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Cúpula do Brics se inicia nesta quarta-feira

Interesses chineses, movidos pela iniciativa ‘Um Cinturão, Uma Rota’, devem pautar as reuniões. Bolívia, Venezuela e Hong Kong podem ser pontos de atrito

Cúpula do Brics se inicia nesta quarta-feira
Líderes já se reuniram informalmente no último mês de junho (Foto: Alan Santos/PR)

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A Cúpula dos Brics, que reúne os líderes de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, terá início nesta quarta-feira, 13, no Palácio do Itamaraty, em Brasília. As reuniões se estenderão até a próxima quinta-feira, 14.

Essa é a primeira cúpula do Brics da qual o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, vai participar. Atualmente, o Brasil está na presidência rotativa do bloco. Em 2020, essa liderança será passada para a Rússia, de Vladimir Putin.

Os principais assuntos do encontro devem girar em torno dos interesses chineses, que pretendem estender a iniciativa “Um Cinturão, Uma Rota”, considerada uma espécie de nova Rota da Seda, para a América Latina. O programa já está bem encaminhado nos continentes asiático, europeu e africano. Para chegar à América do Sul, porém, a China, de Xi Jinping, precisará de um apoio maciço do Brasil.

Diferentes analistas e economistas concordam que a China deve ser o principal comandante das conversas do Brics. Para o Brasil, os chineses são um importante parceiro comercial internacional. Dessa forma, o alinhamento do governo Bolsonaro com os Estados Unidos de Donald Trump não pode atrapalhar as relações entre Brasil e China.

Em entrevista à emissora Deutsche Welle, o economista Lívio Ribeiro, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), destacou que a China é quem manda no Brics. Para ele, os outros países serão coadjuvantes nas conversas comerciais na cúpula deste ano.

“Talvez, neste momento histórico e geopolítico da China, essa reunião possa ser interessante para tentar trazer a região, especificamente o Brasil, mas também Chile e Peru, e um pouquinho da Argentina, para dentro desse projeto [Um Cinturão, Uma Rota]. […] Quem manda no Brics é a China. Os outros têm uma postura marginal no grupo. Assim, parece-me razoável que a China use esse momento conturbado na América do Sul para dar um passo além na sua projeção de poder na região”, destacou o economista.

Possíveis atritos

O “momento conturbado”, citado por Ribeiro, diz respeito aos diferentes acontecimentos políticos na América do Sul nos últimos meses, em especial as situações de Chile, Bolívia e Venezuela. Apesar da instabilidade política em Santiago, porém, o assunto não deve render tanto debate entre os líderes, ao contrário de Bolívia e Venezuela.

Isso porque o Brasil, entre os cinco países que integram o bloco, é o único a reconhecer o autoproclamado presidente venezuelano, Juan Guaidó, como presidente da Venezuela. Rússia e China, por sua vez, reconhecem o presidente reeleito Nicolás Maduro, sendo, inclusive, os principais parceiros internacionais do líder venezuelano.

Já em relação à Bolívia, Rússia e China ainda conversam com o líder Evo Morales, que anunciou sua renúncia, nos últimos dias, denunciando o que chamou de golpe de Estado no país. O Brasil, por sua vez, reconheceu, na madrugada desta quarta-feira, a senadora Jeanine Añez como presidente em exercício da Bolívia. A parlamentar se autoproclamou chefe do Executivo do país após a Morales aceitar o asilo político oferecido pelo México.

Além da situação política na América Latina, Hong Kong também pode gerar ruídos na comunicação entre os países que compõem os Brics. Isso porque as manifestações na região continuam, à medida que a China segue tentando pôr fim aos protestos. Os Estados Unidos, governo com o qual Bolsonaro busca alinhamento, já se posicionaram favoráveis às manifestações, recebendo, inclusive, líderes de protestos anteriores – a atual manifestação não conta com líderes identificáveis – para falar sobre a situação atual na região.

O Acordo de Paris é outro ponto que pode gerar atrito entre os países emergentes. China e Rússia criticaram publicamente a recente decisão dos Estados Unidos de deixar o pacto contra as mudanças climáticas. Bolsonaro, apesar de ter afirmado, em janeiro, que o Brasil seguiria no acordo, já teceu diferentes críticas ao documento assinado em 2015.

Isolamento brasileiro

A Cúpula do Brics também é vista por analistas internacionais como uma oportunidade do Brasil mostrar que não está isolado de outras nações. Oliver Stuenkel, especialista em relações internacionais, revelou que em círculos diplomáticos internacionais circula a piada de que a China é um dos poucos países do mundo no qual Bolsonaro pode ir sem se preocupar com protestos.

Um dos fatores que apontam para o isolamento do Brasil de Bolsonaro em termos internacionais foi o fato de o presidente brasileiro não convidar nenhum país vizinho para participar da Cúpula – o convite a outros Estados é tido como uma tradição, até para a expansão de laços comerciais.

Segundo Stuenkel, o presidente brasileiro insistiu em convidar o autoproclamado presidente da Venezuela, Juan Guaidó. No entanto, os outros Estados integrantes do Brics resistiram à ideia. China e Rússia são os principais parceiros internacionais do presidente Nicolás Maduro.

Por isso, acredita-se que Bolsonaro pode buscar a mesma estratégia adotada por Putin em 2014, quando a Rússia anexou, sem apoio internacional, a região da Crimeia. Na época, o líder russo buscou apoio no Brics para não se isolar internacionalmente. Bolsonaro pode apostar no mesmo plano, principalmente com a possibilidade de Trump ser derrotado nas eleições presidenciais em 2020.

“Especialmente se Trump perder a eleição no próximo ano, o presidente brasileiro terá que olhar à sua volta. Bolsonaro tem uma imagem muito ruim na Europa e na América Latina. E se Trump perder, Bolsonaro poderá depender ainda mais dos países do Brics, onde o Brasil não tem uma imagem ruim, diferentemente da que tem na Europa”, apontou Stuenkel.

Invasão à embaixada da Venezuela

No início da manhã desta quarta-feira, a embaixada da Venezuela em Brasília foi supostamente invadida por apoiadores de Guaidó, que é reconhecido pelo Brasil como o presidente em exercício da Venezuela. O ministro das Relações Exteriores venezuelano, Jorge Arreazza, usou as redes sociais para denunciar a invasão e responsabilizar o governo brasileiro.

“Denunciamos que as instalações de nossa embaixada em Brasília foram invadidas pela força no início da manhã. Responsabilizamos o Governo do Brasil pela segurança de nossa equipe e instalações e exigimos respeito pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas”, escreveu o chanceler.

A embaixadora da Venezuela no Brasil apontada por Guaidó, María Teresa Belandria, por sua vez, negou as acusações de que houve uma invasão na embaixada. De acordo com um comunicado assinado pela embaixadora, um grupo de funcionários da embaixada passou a reconhecer Guaidó como presidente legítimo do país, abrindo as portas e entregando voluntariamente a sede diplomática.

Os deputados federais Glauber Braga (Psol-RJ) e Paulo Pimenta (PT-RS), estão na embaixada venezuelana. Segundo os parlamentares, os diplomatas venezuelanos denunciaram a invasão, que contariam com “milicianos” brasileiros e venezuelanos. Através das redes sociais, Pimenta afirmou ainda que o Itamaraty está tentando expulsar o corpo diplomático venezuelano da embaixada.

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que chegou a ser cotado para ocupar a embaixada brasileira em Washington, nos Estados Unidos, por sua vez, demonstrou apoio ao movimento para que o grupo pró-Guaidó lidere a embaixada em Brasília. “Ao que parece agora está sendo feito o certo, o justo”, escreveu o parlamentar. Segundo o jornalista Jamil Chade, do Uol, o temor entre embaixadores e diplomatas de alto escalão é que Maduro tome uma atitude similar com embaixadores brasileiros na Venezuela.

A invasão da embaixada da Venezuela em Brasília também pode ir parar na principal pauta da reunião do Brics, justamente pelo apoio de China e Rússia a Maduro. Segundo as regras internacionais, é dever do país proteger embaixadas estrangeiras em seu território. A possível falta de ação do governo Bolsonaro contra a suposta invasão pode ser vista como uma violação à Convenção de Viena.

Pelas redes sociais, o presidente Jair Bolsonaro repudiou a invasão da embaixada venezuelana. Segundo o chefe de Estado, “as medidas necessárias para resguardar a ordem pública e evitar atos de violência”.

Fontes:
DW-Interesses chineses devem ser foco de cúpula do Brics
G1-Bolsonaro recebe líderes do Brics a partir desta quarta para reunião de cúpula do bloco
Folha de São Paulo-Alinhamento automático do Brasil com EUA causa atritos na cúpula dos Brics

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