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DIAS DE TENSÃO

Crise política e medidas neoliberais aproximam América Latina de radicalização

Crise política agita diversos países do continente, o Brasil incluso, o que causa preocupações na ONU

Crise política e medidas neoliberais aproximam América Latina de radicalização
Após semanas em estado de emergência, a situação chilena segue uma incógnita (Foto: Twitter/Chilean Protesters)

A renúncia do ex-presidente boliviano Evo Morales, anunciada no último domingo, 10, após altos representantes das Forças Armadas do país declararem às redes de televisão que o então presidente reeleito deveria entregar o cargo, causou espanto aos que consideram a democracia, ainda que em versões imperfeitas, a melhor entre as formas de governo disponíveis.

A queda de Morales, acusado pela Organização dos Estados Americanos (OEA) de fraudar as eleições presidenciais no último mês, vem somar à instabilidade política que varre o continente. Cabe lembrar, Morales acatou a recomendação da OEA de realizar um novo pleito, o que não acalmou os ânimos dos manifestantes que tomaram as ruas e, em alguns casos, as casas de políticos aliados a Evo.

O temor de observadores de dentro e de fora da América Latina, entre diplomatas, emissários da ONU e especialistas em relações internacionais, é que o voluntarismo militar boliviano e a atuação de milícias de extrema-direita nas ruas animem as forças armadas dos países vizinhos, que também passam por turbulências, a intervir politicamente.

Isso pois, goste-se ou não do que fez Evo Morales em seus quase 13 anos no poder, não se pode razoavelmente negar que ele tenha sido vítima de um golpe de Estado, conforme explicou à Folha de S.Paulo o pesquisador Fernando Bizarro, do Centro de Estudos Latino-Americanos de Harvard:

“Na ciência política, a definição de golpe é a remoção inconstitucional do chefe de governo por atores de dentro do próprio governo. Nesse caso, não houve impeachment, ele foi forçado pelas Forças Armadas. Não é menos golpe porque o Exército não tomou o poder ou por Evo ter contrariado a constituição [durante o processo eleitoral].”

Caos latino-americano

Antes da Bolívia, os ares da instabilidade sopraram no Peru, Paraguai e Equador, onde Martín Vizcarra, Lenín Moreno e Mario Abdo, seus respectivos presidentes, lograram se manter, por um fio, no poder.

Abalado por uma versão da Lava Jato tão ou mais atroz que a brasileira, Vizcarra vinha propondo aos deputados peruanos, desde o ano passado, uma reforma no Judiciário. Com um sistema político distinto do brasileiro, cabe ao presidente a prerrogativa de dissolver o Congresso e convocar novas eleições caso o Legislativo se negue, por três vezes consecutivas, a analisar uma proposta do Executivo.

Depois de ser ignorado pelo Congresso, foi o que fez Vizcarra – em seguida, os congressistas se rebelaram e tentaram afastá-lo da presidência, nomeando a deputada Mercedes Aráoz nova presidente do Peru. Violentos protestos tomaram as ruas de Lima, os deputados retrocederam e aceitaram a dissolução.

No Equador, a motivação dos protestos foi econômica. Sucessor de Rafael Correa no poder, e apoiado por este na campanha presidencial, o atual presidente Lenín Moreno se apresentava como um político de centro-esquerda. No entanto, em uma tentativa de sanar as contas do estado, propôs um ajuste fiscal e tomou empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI), que fez, naturalmente, duras exigências para liberar o dinheiro.

Entre elas, estava a de zerar o subsidio aos combustíveis em vigência há mais de 40 anos. Moreno cumpriu a exigência, o que levou a um aumento de até 123% no preço da gasolina. Onze dias de protestos protagonizados sobretudo por indígenas foram o bastante para que ele desistisse da ideia. Após a morte de sete manifestantes, além dos milhares de feridos, o presidente acordou com lideranças indígenas a volta dos subsídios, e estes aceitaram suspender os protestos.

Já a crise paraguaia conta com um estranho protagonismo de autoridades brasileiras. Tudo começou quando veio à tona o acordo com o Brasil firmado pelo presidente Mario Abdo, determinando a compra adicional de energia elétrica da usina de Itaipu. O acordo era lesivo ao Paraguai, e lhe causaria prejuízos de mais de US$ 200 milhões.

Mensagens vazadas na imprensa davam conta de que Abdo sabia que os termos eram prejudiciais ao seu país, e que Pedro Ferreira, chefe da agência de eletricidade paraguaia, fora constrangido a calar-se sobre o assunto.

As conversas mostravam, ainda, que houve pressão do governo brasileiro para que Abde aceitasse o acordo – em certo ponto, um dos advogados envolvidos afirmava que o excedente de energia poderia ser vendido para a empresa Léros, segundo ele ligada “à família presidencial” brasileira. Alexandre Giordanao, suplente do senador Major Olímpio (PSL-SP), esteve nas reuniões que resultaram no acordo.

As reportagens causaram grande impacto, e a população saiu às ruas. Um processo de impeachment esteva em vias de ser aceito na Câmara, levando Abdo a desfazer o acordo com o Brasil. Por ora, perdeu força a possibilidade de ele deixar o governo.

Futuro incerto

Se a crise política teve soluções ao menos precárias no Paraguai, Equador e Peru, o mesmo não se pode dizer da Bolívia, Venezuela e Chile.

Depois de semanas em estado de emergência, a situação chilena segue uma incógnita. O presidente Sebastián Piñera fez diversas concessões aos manifestantes, que seguem, contudo, pedindo sua renúncia. Antes elogiado como laboratório bem-sucedido do neoliberalismo na América Latina, o Chile enfrenta greves e protestos há mais de 20 dias.

O que a população parece querer é, em síntese, o fim do neoliberalismo que teve início na ditadura de Pinochet. Uma nova Constituição já está, inclusive, em discussão no Congresso chileno.

Já Bolívia e Venezuela constituem casos que, para além das tensões internas destes países, refletem a inação da atual política externa brasileira.                             

Como informa Daniel Buarque, doutor em relações internacionais pela USP e colunista do UOL, “a falta de ação do Brasil como um líder regional é sempre mencionada por especialistas em política externa quando se fala sobre a crise venezuelana e a falta de articulação do Brasil com os vizinhos”.

Buarque ressalta que as impressões foram colhidas de embaixadores dos cinco países com cadeira cativa no Conselho de Segurança da ONU (EUA, Reino Unido, França, Rússia e China), e acrescenta: “com a ampliação da crise em vários países da região, e especialmente os problemas enfrentados pela Bolívia, o Brasil se destaca pelo papel que não está desempenhando.”

Correspondente internacional em Genebra, Jamil Chade, também do portal UOL, escreve que as crises políticas já desaguam na economia, inclusive no Brasil. “Para fontes no setor financeiro na Suíça, a ausência de grandes investidores estrangeiros no leilão do pré-sal não ocorreu apenas por conta de regras consideradas como pouco atrativas no Brasil”, informa Jamil.

Enquanto isso, Jair Bolsonaro, ao saber da queda de Evo, postou, em sua página no Twitter, a frase “Grande dia”, seguida de um sinal de “joinha”. Em dezembro, ele terá de negociar, ainda não se sabe ao certo com quem, um novo acordo para a compra de gás da Bolívia – sem o qual parte da indústria brasileira pode entrar em colapso.

Por fim, um acontecimento recente dá conta de que o Brasil não só tem deixado de agir para apaziguar focos de tensão, como tem atuado como agente do caos.

Em plena reunião, em Brasília, dos Brics – Brasil, Russia, Índia, China e África do Sul -, a embaixada venezuelana no Distrito Federal foi invadida por um grupo ligado a Juan Guiadó, autoproclamado presidente da Venezuela (com o apoio de Jair Bolsonaro). Eduardo, filho do presidente e chanceler informal, comemorou a invasão, o que irritou a grande maioria do corpo diplomático brasileiro.

Já a Rússia, num gesto diplomático significativo, condenou, em carta, a escalada do radicalismo na região, e pediu responsabilidade aos “vizinhos latino-americanos”. O comunicado foi compreendido, por embaixadores, como um recado a Jair Bolsonaro .

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2 Opiniões

  1. Rogério Freitas disse:

    Enquanto isso, nas pegadas de governos neoliberais, vamos perdendo o que se conquistou nos últimos tempos.

  2. carlos alberto martins disse:

    o que conquistamos nos últimos tempos foram:saúde precária,aumento no desemprego,falta de segurança,aumento de politicos estelionatarios e de empreiteiras fraudulentas.tudo isso sob a ótica de presidentes que alem de serem corruptos,mandava apoio financeiro a outras nações comandadas por ditadores que ficaram milionários a nossas custas.nada perdemos,porque nada tinhamos ganhados.o nosso povo parece com um bando de hienas,que vivem da podridão,e riem de felicidade.acorda Brasil,antes que o fundo do poço da nossa esperança fique cada vez mais fundo.

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