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OPOSIÇÃO À DERIVA

Dividida, oposição não unifica discurso contra o governo Bolsonaro

Ainda sem uma liderança clara, partidos de esquerda brigam entre si e aguardam erros do presidente, enquanto cresce insatisfação popular contra o governo

Dividida, oposição não unifica discurso contra o governo Bolsonaro
A oposição ainda não encontrou seu lugar no novo contexto político (Foto:)

Não só o governo de Jair Bolsonaro, marcado até agora por recuos e intrigas entre os grupos internos que o compõe, parece mais ou menos desorientado nos primeiros meses de 2019. Também a oposição, sobretudo a oposição de centro-esquerda, ainda não afinou seu discurso ou encontrou seu lugar no novo contexto político.

Arrasada depois de três tombos sucessivos – o impeachment de Dilma Rousseff, a prisão de Lula e a derrota eleitoral de Fernando Haddad em 2018 – falta à centro-esquerda uma voz que a unifique, lugar antes ocupado pelo ex-presidente petista encarcerado.

Por ora, seus principais expoentes ou estão “jogando parados”, aguardando os erros quase diários do governo, ou criticam-se entre si, como demonstram os também frequentes bate-bocas entre Ciro Gomes, do PDT, e a presidente do PT, Gleisi Hoffmann.

Outras lideranças, como o próprio Haddad ou Marcelo Freixo, do PSOL, que não costumam em se envolver em discussões do tipo, têm preferido analisar o governo e a nova conjuntura como os professores universitários que também são.

“Eu vejo espaço para uma reorganização político-partidária no Brasil, depois da hecatombe que aconteceu entre 2013 e 2018”, disse Haddad, que chegou a ser acusado de corrupção e lavagem de dinheiro quando assumiu o lugar de principal voz da esquerda nas eleições presidenciais – sendo absolvido em fevereiro deste ano, quando o estrago eleitoral já estava feito. “Mas não vai ser em cinco semanas que você vai pôr ordem em cinco anos de delírio”, completou, em entrevista ao Estado de S. Paulo.

Descolada dos partidos, no entanto, a sociedade já ensaia protestos contra o governo, o que ficou claro no Carnaval de rua nas capitais e nas manifestações que marcaram um ano do assassinato da vereadora Marielle Franco.           

Bolsonaro e a esquerda

O presidente não esconde que escolheu a esquerda como principal “inimiga” de seu governo. Em todas as ocasiões em que discursou, Bolsonaro afirmou que terá cumprido sua “missão” na Presidência caso livre o país do “comunismo” que, em sua visão, teria tomado o Brasil.

Não à toa, é comum ler em grupos bolsonaristas no WhatsApp mensagens de ódio contra políticos de centro-esquerda – “raça ruim” que deve “sair do país” são algumas das mensagens mais brandas que aparecem por ali.

A estratégia de intimidação tem surtido efeito, o que explica, em parte, o imobilismo inicial da oposição. Em janeiro, o ex-deputado Jean Wyllys, que entregou seu cargo ao PSOL, se exilou do país por temer as ameaças que recebia aos montes.

“Eu recebia ameaças de morte por telefone, pelas redes sociais, por e-mail. Começaram, inclusive, a me ameaçar nas ruas”, contou à agência de notícias AFP.

Marcelo Freixo é outro deputado do PSOL que convive com ameaças de morte. Em dezembro do ano passado, a Polícia Civil do Rio de Janeiro revelou ter descoberto um plano para dar cabo do deputado, no que sua segurança foi reforçada.

O crime era planejado pelas milícias da zona oeste do Rio de Janeiro, grupos paramilitares que já foram defendidos por Bolsonaro e seus filhos em discursos na tribuna da Câmara. Esses milicianos, indicam as investigações, foram os mesmos que assassinaram a vereadora Marielle Franco, ex-assessora de Freixo, e o motorista Anderson Gomes.

A oposição nas redes, nas ruas e na Câmara

Mesmo sem uma ação coordenada da oposição, a insatisfação com o governo cresce entre a população – de acordo com o Ibope, Bolsonaro já tem a maior taxa de desaprovação de um presidente em início de mandato.

E se os partidos de esquerda ainda não encontraram o tom do enfrentamento, os eleitores apontam caminhos: no Carnaval, a fantasia de laranja, em referência ao escândalo das candidaturas de fachada no PSL, partido do presidente, foi uma das mais populares. Também a relação entre a família Bolsonaro e a milícia foi explorada nas manifestações que marcaram um ano do assassinato de Marielle Franco, bem como no ato do Dia das Mulheres, o 8 de março.

O crescimento da rejeição não surpreende: em três meses, medidas efetivas de combate à insegurança, de fomento à educação e saúde ou que aqueçam a economia não foram anunciadas.

“A extrema direita só tem a oferecer mais privatização, difusão da violência e punitivismo seletivo. Falta, porém, uma frente de oposição capaz de apresentar alternativas convincentes a ponto de propiciar a formação de uma nova maioria no país”, avalia o ex-porta voz do governo Lula, André Singer, em texto publicado na Folha de S.Paulo.

Aos poucos, porém, uma frente de oposição vai tomando forma na Câmara – com o talvez surpreendente apoio do “centrão”, que muitos apostavam que se aliaria ao governo.

Um bloco que reúne já 171 deputados e 27 senadores, que conta com o suporte dos governadores do Nordeste, constituiu a “Frente Parlamentar Mista em Defesa da Previdência Social”, e promete usar de todos os recursos disponíveis para dificultar a aprovação da proposta de reforma apresentada por Paulo Guedes.      

Insatisfeita com a articulação política do Planalto, partidos como o PSD e MDB, que trabalharam no passado pela queda do PT, podem ingressar no bloco. A ideia é não só rejeitar a proposta de Bolsonaro, mas propor alternativas que, na visão destes parlamentares, combatam os privilégios de castas do serviço público e não penalizem o trabalhador mais pobre.

Também junto ao “centrão”, os partidos de esquerda ensaiam derrubar medidas anunciadas pelo presidente, como a dispensa de visto para norte-americanos, australianos e japoneses que entram no país.

Ainda no legislativo, o PSOL convocou dois ministros a prestarem esclarecimentos aos deputados: Marcelo Alvaro, do Turismo, que deverá explicar o seu papel nas candidaturas laranjas do PSL, e Sergio Moro, que irá falar sobre o “pacote anticrime” que apresentou no início do ano. A ideia é mostrar a força da Câmara e acuar o Executivo.      

Minoria no legislativo, talvez caiba aos partidos de centro-esquerda mobilizar a população nas ruas, como vem fazendo nas últimas semanas o candidato derrotado em 2018 Guilherme Boulos, e se aliar ao centro em pautas de interesse mútuo e que contrariem o governo. “Eu acho que há alguns partidos mais de centro, ou centro-direita moderada, que podem pontualmente estar conosco, sobretudo no que diz respeito à defesa dos direitos civis, direitos políticos e ambientais”, resume, em entrevista ao Estado de S.Paulo, Fernando Haddad

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4 Opiniões

  1. Rogério Freitas disse:

    Mudar o país depende de coragem e conhecimento. Houve uma renovaçao significativa no Congresso Nacional, mentalidade nova. Espero que sejam capazes de discernir entre o bom e o melhor, optando pelo que é necessário e justo.

  2. José Miguel disse:

    Cobrar mudanças em menos de três meses, do estrago feito em 16 anos é no mínimo falta de sensatez, e dar crédito às “pesquisas” do IBOPE é pior ainda

  3. carlos alberto martins disse:

    perdão pela minha humilde declaração,mais,existe em uma música do cantor Moacir Franco o comportamento dos politicos em suas propostas ao povo.tal música se chama BALADA PARA UM LOUCO.éla expõe cruamente a época em que viemos enganados por esperanças infinitas de um Brasil melhor e mais justo prometidas pelos donos do poder.

  4. julio cesar disse:

    Se a oposição pretende ajudar o povo brasileiro ao invés de só criticar o governo do Brazil com certeza eles teriam um bom representante e não estariam na inercia como diz o texto acima. E sobre os que foram para outro país por medo,passem na Venezuela,Cuba, Coreia do Norte e ajudem esses países que são tão “democráticos” e que compartilham quem sabe a mesma idéia

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