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Dando a vitória ao inimigo

Será que não tem um limite as medidas para a suposta proteção à guerra ao terror nos aeroportos dos EUA? Por Renato Lima

Dando a vitória ao inimigo
A polêmica máquinas de raio-X que permite gravar um perfil quase pornô do passageiro (fonte: eBand)

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Viajar de avião antes dos ataques de 11 de setembro parecia um paraíso em comparação com o calvário que hoje se enfrenta para viagens internacionais ou mesmo dentro dos Estados Unidos. Era colocar a mala no raio-X, passar pelo detector de metais e entrar na aeronave — para então, por sinal, ter um serviço mais completo do que o oferecido hoje. Entretanto, o uso do avião como arma letal por terroristas fez os governos (principalmente o americano) apertarem as normas de fiscalização. E cada vez mais. Será que  as medidas para a suposta proteção à guerra ao terror não têm um limite?

As pessoas desconfiadas, que olham para todos como terroristas potenciais nos aeroportos dos Estados Unidos, são os agentes da TSA, responsável pela segurança nos transportes. No seu mais recente método de abordagem, os agentes da TSA podem fazer uma revista no passageiro, de fazer corar segurança de casa de pagode em bairros notoriamente violentos no Brasil. E isso, mesmo se a pessoa aceita passar pelas polêmicas máquinas de raio-X que permitem gravar um perfil quase pornô do passageiro, em vez do tradicional detector de metais.

Até o momento, os estudos disponíveis dizem que essas radiações são pequenas, mesmo para passageiros frequentes. Entretanto, é bom lembrar que todo medicamento que já foi aprovado pela agência que autoriza drogas nos EUA, um dia pareceu seguro, e muitos desses remédios depois se revelaram perigosos e foram retirados do mercado. Esse tipo de medicamento faz hoje a alegria dos escritórios de advocacia que catam pacientes para processarem a indústria médica. E se, apesar da baixa emissão de radiação, a alta frequência com que o passageiro é exposto nos aparelhos de raio-X da TSA se mostrarem nocivos a longo prazo? Será que todo mundo que foi obrigado a passar por uma máquina dessa por imposição governamental vai poder processar futuramente o próprio governo? Dado o tamanho do passivo em potencial, é difícil acreditar nisso.

Seja por receio médico, seja por achar que já passou do limite a intromissão na intimidade das pessoas, os scanners da TSA e a revista dos seus agentes despertaram a ira de uma pequena parte da opinião pública americana (e de quem aqui vive a trabalho ou a estudo, como este humilde escriba). Em recente jantar de ação de graças, o famoso Thanksgiving americano, eu e amigos debatemos o assunto até a madrugada. Pessoas de diversas formações, incluindo economia, antropologia, psicologia e jornalismo, ponderaram o ganho marginal de segurança, o ataque a liberdades individuais, a legalidade de tal ação que presume a culpa e a eficácia ou não de meios alternativos de segurança, como a adoção de perfil comportamental. Ao que um colega relatava que tinha como prioridade a segurança do seu voo, e estava disposto a que o governo adotasse o máximo possível nesse sentido, outra pessoa lembrava que nunca ouviu falar de um terrorista detido na fila da TSA. Além disso, destacou uma gestante presente no jantar, há quem não possa passar com segurança pelo aparelho de raio-X por estar esperando um bebê ou ter um marca-passo. Outro dizia que presenciou duas meninas lindas da fila de segurança serem escolhidas “aleatoriamente” para a revista; este não foi feito por um homem, mas ainda assim ficou um espiando de longe.

Esse é apenas o lance mais recente de um processo que inclui não poder viajar com líquidos acima de 100ml em cada frasco, ter que tirar os sapatos, o cinto, o notebook e eletrônicos dentro de uma bandeja. E ainda, depois de tudo isso, em muitas ocasiões, o passageiro tanto tem que passar pela máquina de raio-x quanto ser apalpado pelos agentes da TSA.

É bom lembrar que, além desse inferno para o passageiro, do 11 de setembro para cá, a porta do comando da aeronave é blindada e agentes de inteligência voam nos jatos como passageiros comuns. Será que de fato é necessário fazer uma revista numa criança de quatro anos ou numa vovó de cadeira de rodas, como se tem visto? Ou devemos analisar a TSA como uma agência que cresceu, criou os seus próprios interesses, e vai sempre superestimar riscos para justificar medidas adicionais, bilionárias e de eficácia duvidosa?

Cada vez que temos que mudar nossos hábitos e ceder um pouco de liberdade e conveniência por causa de terroristas, eles ganham mais uma batalha. O terrorista não precisa derrubar um avião para vencer; basta incutir medo, modificar o padrão de vida de suas vítimas e acuá-las. Se países como a Inglaterra e os Estados Unidos tiveram que passar por restrições de liberdade e economia de comando durante a Segunda Guerra Mundial, era porque se sabia que aquele modo de vida era temporário e teria fim com a derrota dos inimigos da democracia. Mas em se tratando de uma guerra ao terror que não tem nenhuma perspectiva de acabar, já que não se está lutando contra um exército, mas contra uma ideologia religiosa radical, muito mais cautela é necessária. E isso vale não só para a TSA, como para vários outros aspectos dessa guerra ao terror, incluindo o WikiLeaks.

Os Estados Unidos entraram numa cruzada contra Julian Assange do WikiLeaks, não por causa das fofocas de diplomatas já reveladas, mas com o argumento de que entre os dados podem estar segredos de fontes que colaboram com o exército americano e que as revelações podem colocar vidas em risco. Trata-se de um perigo em potencial, que não está presente nos documentos vazados até o momento. Mas, por esse pretexto, políticos influentes nos Estados Unidos cobraram o extermínio de Assange e que ele fosse caçado como um talibã. Essa é a mesma retórica de estados totalitários, que justificavam a privação de liberdades em nome da proteção. A guerra ao terror é legítima para garantir as liberdades democráticas e um mundo tolerante. Fazer o contrário é dar a vitória ao inimigo, ainda que a retórica seja de combate ao terrorismo.

Fontes:
Ordem livre.org - Dando a vitória ao inimigo

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6 Opiniões

  1. Paulo Fernando disse:

    Cada fato que se passa na vida da humanidade certamente, servirá de lição ou aprendizagem, para o aperfeiçoamento futuro de maneira a não parar os avanços da tecnologia e da era do conhecimento em prol do bem que se procura alcançar. O mundo mudou e a cada momento o homem tem que ser mais pensante, para as novas travesias que ficarão mais dificeis em épocas futuras.

  2. Carlos U. Pozzobon disse:

    Esse é um problema para o Congresso americano. Nessa hora parece que não existe democracia, ou que o povo não tem representantes para decidir em seu nome. Enquanto isso, prosseguem as humilhações em nome de um suposto terrorismo. Eu diria para as pessoas ficarem atentas ao que está acontecendo no mundo. Me parece um degrau, apenas um começo, da erosão de liberdades individuais, seja no constrangimento de revistas, seja na perseguição de Assange. Espero que não seja o primeiro passo de um neototalitarismo em marcha.

  3. Paulo disse:

    Como passageiro frequente de voos internacionais – principalmente Estados Unidos, fico satisfeito e tranquilo com a acao da TSA inclusive o uso de Raio X.
    O problema nao sao as normas e procedimentos de seguranca, mas sim o Terrorismo Internacional que obrigou os paises a instituirem essas normas.Em vez de criticarmos essas tao necessarias medidas, deveriamos estar criticando o que as causou.

  4. Markut disse:

    A inevitavel paranóia está instalada, no mundo ocidental.
    No ponto em que a coisa chegou, o terrorista não precisa mais nem derrubar aviões, contra arranha céus. Basta este clima de insegurança,para transtornar a vida e as mentes das pessoas.
    Virou guerra psicológica eficientíssima. Qual será o fim disso tudo?
    A lição transmitida pelo fundamentalismo muçulmano da apologia da morte e da barbárie está superando todos os conceitos de civilização, enraizados na nossa cultura ocidental.
    O momento é de uma profunda avaliação crítica da escala de valores da humanidade.

  5. Peter Pablo Delfim disse:

    Até que enfim! Meus sinceros cumprimentos a observação do comentarista CARLOS U. POZZOBON.
    Sua frase reduz toda e qualquer outra divagação sobre o assunto. “NEOTOTALITARISMO EM MARCHA”. Disse tudo!

  6. WANDERLEY FONSECA SILVA disse:

    ROMA CERCOU-SE DE INIMIGOS QUANDO CRESCEU MILITARIZOU E TOMOU TODA A PENÍNSULA ITÁLICA, TRANSFORMANDO-SE NUM ESTADO AVASSALADOR.O MESMO ACONTECE COM OS NORTEAMERICANOS COM SEU FABULOSO E ASSIMÉTRICO PODERIO MILITAR A IMPÔR AO MUNDO SUA DIPLOMACIA DE ULTIMATOS.NINGUÉM PODE SER CONTRA SUA CULTURA SIM CONTRA SUA OBCESSÃO DE HEGEMONIA MUNDIAL.
    ESTA PREPOTÊNCIA EXPLICA O TERRORISMO.
    O MUNDO ATÔNITO ASSISTIU AO MASSACRE DO VIETNAM,IRAQUE,AFGANISTÃO.O IMPASSE ESTÁ EM QUE O MUÇULMANO NÃO LUTA POR PÁTRIA,LUTA PELO SEU DEUS.CRÊ QUE AO IMOLAR-SE PELA FÉ SERÁ PRÍNCIPE DE ALAH E SE SENTARÁ AO SEU LADO.

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