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Demissões em massa: seria o fim do jornalismo?

Centenas de jornalistas demitidos, agrupamento de editorias, veículos de comunicação em séria crise financeira. Seria o jornalismo uma profissão em extinção?

Demissões em massa: seria o fim do jornalismo?
Cortes afetam jornais impressos, portais, rádios e emissoras de televisão, independentemente da linha editorial (Foto: Abi)

Conhecidas entre jornalistas como “passaralhos”, as demissões em massa se tornaram uma realidade constante nas redações dos veículos de comunicação do país. Desde 2012, já foram demitidos 1.280 jornalistas, segundo a agência de dados Volt Data Lab.

Os cortes afetam jornais impressos, portais, rádios e emissoras de televisão, independentemente da linha editorial. Este ano, o site Terra demitiu 110 jornalistas. A Editora Abril, campeã dos passaralhos, dispensou 175, chegando a ser alvo de uma decisão da Justiça que proibiu novos cortes, sob a pena de R$ 15 mil por jornalista demitido. O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo demitiram, respectivamente, 71 e 65 jornalistas. No jornal O Dia, foram 30 demitidos.

Redações vazias: desde 2012, já foram 1.280 jornalistas demitidos (Foto: Flickr)

Redações vazias: desde 2012, já foram 1.280 jornalistas demitidos (Foto: Flickr)

O último corte, e também o mais chocante, ocorreu no início deste mês, na Infoglobo, empresa responsável pelos jornais Globo, Extra e Expresso. Foram demitidos 400 funcionários, sendo pelo menos 60 dos departamentos de jornalismo do Globo. Entre os maiores espantos está a dispensa de grandes nomes do ramo, como Marceu Vieira, Cora Ronai e Helena Celestino, além do encerramento do caderno Prosa & Verso.

Nesse contexto, é impossível deixar de se perguntar: seria o jornalismo uma profissão em extinção? Para muitos que optaram por mudar de área, sim. É o caso de Renato (nome fictício). Em condição de anonimato, ele contou ao Opinião & Notícia por que trocou o jornalismo pela enfermagem. “No meu último ano de faculdade consegui um estágio na Super Rádio Tupi. Saí de lá assim que me formei, em 2012, sendo recontratado logo depois. Trabalhei lá por seis meses até ser dispensado, sem saber o motivo. Passei 11 meses procurando emprego. Surgiu uma oportunidade para Técnico de Enfermagem, curso que fiz junto com o ensino médio. Posso afirmar que, mesmo em crise, a oferta de empregos nesse ramo é 50 vezes maior do que na área de Comunicação.”

Outros, porém, preferem seguir tentando, como Bianca Borges, que já trabalhou como repórter, redatora, produtora e apresentadora de rádio. “Uma vez, entrevistei um jornalista que atua na Amazônia há 40 anos e perguntei por que ele continuava a fazer o trabalho, independente e pouco lucrativo, apesar das dificuldades, processos e ameaças. Ele disse que, simplesmente, não tinha outra opção. Eu respondi ‘Mas Lúcio, você tem sim, pode, simplesmente, parar’. Mas o fato é que isso nunca foi uma opção para ele. Não querendo ser pretensiosa e me comparar com a maior referência em jornalismo na Amazônia [Lúcio Flávio Pinto] mas eu sentia desde adolescente que a minha vida só faria sentido se eu pudesse contar e ouvir histórias. Quando escolhi o curso, sentia que não poderia fazer outra coisa da vida. Eu não seria feliz, não seria eu mesma.”. Atualmente, Bianca atua como jornalista freelancer.

Qual a causa dos passaralhos?                                    

Sérgio Spagnuolo, jornalista especializado em jornalismo de dados e editor do site Volt Data Lab conversou com o O&N sobre os cortes em massa. Em seu site, ele criou um projeto para contabilizar as demissões. O sucesso foi tanto que gerou uma página dedicada apenas à análise do fato.

“Criei um banco de dados onde é possível pesquisar por empresa e ver quantos jornalistas e funcionários de outras atividades foram demitidos por cada empresa de mídia brasileira”, diz Spagnuolo, que também já atuou em jornalismo financeiro em veículos como a Reuters.

Notícias declaratórias, sem a devida apuração dos fatos, afetam a credibilidade da profissão (Foto: Flickr)

Notícias declaratórias, sem a devida apuração dos fatos, afetam a credibilidade da profissão (Foto: Flickr)

As demissões, muitas vezes, miram os jornalistas mais antigos, com mais experiência, que acabam substituídos por outros, mais novos e com salários mais baixos. Essa tendência acaba cortando uma corrente vital para o bom funcionamento das redações: a inovação dos jornalistas mais novos somada à experiência dos mais antigos. Com menos gente, a fusão de editorias e o acúmulo de funções é inevitável. E a consequência é a precarização da qualidade da informação, fazendo o veículo perder credibilidade. Segundo Spagnuolo, isso gera o atual jornalismo do “disse especialista”. “Não digo em todos os veículos, mas nos grandes, com certeza. É só ver a home da Folha, do Estadão, do UOL. A maioria das matérias são declaratórias. ‘Economia vai mal, diz fulano’, ‘Presidente está errada, diz Cunha’. Tem menos gente fazendo muita coisa, então se baseiam em coisas rápidas, fáceis de fazer.”

Esse tipo de matéria, no entanto, não cativa o leitor, que, segundo Spagnuolo, “não perde tempo lendo algo que já está no título”. “Esse tipo de matéria declaratória, o jornalismo rápido e imediatista que temos hoje, trabalha com o senso do ‘caça cliques’. Apelam para a emoção das pessoas, criam títulos mirabolantes para o leitor clicar. Só que ele clica, vê que é um monte de besteira e logo sai.”

Uma saída seria tirar o foco imediatista da notícia e investir em reportagens mais apuradas. “Dar a notícia assim que ela sai funciona bem em agências de notícias, como a Bloomberg e a Reuters. Mas não é benéfico para o tipo de jornalismo apurado que a Folha ou o Estadão se propõem a fazer. Não se apura nada em 10 minutos. O New York Times, o Guardian e o Le Monde quando têm um breaking news dão poucas informações e avisam que estão investigando. A notícia é construída aos poucos. Na Folha, já colocam 10 parágrafos, com um monte de coisa que você não sabe de onde veio. Acho que aqui no Brasil, esse conceito imediatista é assim: ‘Vamos dar logo essa matéria e depois partir para a próxima, não vamos construir mais essa matéria.’”

O novo jornalismo?

Apesar das demissões em massa, uma nova forma de fazer notícia vem ganhando força: o jornalismo independente e sem fins lucrativos, feito por veículos como Agência Pública e Ponte. Talvez, isso seja uma prova de que o jornalismo não está acabando, mas passando por uma transformação, em que os negócios passam para o segundo plano e a notícia fica em primeiro lugar.

Spagnuolo acredita que essa mudança não vai acabar com o jornalismo, mas sim aprimorar a qualidade do trabalho. “Esses veículos de jornalismo independente vêm apresentando um ótimo trabalho, muitas vezes superando os grandes jornais. Acho que o jornalismo brasileiro vai se adaptar e, assim que a economia melhorar, veremos alguma orientação nesse sentido, mais anunciantes, mais pessoas dispostas a investir nisso. Porque o jornalismo é um dos combustíveis da democracia. Não acho que jornalismo profissional está acabando. Acho que ele tem de ser adaptado. Porque se fosse para continuar com o mesmo foco imediatista que existe hoje em dia, do ‘vamos reproduzir o que o outro está falando, com informações rápidas e sem apurar’, aí sim seria como cavar uma cova para a profissão. Mas não acho que esse é o caso.”

 

Caro leitor, 

Você acha que a crise no jornalismo é um reflexo da crise financeira ou um indício do fim da profissão?

12 Opiniões

  1. Carlos Alves disse:

    O fim desse jornalismo dos grandes grupos de mídia? TOMARA!!!

  2. florindo da rocha abreu disse:

    Talvez as duas coisas. Há tempo, se observarmos bem, as notícias que a imprensa divulga são focadas mais em assuntos irrelevantes ou sem muita importância. As grandes reportagens estão cada vez escassas. O foco hoje é a política partidária que muitas vezes abre espaços para seus representantes insignificantes – Sibá Machado, Luciana Genro, Vanessa Graziottin, Jandira Fegale etc…- todos ultrapassados. Desde a saída dos grandes colunistas, como Castelinho, Márcio Moreira Alves, Fernando Pedreira, Walder de Góes, para citar alguns, o jornalismo foi esvaziado. Na televisão os “farejadores de notícias” não existem mais e assim por diante. Na verdade o que está faltando é profissionalismo, a começar pelos donos dos veículos de comunicações, que priorizam apenas a parte financeira. E por aí vai.

  3. ney disse:

    Só ficaram os jornalistas e apresentadores comprados, os mentirosos, os risonhos na hora de apresentar o jornal internacional, os que falam somente o que lêem na tela.

  4. Joaquim Caldas disse:

    O caos é importante para vender as autarquias por preços de bananas,china e rússia estão na mira.

  5. Dalva Cândida Rodrigues disse:

    Não acredito que os jornalistas inteligentes, de princípio, permitiram que esta importante profissão chegue ao fim. Há uma crise moral, a economia do jeito que está não facilita a vida das famílias, a administração do país não é boa. Precisamos de pessoas preparadas e que tenham amor à civilização. Temos o controle da economia na mão de poucos que só olham para o seu umbigo. Se não investirmos na educação, que todo país que se prese investe teremos muitos outros problemas e continuaremos como massa de manobra. Mas os jornalistas não permitiram o fim de suas carreiras. Precisamos de impedir este jornalismo horroroso que tem invadido a televisão que é sensacionalista, onde só se fala de tragédia. As coisas boas não aparecem. Vamos mudar este enfoque. Vamos mudar para sucessos acontecidos na sociedade. Sou professora há 25 anos podemos exigir o que queremos ver, e lixo não pode ser nossa escolha. Nossa sociedade precisa melhorar.

  6. Macdowell disse:

    Boa noite.
    Acho que a tecnologia também está contribuindo para o fim do jornalismo. Graças aos smartphones, as pessoas pararam de comprar jornais e revistas, que a cada dia ficam como menos páginas. O número de anunciantes diminui em cada edição, tornando-se manter um veículo de comunicação muito oneroso
    Vejo que a profissão de jornalistas, assim como bibliotecários, algo que em breve deve acabar. Infelizmente.

  7. Joma Bastos disse:

    O jornalismo no Brasil prima pela falta de qualidade e diversidade das notícias.
    A notícia de um determinado acontecimento, aparece em jornais diferentes, mas muito igual ou mesmo idêntica. Lemos alguns jornais e lemos a mesma notícia quase que sem diferenciação! Existe pouco jornalismo de investigação!
    O verdadeiro Jornalismo, tem tendência a começar a desaparecer, quando a censura começa a crescer e a liberdade de expressão a tornar-se precária.

  8. Áureo Ramos de Souza disse:

    No tocante a troca de velhos jornalistas por novos que ganharão menos acredito que é por ai pois Hugo Esteves era da Globo e seu último aparecimento foi em uma novela e hoje se encontre na Record fazendo um trabalho de noticias policiais e que o citado fica feio na fita nem parece aquele Hugo que víamos na Globo e hoje no NETV de Recife estamos vendo jovens fazendo noticias externas jovens que nunca vimos na tela de nenhuma TV.

  9. Vitafer disse:

    Reflexo da crise financeira.

  10. Gerardo Anésio disse:

    Não é a crise financeira que está afetando o profissional do jornalismo. É a crise moral, a falta de reconhecimento e desvalorização da categoria. Todos são prejudicados, tanto aqueles JORNALISTAS DE REGISTRO, quanto os JORNALISTAS DIPLOMADOS.

  11. Rogerio Faria disse:

    Acredito que a crise seja fruto da falta de credibilidade do meio jornalístico.

  12. Roswyta Ribeiro disse:

    Boa tarde!

    Não acredito que seja um reflexo da crise financeira ou de um fim da profissão. Isso é utopia!!!

    Manter profissionais da comunicação jovens, com espírito e inovações é uma boa viagem quando a seu lado

    permanecem profissionais com larga experiência como seus Mestres. JORNALISMO é berço da HISTÓRIA…

    Percebe-se??!!! O cartão de visita se chama Educação e Informação com qualidade.

    Grata

    Roswyta

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