Início » Brasil » Disputas internas atrasam andamento do governo Bolsonaro
BRASIL

Disputas internas atrasam andamento do governo Bolsonaro

Divergências entre núcleo militar, político e fundamentalista podem inviabilizar projetos prioritários e promessas de campanha de Bolsonaro

Disputas internas atrasam andamento do governo Bolsonaro
Bolsonaro loteou os ministérios com diferentes feudos, que tentam influir nas decisões do presidente (Foto: Rogério Melo/PR)

A admiração de parte dos eleitores pela Lava Jato, os pedidos por uma “intervenção militar” e uma guinada liberal na economia, o ódio à esquerda e o apego a discursos moralistas abertamente reacionários foram contempladas por Jair Bolsonaro na montagem do governo.

Mas estes elementos nem sempre concordam: militares, por exemplo, de formação nacional-desenvolvimentista, muitas vezes divergem dos economistas neoliberais de Paulo Guedes; e posturas anticomunistas, se estendidas às relações exteriores, podem criar problemas com a China, trazendo problemas, de novo, para a economia, e talvez também para os militares.

A solução de Bolsonaro foi lotear o governo em diferentes feudos, cada qual buscando influir nas decisões do presidente para defender seus interesses e pontos de vista. Embora não se tratem de núcleos homogêneos, com lideranças definidas, é possível dividi-los da seguinte maneira: núcleo econômico, militar, político e o fundamentalista.

Os choques entre esses grupos são evidentes em meados do terceiro mês de governo. De disputas entre militares e discípulos de Olavo de Carvalho no Ministério da Educação ao veto do presidente a uma indicação de Moro em um conselho do Ministério da Justiça, passando pela demissão de Bebianno, desavenças entre o vice-presidente e o ministro das Relações Exteriores e pelos comentários desastrados de Bolsonaro e seus filhos na internet, Brasília vive disputas ideológicas internas que podem atrasar, ou até inviabilizar, o andamento de projetos considerados prioritários por setores do governo – porém rechaçadas por outros.

“Pragmáticos” versus “ideológicos”

Caso exemplar dessas disputas, e que resultou em um recuo de Bolsonaro em uma de suas promessas de campanha, se deu nos primeiros dias de governo. Pressionado pelos ruralistas, o presidente adiou por tempo indeterminado a transferência da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém.

A ideia, cuja implementação colocaria o Brasil em choque com países árabes e em afinidade com os EUA, é um pleito da bancada evangélica, que não ficou satisfeita com a decisão. Dessa vez, o presidente optou pelo pragmatismo em detrimento da ideologia.

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, é um dos expoentes dessa ala ideológica. As ações de seu ministério, no entanto, são observadas de perto pelos militares, que já lhe impuseram derrotas em duas outras ocasiões: na questão da crise da Venezuela e na relação com os chineses. As negociações com Maduro e as nações vizinhas passaram a ficar sob a tutela de Mourão, espécie de porta-voz informal dos militares no governo, enquanto críticas à China, maior parceiro comercial do Brasil, foram vetadas, e uma visita do presidente ao país asiático agendada.

Tais vitórias do “pragmatismo” têm custos para Bolsonaro. De acordo com a Folha de S.Paulo, a bancada evangélica já prepara um protesto público contra o presidente, que, para ela, está se afastando dos “valores que o elegeram”. Os deputados estariam cogitando inclusive boicotar a reforma da previdência, prioridade da ala econômica.

Outro ideólogo insatisfeito é Olavo de Carvalho. O escritor é próximo a um dos filhos do presidente, Eduardo Bolsonaro, mobiliza milhões de seguidores nos fóruns da direita na internet e teria indicado Ernesto Araújo para o cargo, bem como Ricardo Vélez para a chefia da Educação.

No Ministério da Educação (MEC), militares em cargos gerenciais veem com desconfiança a influência de Olavo, cujo foco em questões menores – “ideologia de gênero”, “globalismo” e “marxismo cultural” – rouba atenção de problemas efetivos, como o analfabetismo funcional e o déficit de aprendizagem dos alunos. Acossado pelos pragmáticos em episódios como o da carta que pedia às escolas que filmassem crianças e adolescentes repetindo slogans de campanha de Bolsonaro, Olavo passou a atacar o governo em suas páginas na internet e recomendou a seus afiliados que deixem seus postos em Brasília. Em uma tentativa de acalmar os ânimos, Bolsonaro mandou afastar diversos servidores em cargos de chefia de ambas as vertentes, num desfecho sem vencedores que tem deixado o MEC empacado.

Filhos do presidente

A missão mais difícil para os “pragmáticos” do governo tem sido conter a influência dos filhos do presidente sobre o pai. Em uma troca de tuítes, o vereador Carlos Bolsonaro empurrou para fora do Planalto o ex-ministro Bebianno, a quem chamou de “mentiroso” em meio à crise dos laranjas do PSL. Militares graduados queriam a permanência de Bebianno, que trabalhava em favor da reforma da previdência junto à Câmara, o que as acusações de Carlos inviabilizou.

Semanas depois, o deputado Eduardo Bolsonaro engrossou o coro dos descontentes com a tentativa de Sergio Moro – até então tido como “superministro” – de nomear Ilona Szabó, diretora do Instituto Igarapé, especializado em segurança, para uma vaga de conselheira na Justiça, cargo sem remuneração. Obedecendo a internautas de direita, o presidente desautorizou Moro, obrigando-o a retirar o convite à Szabó.

Como tem ocorrido, coube a Mourão exercer o contraditório, dando razão a Moro. “Perde o Brasil todas as vezes que você não pode sentar numa mesa com gente que diverge de você”, disse o vice-presidente.

E apesar dos apelos de Guedes, preocupado com os respingos das crises na aprovação da reforma da previdência, e dos militares, que prezam pela institucionalidade da presidência, Bolsonaro reafirma que não pretende diminuir o espaço dos filhos no governo.

Em sua página no Twitter, o presidente segue engajado em “guerras culturais” com a esquerda e atacando a imprensa, muitas vezes lançando mão de notícias ou argumentos falaciosos, como no caso do tuíte sobre o “golden shower” no carnaval.

Pragmático como sempre, Mourão tenta emplacar o consultor político Murilo Aragão na embaixada brasileira em Washington, diz apoiar o andamento das investigações contra Flávio Bolsonaro e articula nos bastidores com empresários partidários da reforma da previdência.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

1 Opinião

  1. Selma Carvalho disse:

    O fogo-amigo vai desmantelar qualquer possibilidade de “tentar” fazer esse país sair do buraco que se encontra.
    É simples. Mas ninguém que enxergar.
    A MOEDA tem dois lados. Um só presidente para esses dois lados, porém o lado que o elegeu não quer abrir mão de NADA. O lado contrário mesmo concordando com os erros do passado não aceita que seja outro a atenda seus anseios. E no fim ninguém abre mão de nada e o final a gente já conhece.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *