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CRISE NO MEC

Demissão de ministro expõe escassez de ideias de Bolsonaro para a Educação

Imerso em controvérsias ideológicas, Ministério da Educação chega aos 100 dias sem apresentar planos para melhorias no setor

Demissão de ministro expõe escassez de ideias de Bolsonaro para a Educação
Em 100 dias de governo, Pasta a ser chefiada por Weintraub coleciona polêmicas (Foto: EBC)

Depois de três meses de atritos com militares e ideólogos do governo, recuos em medidas consideradas ilegais e paralisia administrativa à frente do Ministério da Educação (MEC), o professor colombiano Ricardo Vélez foi enfim demitido do cargo. Ele será substituído por Abraham Weintraub, economista ligado ao mercado financeiro sem prévia experiência na gestão educacional.

Palco de disputas entre a ala radical da bancada evangélica e os estridentes discípulos do escritor Olavo de Carvalho, que pregam o foco no “combate à ideologia de gênero” e à “doutrinação esquerdista” nas escolas, e oficiais das Forças Armadas tidos como pragmáticos que querem ampliar o ensino militar e técnico, o MEC chegou ao mês de abril sem entregar nenhuma medida, ou mesmo um plano de ações, que represente melhoria efetiva para a Educação.

Pelo contrário, a Pasta a ser chefiada por Weintraub coleciona polêmicas, como no episódio em que o ex-ministro recomendou que as escolas gravassem os alunos repetindo slogans de campanha de Bolsonaro, ou em sua última e desesperada tentativa de manter-se no cargo, quando, fazendo eco às teorias de seu ex-chefe, Vélez afirmou que os livros escolares seriam revistos para excluir o fato histórico de que a tomada de poder pelos militares em 1964 configurou um golpe de Estado.

Como consequência, programas fundamentais para o andamento da Pasta estão atrasados ou paralisados, como a avaliação da educação em tempo integral e do grau de alfabetização dos alunos, a discussão no Congresso da prorrogação do Fundeb, que destina bilhões de reais para escolas em todo o país, e o planejamento do Programa Nacional de Livros Didático, o que pode deixar alunos sem material de estudo em um futuro próximo. Por fim, também a prova do Enem, maior vestibular do Brasil e que dá acesso às universidades públicas e às bolsas do Prouni, pode ser afetada pelas trapalhadas no MEC.

Programas desmantelados, pressões ideológicas e escassez de ideias

A situação no MEC foi exposta com eloquência pela deputada federal em primeiro mandato Tábata Amaral (PDT), que questionou Vélez em audiência na Câmara: “Em um trimestre não é possível que o senhor apresente um Power Point com dois, três desejos para cada área da Educação. Cadê os projetos? Cadê as metas? Quem são os responsáveis?”, perguntou.

Com a mesma dúvida de Tábata, secretários estaduais de Educação, representados pelo Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), e a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) apresentaram uma carta aberta solicitando foco em demandas prioritárias e de “máxima urgência”.

Questionado pela rádio Gaúcha sobre quais programas de ensino seguem parados desde o início do governo Bolsonaro, Luiz Castro, vice-presidente do Consed, respondeu: “Todos”.

Conturbados, contudo, os primeiros meses da Educação em 2019 não foram marcados exclusivamente pela paralisia: diversas políticas públicas para a área foram desmanteladas na nova gestão.

Em um edital para compra de material didático lançado no início do ano, o MEC suprimiu, entre outros, trechos que exigiam das editoras a abordagem de temas como a não violência contra a mulher. De acordo com a Folha de S.Paulo, a equipe do presidente considera o assunto “tema da esquerda”.

Também a Assessoria Estratégica de Evidências, responsável por coletar pesquisas e dados científicos que norteiem as ações do MEC, foi desmontada por Vélez, o que colocou em suspenso a avaliação do programa de educação em tempo integral, bandeira antiga de organizações não governamentais que atuam na área.

Exposto à pressões da base eleitoral conservadora de Bolsonaro, o MEC tem, enfim, rejeitado estudos e números que apontam para as carências da Educação no Brasil, privilegiando uma abordagem ideológica. Ações como a “Lava Jato da Educação”, divulgada pelo MEC como uma ação de marketing e que ainda não saiu do papel, servem na verdade, na avaliação da ONG Pensar a Educação, para mascarar os retrocessos na Pasta.

“O MEC não está paralisado. O vai-e-vem da equipe e as contínuas retratações públicas do ministério são parte do jogo em que se decide os destinos da Educação e do país. O ministério e sua incompetente e fluída equipe estão alinhados e trabalhando numa pauta que nos faz regressar décadas em ternos de estrutura de Estado e séculos em termos de valores políticos, culturais e educacionais”, escreveu, em editorial, a ONG, composta por educadores e especialistas da área.

Fora sua preocupação com a chamada “doutrinação marxista” nas escolas, Bolsonaro, que admitiu que as coisas “não estão dando certo” no MEC, não demonstrava proximidade com o tema durante a eleição presidencial.

Em seu plano de governo, apenas três páginas foram dedicadas a propostas genéricas para a Educação. Encontros voltados especificamente para o assunto, dos quais participaram representantes da campanha de Marina, Haddad, Alckmin e Ciro, entre outros candidatos, tampouco contaram com a presença de assessores do capitão reformado.

“Assim como o novo governo tem iniciativas prioritárias na Economia e na Segurança, esperava-se que também houvesse atenção à Educação. Mas, até agora, não”, disse, ao Fórum Desafios da Educação, o sociólogo Simon Schwartzman.

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5 Opiniões

  1. Anselmo Heidrich disse:

    Vamos ver qual é do novo ministro, mas já adianto que eu desejaria SIMON SCHWARTZMAN. Acompanhem-no no Facebook para ver se não tenho razão.

  2. Áureo Ramos de Souza disse:

    Na educação tem que ser colocado um ministro de alguma faculdade, não qualquer nome que foi indicado por fulano ou cliclano.

  3. Rogério Freitas disse:

    Este artigo retrata o que eu esperava do novo governo para a educação em nosso país, ou seja, retrocesso. Que o novo ministro, apesar da falta de propostas no plano de governo, recupere o que perdemos na gestão do Vélez e promova mudanças que incentivem educadores e educandos a descobrir o Brasil novamente.

  4. Ludwig Von Drake disse:

    É prematuro julgar pelo resultado de apenas cem dias. A Educação no Brasil é um desastre completo em todos os setores, públicos ou particulares, desde o final da década de 1970. Muitos dos que reclamam do atual governo, são partícipes dessa tragédia.

  5. André Vinícius Vieites disse:

    Duas grandes transformações que parecem se acentuar na segunda década do século XXI desafiam os analistas do nosso tempo. A primeira é o fim da concepção de mundo “unipolar”, decretado depois da Guerra Fria, pela ideia de mundo “multipolar” e que apresenta os Estados novamente fortalecidos pelo retorno da geopolítica das nações. A segunda indica que o reduzido círculo das potências mundiais, que sempre comandou o jogo – jogo ou circunstâncias da vida. Verdade, e educandos a descobrir o Brasil novamente.

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