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REPORTAGEM DA 'ÉPOCA'

Damares é acusada de raptar e criar ilegalmente criança indígena

Caso é tema de reportagem da revista 'Época' e envolve Lulu Kamayurá, hoje apresentada pela ministra como sua filha adotiva

Damares é acusada de raptar e criar ilegalmente criança indígena
Segundo relatos, Damares levou a menina quando ela tinha seis anos de idade (Foto: Valter Campanato/ABr)

A nova edição da revista Época, a ser publicada em 4 de fevereiro, traz como matéria de capa uma reportagem que acusa a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, de ter sequestrado uma criança indígena de uma aldeia da tribo Kamayurá, no Xingu, há 15 anos.

A menina em questão seria Kajutiti Lulu Kamayurá, que hoje é apresentada pela ministra como sua filha adotiva. “Minha filha foi salva do sacrifício. No povo dela, quando ela nasceu, mãe solteira não podia criar filhos e tinha que matar o bebê. Ela acabou sendo abandonada e outra família a pegou, mas não estava dando conta. Lulu tinha muitas dores físicas e emocionais”, disse a ministra a um canal evangélico no YouTube, segundo noticiou o Extra. O processo de adoção, no entanto, nunca foi formalizado e a retirada da criança da aldeia até hoje é motivo de polêmica na tribo.

A reportagem entrevistou indígenas da tribo e coletou relatos sobre o episódio. De acordo com os relatos colhidos, Lulu foi criada pela avó paterna, Tanumakaru, uma idosa franzina e cega de um olho. A indígena estampa a capa da revista, com uma de suas frases como título da reportagem: “A branca levou Lulu”.

Lulu foi levada da tribo quando tinha seis anos por Damares e Márcia Suzuki, amiga de longa data da ministra, que fundou junto com ela a ONG Atini – uma organização ligada à Igreja Metodista e voltada para assistência da população indígena.

Segundo depoimentos dados aos repórteres da revista, Natália Portinari e Vinícius Sassine, Damares e Márcia apareceram na tribo se apresentando como missionárias. Elas expressaram preocupação em relação à saúde bucal de Lulu. Elas levaram a menina sob o pretexto de fazer um tratamento dentário na cidade e nunca mais retornaram.

Falando em tupi, a avó de Lulu relatou o momento da separação e diz que a menina foi levada à força. “Chorei, e Lulu estava chorando também por deixar a avó. Márcia levou na marra. Disse que ia mandar de volta, que quando entrasse de férias ia mandar aqui. Cadê?”, disse Tanumakaru. Questionada se sabia que não veria mais a menina, Tanumakaru respondeu: “Nunca”.

Através do WhatsApp, a ministra entrou em contato com os repórteres quando ainda estavam no Xingu, afirmando estar “à disposição para responder às perguntas […] sobre nossas crianças, sobre minha filha e sobre as famílias”.

“Não temos nada a esconder. Mas insisto: tratem tudo com o olhar especial para estes povos, para as mães e crianças que sofrem”, disse Damares.

Em Brasília, no entanto, a ministra se recusou a dar entrevista e respondeu apenas parcialmente aos 14 questionamentos feitos pela equipe da revista.

Damares afirmou que todos os direitos de Lulu foram observados e que nenhuma lei foi violada. Ela disse também que a menina visita a família biológica regularmente, que primos e irmãos que saíram com ela da aldeia moram em Brasília e que todos mantêm uma relação afetiva. Damares não respondeu por que não formalizou o processo de adoção da menina. A reportagem completa já pode ser conferida por assinantes através do aplicativo Globo+, que pode ser baixado nos sistemas da Apple e do Android.

Esta não é a primeira vez que a ONG de Damares é acusada de sequestrar crianças indígenas. Em dezembro do ano passado, uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo revelou que a Atini é alvo de indigenistas e do Ministério Público por acusações de tráfico e sequestro de crianças e incitação de ódio contra indígenas.

Segundo a reportagem, sob um falso selo humanitário, a ONG explora um tema de grande comoção pública para legitimar suas ações: o infanticídio de crianças indígenas, que nascem com algum tipo de deficiência, praticado por algumas tribos.

A reportagem da Folha cita que, em 2016, a Polícia Federal pediu informações sobre casos suspeitos de “tráfico e exploração sexual” de indígenas à Fundação Nacional do Índio (Funai) – órgão atualmente subordinado à Damares. O despacho envido pela Funai à PF cita a Atini e outras duas ONGs. O processo ainda tramita no órgão.

Atualmente, há três ações judiciais contra a Atini em curso, sendo que uma corre em segredo de Justiça em uma vara criminal em Volta Redonda, no Rio de Janeiro. Esta, segundo documento obtido pela Folha, tem como peça central uma indígena de 16 anos da etnia sateré-mawé. A adolescente foi levada para uma chácara da Atini em 2010, por um tio materno e sua esposa. Ela foi apresentada como filha do casal. Na chácara, ela engravidou de um jovem de outra tribo.

Segundo os procuradores, um casal planejava adotar o bebê sob a justificativa de que a adolescente “portava transtornos mentais e possuía histórico de maus-tratos pelos pais, o que teria motivado a ONG a retirá-la do convívio com os índios”. O casal também afirmou que a jovem atentou contra a vida da filha em duas ocasiões.

Para os procuradores, a história envolvendo a jovem “foi retorcida e distorcida até fazer parecer uma adoção comum de uma criança vulnerável de mãe incapaz por um casal de classe média de Volta Redonda”.

A criança, hoje, vive sob tutela do irmão de Márcia Suzuki, que obteve sua guarda provisória. Márcia também tem uma filha indígena adotiva. Ela se chama Hakani, em referência a um filme sobre a história de uma menina indígena de mesmo nome.

Lançado em 2008, o filme é um docudrama, e mistura ficção e realidade. Na história, uma menina chamada Hakani, da etnia suruwahá, teria sido resgatada por missionários, após ter sido enterrada viva pelo irmão. O documentário gerou furor por fazer crer que a prática é comum entre indígenas, quando, na verdade, é restrita a poucas tribos.

O filme motivou duas ações do Ministério Público, que suspendeu sua veiculação. Em uma das ações, o MP destaca que a produção é “mais um elemento da campanha difamatória em face dos índios brasileiros, bem como uma justificativa para a atuação religiosa e missionária das organizações em aldeias”.

Em outra ação, o órgão destaca o fato de a produção do filme ter escalado como atores crianças da etnia karitiana, tribo que não pratica o infanticídio.

A ministra Damares se afastou da ONG Atini em 2015, quando passou a atuar como assessora no gabinete do senador Magno Malta (PR-ES). Em dezembro do ano passado, ela foi alçada ao cargo de ministra pelo governo de Jair Bolsonaro (PSL) e atualmente é uma das figuras mais polêmicas do novo governo.

 

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1 Opinião

  1. Jan disse:

    Infelizmente apenas um lado da história está sendo usado para manipulação política. Essas crianças seriam assassinadas seguindo as tradições das tribos.

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