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APÓS TROCAR FARPAS COM BOLSONARO

Diretor do Inpe é exonerado

Ricardo Galvão foi exonerado nesta sexta-feira, 2, em decorrência da troca de farpas com Bolsonaro sobre dados do desmatamento

Diretor do Inpe é exonerado
‘Minha fala sobre o presidente gerou constrangimento’, disse Galvão (Foto: Reprodução/GloboNews)

O diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão, anunciou sua exoneração do cargo na manhã desta sexta-feira, 2, após uma reunião em Brasília com o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes.

O motivo da saída foram as farpas trocadas com o presidente Jair Bolsonaro, que colocou em dúvida levantamentos sobre desmatamento feitos pelo instituto.  

“Minha fala sobre o presidente gerou constrangimento, então eu serei exonerado. […] Claro que o meu discurso com relação ao presidente causou constrangimento, no entanto eu tinha uma preocupação grande que isso fosse respingar no Inpe. Isso não vai acontecer”, disse Galvão a jornalistas, segundo noticiou o site G1.

Galvão afirmou que sua conversa com Marcos Pontes foi em tom cortês, que recebeu dele a garantia de que o Inpe será preservado e que, diferentemente do presidente da República, o ministro não questionou os dados levantados pelo Inpe.

“Frente ao ministro Pontes eu não tive que defender nada. Ele concorda inteiramente com os dados do Inpe e sabe como são os dados do Inpe. O ministro é uma pessoa de alta capacidade técnica, um engenheiro”, disse Galvão.

No último dia 19 deste mês, Bolsonaro e Galvão se envolveram em uma troca de farpas, iniciada após o presidente se irritar com um balanço sobre o desmatamento, divulgado do dia 3 deste mês, que apontou que, somente em junho deste ano, desmatamento na Amazônia Legal brasileira atingiu 920,4 km²– um aumento de 88% em comparação com o mesmo mês no ano passado. O balanço do desmatamento é feito há décadas pelo Inpe, que divulga os dados a cada mês.

Irritado com a divulgação, Bolsonaro disse, em um café da manhã com jornalistas estrangeiros, ocorrido no dia 19, que os dados eram “mentirosos” e acusou Galvão de estar “a serviço de alguma ONG”.

“A questão do Inpe, eu tenho a convicção que os dados são mentirosos, e nós vamos chamar aqui o presidente do Inpe para conversar sobre isso, e ponto final nessa questão”, disse Bolsonaro.

Em seguida, Bolsonaro acusou Galvão de atuar em prol de “alguma ONG”. “Mandei ver quem está à frente do Inpe. Até parece que está a serviço de alguma ONG, o que é muito comum”, disse o presidente.

Bolsonaro criticou o fato de o estudo ter sido divulgado sem antes passar pelo governo, e disse que os dados, que ele classificou como “falsos”, prejudicam sua imagem e a do Brasil no exterior.

No dia seguinte às declarações, Galvão respondeu aos comentários, destacando que “os dados sobre desmatamento da Amazônia, feitos pelo Inpe, começaram já em meados da década de 70 e a partir de 1988”. “Nós temos a maior série histórica de dados de desmatamento de florestas tropicais respeitada mundialmente”, disse Galvão, que é membro da Academia Brasileira de Ciências.

Sobre as acusações de atuar “a serviço de alguma ONG”, ele destacou: “Tenho 71 anos, 48 anos de serviço público e ainda em ativa, não pedi minha aposentadoria. Nunca tive nenhum relacionamento com nenhuma ONG, nunca fui pago por fora, nunca recebi nada mais do que além do meu salário como servidor público”.

Galvão criticou ainda o comportamento de Bolsonaro diante de uma coletiva com jornalistas internacionais. “O sr. Jair Bolsonaro precisa entender que um presidente da República não pode falar em público, principalmente em uma entrevista coletiva para a imprensa, como se estivesse em uma conversa de botequim. Ele fez comentários impróprios e sem nenhum embasamento e fez ataques inaceitáveis não somente a mim, mas a pessoas que trabalham pela ciência desse país”, disse Galvão.

Membro da Academia Brasileira de Ciências, Ricardo Galvão iniciou sua carreira no Inpe em 1970. Ele tem doutorado em Física de Plasmas Aplicada pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) e é livre-docente em Física Experimental na USP desde 1983. O governo ainda não anunciou quem será o substituto de Galvão no cargo.

A exoneração de Ricardo Galvão vem um dia após a revista Economist – uma das mais renomadas publicações do mundo, que é referência entre liberais – alertar em um editorial de capa para o aumento do desmatamento no Brasil.

Sob o título “Velório para a Amazônia – a ameaça do desmatamento descontrolado”, o editorial criticou as políticas adotadas por Bolsonaro, destacando que o presidente brasileiro refuta indicadores sobre o tema e critica a interferência de países que devastaram suas próprias florestas. O editorial, no entanto, aponta que Bolsonaro “não deve repetir os erros de outros países, mas sim aprender com eles”.

A revista pede uma reação global às ações de Bolsonaro e sugere algumas medidas a serem tomadas para pressionar o Brasil a preservar o meio ambiente.

“O mundo deve deixar claro a Bolsonaro que não vai tolerar seu vandalismo. Empresas de alimentos, pressionadas pelos consumidores, devem rejeitar a soja e a carne produzidas em terras amazônicas exploradas ilegalmente. Os parceiros comerciais do Brasil devem fazer acordos vinculados a seu bom comportamento [em relação ao meio ambiente]. O acordo alcançado em junho pela União Europeia e pelo Mercosul, do qual o Brasil é o maior membro, já inclui dispositivos para proteger a floresta tropical. Aplicá-los é esmagadoramente do interesse das partes”, diz o texto.

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3 Opiniões

  1. Ivone disse:

    Ponto positivo para Ricardo Galvão que mantém sua integridade intelectual e moral deixando de servir este governo insano.

  2. Rogerio de Oliveira Faria disse:

    Até quando o Pontes vai aguentar fazer parte deste (des)governo.
    Caso ele ficar endossando as arbitrariedades do Bozo, não vai passar de um vendedor de travesseiros.

  3. mauricio disse:

    dificil momento para os que produzem conhecimento nesse país!!!Estamos a beira de uma nova era das trevas? Uma era de obscurantismo onde mesmo com fatos notorios e evidentes e devidamente comprovados vão pra fogueira? que pais é esse? ou melhor que governantes desmiolados são esses?

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