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Deloitte Brasil é multada por irregularidades nos EUA

Filial brasileira da maior empresa de contabilidade do mundo é acusada de irregularidades em auditoria

Deloitte Brasil é multada por irregularidades nos EUA
Segundo investigador, é o ‘mais grave caso de conduta imprópria já descoberto’ (Foto: Flickr/olijon)

Escândalos contábeis não surpreendem ninguém no Brasil. A ex-presidente Dilma Rousseff foi destituída do cargo em agosto, sob a acusação de irregularidades nas operações orçamentárias do governo. Os principais executivos das maiores empreiteiras do país estão presos em razão de contratos firmados com a companhia estatal de petróleo, Petrobras, sem o cumprimento das regras de licitação e por denúncias de suborno. Pelo menos, dizem alguns especialistas em governança corporativa, todos os imbróglios e a aplicação da Lei Anticorrupção, promulgada em 1º de agosto de 2013, forçaram as empresas a substituírem os chamados departamentos de corrupção por órgãos responsáveis pela supervisão e gerenciamento de procedimentos administrativos. Portanto, é irônico que o último escândalo no Brasil envolva uma empresa de auditoria responsável pelo exame e parecer sobre as operações contábeis de uma empresa ou instituição.

Em 5 de dezembro, a filial brasileira da Deloitte Touche Tohmatsu, a maior empresa de contabilidade entre as quatro maiores do mundo, concordou em pagar uma multa de US$8 milhões imposta pelo Public Company Accounting Oversight Board (PCAOB), o órgão regulador do setor de auditorias dos EUA, por ter, segundo Claudius Modesti, o diretor de investigações do órgão, “cometido o mais grave caso de conduta imprópria já descoberta”.

A Deloitte é a primeira das quatro grandes empresas de contabilidade acusada de não ter cooperado com uma investigação do PCAOB, criada pela Lei Sarbanes-Oxley, aprovada em 2002, como uma reação a escândalos financeiros corporativos, como o da empresa de energia Enron. A Deloitte Brasil terá também de pagar uma multa de R$5,4 milhões (US$1,6 milhão) aos órgãos reguladores brasileiros.

O cerne do problema se concentra na auditoria realizada pela Deloitte Brasil na Gol Linhas Aéreas, uma companhia aérea com ações na Bolsa de Valores de Nova York, que se encontra em dificuldades financeiras. Em 2012, o PCAOB examinou os relatórios de auditoria da empresa durante uma inspeção de rotina. Os inspetores descobriram que no ano anterior, os principais auditores da Deloitte atestaram os registros contábeis da companhia, embora soubessem que seus funcionários ainda estavam revendo esses documentos devido a erros, sobretudo os relacionados aos recursos financeiros destinados ao pagamento da manutenção dos aviões.

Uma investigação posterior revelou as tentativas sistemáticas de executivos e sócios de adulterar os documentos financeiros, esconder provas e informações dos inspetores. Uma auditoria realizada pela Deloitte Brasil na Oi, uma empresa de telecomunicações que entrou com um pedido de recuperação judicial em junho, também apontou irregularidades nos relatórios apresentados.

Em relação à escala das multas que os órgãos reguladores têm aplicado aos bancos nos últimos anos, a multa da Deloitte é pequena. Mas é um recorde para o PCAOB. Doze ex-sócios e auditores estão proibidos de trabalhar em empresas de contabilidade que o PCAOB supervisiona pelo resto da vida, com exceção de um deles. Como parte do acordo com o órgão regulador, a Deloitte Brasil enfrentou uma situação humilhante com a nomeação de um monitor independente, que supervisionará as atividades da empresa até pelo menos meados de 2017.

Os críticos de empresas de auditoria irão citar o caso da Deloitte como mais uma evidência que o mundo está passando por uma crise de fraude contábil. O PCAOB aplicou uma multa de US$750 mil à Deloitte no México por não ter adotado medidas apropriadas para documentar suas auditorias. Em agosto, a PwC envolveu-se em um processo de  US$5,5 bilhões nos EUA por não ter conseguido detectar uma fraude que causou a falência do Colonial BancGroup, uma instituição americana que fornecia empréstimos. No ano passado, a EY, outra das quatro grandes empresas de contabilidade, não apontou problemas na Toshiba, que obrigaram a empresa japonesa a reformular seu orçamento em US$1,9 bilhão.

A tendência mundial indica a busca de uma eficiência maior e transparência nos serviços de auditoria. Como resultado, nos últimos dez anos as maiores reformulações contábeis nos EUA diminuíram de mais de US$6 bilhões para menos de US$1 bilhão. Em 2015, a escala de todas as reformulações foi de apenas US$2,7 bilhões, ou 0,3% de todos os lucros corporativos. Os padrões em outros lugares também melhoraram, em parte porque a Europa e muitos países emergentes, entre os quais os países latino-americanos, adotaram normas internacionais de contabilidade. O fracasso do desempenho da Deloitte Brasil é deprimente, mas pelo menos foi descoberto e punido.

Fontes:
The Economist-America’s audit watchdog uncovers serious misconduct at Deloitte Brazil

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