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POLÊMICA

A ‘cura gay’ e o jogo da marginalização

O juiz de Brasília jamais falou em doença, a exemplo da lei britânica de 1885 que resultou na castração química, e na morte, de um dos maiores gênios do século XX

A ‘cura gay’ e o jogo da marginalização
Alan Turing foi um dos cerca de 50 mil homossexuais condenados na Grã-Bretanha entre 1885 e 1967 por serem homossexuais (Foto: Pixabay)

É uma das cenas iniciais de “O Jogo da Imitação”, filme de 2014: quando encontrou Alan Turing pela primeira vez, em uma instalação militar secreta na pequena cidade de Bletchey, oitenta quilômetros ao norte de Londres, o comandante Alastair Denniston, da marinha real britânica, leu em voz alta o que dizia a ficha do seu entrevistado: um prodígio do departamento de matemática do King’s College, universidade de Cambridge. Ouvindo isso, Turing esboçou uma atitude de modéstia, coisa rara em se tratando de Alan Turing, no que ouviu do militar que lhe perscrutava naquele ano de 1939 a aptidão para integrar uma equipe de gênios a quem seria dada uma missão confidencial:

– Qual a sua idade, senhor Turing?

– Eu tenho 27.

– E quando entrou para Cambridge?

– Eu tinha 24.

– E quando publicou esse artigo cujo título eu mal compreendo?

– Eu tinha 23.

– E não acha que isso faz de você um prodígio?

– Bem, Newton formulou o Teorema do Binômico aos 22. Einstein publicou dois artigos que mudaram o mundo aos 26. Até onde sei estou quase dentro da média.

Albert Einsten. Em meados no ano passado, em uma entrevista dada ao jornal El País, o renomado cientista norte-americano Neil deGrasse Tyson disse, quando perguntando sobre a relação entre desigualdade, rejeição à ciência e radicalismo, que “o próximo Einstein pode estar morrendo de fome na Etiópia”, e completou: “uma das grandes tragédias da atualidade é que nem todo mundo tenha a oportunidade de ser tudo o que pode ser”.

Mas essa estirpe de tragédia, a rigor, não é de hoje, como fica evidente quando se evoca a memória e a história, por exemplo, do próprio Alan Mathison Turing. Memória e história muito didáticas para esses dias em que a celeuma em torno da “cura gay” (terapias de “reversão” da homossexualidade) voltou com força no Brasil depois que o juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, atendendo a uma demanda de uma “psicóloga e missionária” do Distrito Federal, achou por bem autorizar esses profissionais (os psicólogos; não propriamente os missionários) a “promoverem estudos ou atendimento profissional, de forma reservada, pertinente à (re)orientação sexual, garantindo-lhes, assim, a plena liberdade científica acerca da matéria, sem qualquer censura ou necessidade de licença prévia”.

Turing, notório prodígio, como se viu, e afinal recrutado para o serviço secreto britânico, logrou criar um mecanismo capaz de entender padrões e processar dados que foi com o que a Grã-Bretanha conseguiu decifrar a “indecifrável” criptografia da comunicação nazista. Estima-se que esse feito tenha encurtado a Segunda Guerra Mundial em pelo menos dois anos, poupando milhões de vidas.

O trabalho de Alan Turing na Segunda Guerra inspirou pesquisas que anos mais tarde resultaram nas chamadas “máquinas de Turing”, precursoras dos computadores pessoais, os PCs, e portanto dos modernos desktops, laptops, smartphones e toda sorte de gadgets com que muitos brasileiros agora vão às redes sociais dar sua participação no debate sobre a “cura gay”, parte deles minimizando a decisão do juiz da 14ª Vara Federal de Brasília, porque afinal o magistrado, em sua liminar, não chegou a falar em doença — tampouco o fez, aliás, a Emenda Labouchere, a lei de criminalização do homossexualismo masculino, com pena de dois anos atrás das grades, por cujo descumprimento Turing foi condenado em 1952.

É uma das cenas finais de “O jogo da imitação”: um debilitado Alan Turing recebe em casa, na cidade de Manchester, a visita de Joan Clarke, uma antiga colega da equipe anti-criptografia de Bletchey. Enquanto conversam, Turing deixa cair um copo no chão. Joan percebe que as mãos do velho amigo não param de tremer. Ele explica:

– É a medicação.

– A medicação?

– O juiz me deu uma opção: dois anos na prisão ou terapia hormonal. Castração química. Para curar minha tendência homossexual.

Alan Turing foi um dos cerca de 50 mil homossexuais condenados na Grã-Bretanha entre 1885 e 1967 por serem homossexuais. Outro foi Oscar Wilde. Turing tinha 41 anos de idade quando não pôde mais suportar a humilhação pública a que foi submetido e a impossibilidade de seguir trabalhado, pesquisando, criando e ensinando por causa das cavalares doses de estrogênio com que o Estado pretendia fazer sua “(re)orientação sexual”.

A rainha Elizabeth II já havia sido coroada quando o prodígio do departamento de matemática de Cambridge resolveu trocar as muitas doses de estrogênio por uma única de cianeto, no dia 7 de junho de 1954. Quase 60 anos depois, em 2013, a monarca “concedeu” a Alan Turing, em vez de pedir-lhe de joelhos, o perdão real.

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1 Opinião

  1. Daniela Villa disse:

    “uma das grandes tragédias da atualidade é que nem todo mundo tenha a oportunidade de ser tudo o que pode ser”.( Neil deGrasse Tyson).

    Mas pelo menos é garantido que todos podem ser o que são.

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