se enganar mas não pode perder a integridade”, comentou.

O ocorrido se deu em 26 de outubro, e Bia Kicis, deputada da ala bolsonarista do PSL – pois, sim, há também uma ala do partido do presidente que é “antibolsonarista” – curiosamente é crítica à CPI das fake news.

Instituída em setembro, a comissão parlamentar de inquérito tem o objetivo de investigar a proliferação de notícias falsas na internet e a atuação de “milícias digitais” que operam ataques à honra e ameaçam fisicamente políticos, ministros de estado, artistas e celebridades – e, o que não é segredo para ninguém, os acossados pelos “milicianos digitais” são, na maioria dos casos, pessoas que discordam em maior ou menor grau do núcleo duro do clã Bolsonaro, composto pelo presidente e seus três filhos com cargos políticos.

Denunciada ainda durante o período eleitoral em uma reportagem da Folha de S.Paulo, a rede de difamação e mentiras teria sido financiada, via caixa dois, por empresários simpáticos a Bolsonaro. Na época, o Partido dos Trabalhadores pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que investigasse a denúncia. Uma série de seminários foram conduzidos pelo órgão, que, até o momento, não indiciou nenhum suspeito.

A sensação de que as denúncias não dariam em nada foi dissipada por outra deputada federal do PSL, a líder de votos, e ex-líder do governo destituída por Bolsonaro, Joice Hasselmann.

Após discordar do presidente e ser, ela mesma, vítima de ataques da tal milícia digital, Joice confirmou o que muitos já desconfiam: a família Bolsonaro foi não só beneficiada pela rede de fake news durante as eleições, mas a coordena.

A novidade no relato de Joice é que essa rede operaria desde um gabinete no Palácio do Planalto, com funcionários muito bem pagos pelo governo. E deu detalhes: Eduardo Bolsonaro (PSL), o quase-embaixador nos EUA, seria dono de perfis falsos nas redes sociais que alimentariam outros 1.500 perfis com mentiras, “memes” caluniosos, e que incitam, inclusive, ameaças à vida de opositores (de dentro ou fora de seu partido).

As disputas internas no PSL alimentaram, assim, a constituição da CPI, que convidou diversos ex-bolsonaristas vítimas de ataques na internet para prestar depoimento: Alexandre Frota (PSDB), a própria Joice, Delegado Waldir (PSL) e o general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz.

Este último defende, inclusive, que peritos sejam convocados para buscar rastros que indiquem de onde partiram os ataques – o que pode vir a confirmar as acusações feitas por Hasselmann. Caso o IP de algum computador de dentro do Planalto seja rastreado, o impacto para o governo é incalculável, mas deputados do PSL, como o ex-líder do partido defenestrado por Bolsonaro, Delegado Waldir, já falam publicamente em impeachment.

No que depender do presidente eleito para a CPI das fake news, o senador Angelo Coronel (PSD), as investigações chegaram ao fundo – e ao chefe – da milícia digital.                                                                                

Em entrevista à Folha, ele afirmou que a comissão tem por objetivo chegar aos “autores, investidores e patrocinadores de bunkers espalhados pelo país afora para depreciar pessoas”.

“Eu não quero saber de matiz partidário, eu não quero saber se a pessoa é filho de presidente, se é irmã de presidente, se é inimigo de presidente. Nós temos que simplesmente combater os criminosos das redes sociais”, prometeu.

E a promessa, ao que parece, não é uma notícia falsa: Fábio Wajngarten, publicitário nomeado chefe da Comunicação de Bolsonaro, e Filipe Martins, assessor da Presidência indicado por Carlos Bolsonaro, estão entre os que foram chamados a prestar esclarecimento.

Em Brasília, é dado como certo que os dois compõem o “gabinete do ódio” do governo, responsável por fazer circular teorias da conspiração e ataques contra instituições como o Congresso Nacional e o STF.

Com o risco de atingir personagens com foro privilegiado, a CPI, se conduzida com rigor, pode depender de decisões do STF, vítima constante da milícia digital. E, se para Eduardo Bolsonaro as fake news não constituem crime (“Não fomos informados de que a produção de memes representa alguma modalidade de crime”, respondeu o deputado estadual Gil Diniz (PSL-SP), acusado de compor a milícia digital de Eduardo), para Celso de Mello, decano entre os ministros, a situação é outra.

As mentiras que circulam na internet, afirmou o ministro do Supremo Tribunal Federal, tratam-se de “surtos autoritários” criminosos, frutos da “atuação sinistra de delinquentes que vivem no submundo digital”.

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1 Opinião

  1. José Cortopassi disse:

    Vivemos um momento interessante e muito perigoso em nosso país. De um lado, fato concreto, foi desmascarada a maior quadrilha de bandidos que já se teve notícia em qualquer parte do planeta. Os envolvidos, entre eles presidentes, ministros de estado, senadores, deputados, empresários e apadrinhados políticos colocados a dedo em cargos de confiança, saquearam o país, aparelharam o estado, destruíram instituições de tal forma que todos os índices de desenvolvimento nas áreas de educação, saúde, segurança caíram, porém, estes mesmos índices foram alardeados pelas mídias como estando em constante crescimento caracterizando assim não uma, mas várias fake news. E ninguém comentou nada. E tudo isso pago do meu bolso junto com mais milhões de contribuintes lesados.
    E hoje vemos esses bandidos presos na maior operação contra o crime organizado “nunca antes visto na história deste país”, a Lava Jato. Bandidos já julgados não uma, mas duas vezes e por dois tribunais diferentes e condenados nas duas instâncias.
    E o momento que vivemos agora é de apreensão, pois a corte máxima da Nação, julga justamente se os condenados ainda têm direitos após os dois julgamentos criando uma instabilidade jurídica sem precedentes que podem afetar não só o sistema penal como também o econômico, pois não haverá mais a certeza jurídica de um investimento. Tudo poderá ser contestado!
    Não defendo partido político, que a meu ver, existem em quantidade absurda, não defendo ideologias políticas, muito bonitas no papel, mas na prática se mostram absurdamente inócuas. Defendo meus amigos, o emprego gerado de forma estável e crescente, defendo a educação de base forte, defendo o prato na mesa do trabalhador honesto e principalmente defendo a ética, a integridade de cada pessoa. A honestidade. Isto sim, leva qualquer país ao desenvolvimento pleno, estável, pronto para absorver os problemas que virão e contorná-los. O resto é papo de bêbados.
    Se existe fake news hoje, com certeza existe, fico com o verdadeiro, com o que a história está escrevendo…e que não quero nunca mais ver neste país.

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