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Do linchamento moral ao linchamento de fato

Em quem você atiraria a primeira pedra: em Lance Armstrong, no ‘monstro’ do petshop, Maria Bethânia ou Geisy Arruda?

Do linchamento moral ao linchamento de fato
Linchamentos morais e públicos criam o clima para se fazer justiça com as próprias mãos (Reprodução/Internet)

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Dois casos bem distintos de linchamento moral tomaram conta do noticiário internacional e nacional desta semana que vai chegando ao fim: o do mítico ciclista Lance Armstrong, cujos prodígios sobre duas rodas, sabe-se agora, devem-se em parte a uma substância que lhe aumentava a produção de glóbulos vermelhos e, portanto, o desempenho físico; e o caso do anônimo funcionário de um petshop no subúrbio do Rio de Janeiro flagrado esmurrando a pobre clientela.

Os impiedosos diretos de esquerda e de direita desferidos por Armstrong na cara de milhões de pessoas mundo afora — fãs do esportista e admiradores do grande sujeito que venceu um câncer e depois ainda se tornou um multicampão, gente de mais de 60 países que comprou a sua pulseirinha amarela para apoiar sua fundação — ainda não resultou em retaliações, digamos, físicas por parte dos que foram feitos de bobo, por mais que este redator tenha vasculhado os sites internacionais em busca de uma notícia sobre um ex-fã do ciclista aparecendo de corpo presente, por assim dizer, para tomar satisfação.

O mesmo não se pode dizer do “monstro” do petshop e de sua mãe, dona do estabelecimento, ameaçados de linchamento depois que a covardia do rapaz correu o noticiário, invadiu as redes sociais sob clamores de vingança e foi parar até no tabloide britânico The Sun. E é aí que mora o perigo dos linchamentos morais, ainda mais em tempos de Facebook: o de criar o clima para se fazer justiça com as próprias mãos.

Motivos para um dia de fúria

No ano passado, quando escreveu um artigo intitulado “O linchamento de Maria Bethânia”, Caetano Veloso, saindo em defesa da sua irmã no caso em que Bethânia arranjou R$ 1,3 milhão junto ao Ministério da Cultura para a criação de um blog de poesia, manifestou temor de que a indignação virtual gerada pelo episódio transbordasse para as vias de fato.

“Não concebo por que o cara que aparece no YouTube ameaçando explodir o Ministério da Cultura com dinamite não é punido”, escreveu Caetano, que chegou a clamar: “Cadê a Abin?”, fazendo seus ex-companheiros de exílio enrubescer.

Em se tratando do risco de alguém ter um dia de fúria real por causa do noticiário e da sua repercussão virtual, isso pode ser desencadeado tanto pela indignação com cenas de maus tratos a um cachorro indefeso quanto pela indignação com a “boquinha” de R$ 1,3 milhão em dinheiro público para uma cantora famosa montar um blog, e sabe-se lá o que vai justificar ameaças depois, e depois, e depois…

No país onde ainda se diz que os direitos humanos são só para os “humanos direitos”, excluindo-se neste caso meio milhão de pessoas — a população carcerária do Brasil, quinta maior do mundo — periga virar moda que os linchamentos morais, virtuais, “evoluam” para o linchamento de fato ou ataques de toda estirpe, inclusive com dinamite.

Do quase linchamento de fato ao linchamento moral

Mas há também casos que percorrem o caminho inverso, ou seja, os linchamentos, ou quase, da vida real que se perpetuam enquanto linchamentos morais públicos e massificados. Quem não se lembra do caso de Geisy Arruda, a estudante de turismo da Universidade Bandeirante (Uniban) que escapou de apanhar dos seus colegas nos corredores da instituição porque aparecia para assistir as aulas vestida com uma micro-saia, e que chegou a ser expulsa, sendo depois readmitida?

Ao noticiar o ocorrido com Geisy, em reportagem que chegou a falar em “selvageria injustificável da turba” (a direção da Uniban preferiu chamar de “reação coletiva de defesa do ambiente escolar”), a revista Veja traçou o seguinte “perfil” da universitária:

“Geisy, 1,71 metro, peso não declarado, pelos das pernas descoloridos e novíssimos apliques no cabelo. Como não poderia deixar de ser nestas latitudes, a moça procura tirar alguma vantagem da condição de celebridade instantânea: já analisa a possibilidade de posar nua e de fazer um comercial para uma marca de lingerie. A massa que aguarde”.

Só faltou embarcar a moça para o Irã, como sua micro-saia e malas cheias de pedras para adiantar o trabalho dos fanáticos.

Carlo leitor,

Você é adepto do “olho por olho”, ou seja, de que certos párias pegos com a boca na botija, que abusam da cara de pau, ou que simplesmente atentam contra os bons costumes sejam justiçados pela massa indignada?

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13 Opiniões

  1. helo disse:

    Felizmente ultrapassamos os tempos em que a violência encontrava alguma justificativa. Para isso existem as leis. Penso que pegar em armas, fazer guerras deveriam ser atos condenáveis. As leis mais recentemente já nos protegem dos linchamentos morais, da calúnia, do bullying, da agressão das torcidas. As leis são respostas ao sentimento de indignação diante de atos reprováveis. Tudo a favor da indignação porém tudo a favor das leis.

  2. Luiz Mourão disse:

    No caso desse acampamento chamado Brasil, longe de ser um país e menos ainda uma nação, o problema é que, por aqui, “toda pessoa é CULPADA até prova em contrário”; um brocado jurídico INVERSO!!!!
    Ou seja, por aqui, onde há fumaça, há, MESMO, fogo!!!!
    Ou, ainda, país de Gerçon (ou Gerson, nunca sei)!!!!
    E de onde vem isso???
    Ora, de NÓS MESMOS!!!!!
    Temos um dos povos mais MEDÍOCRES do planeta, que não consegue respeitar sequer um sinal vermelho de trânsito!!!!
    Por aqui impera a Lei da Vantagem pois a fiscalização (funcionalismo público trabalha??) inexiste e a CONSCIÊNCIA PESSOAL do povo menos ainda!!!!
    O que se poderia esperar????
    Mas o Armstrong foi mesmo uma decepção; sou ciclista há décadas, e sempre o tive como uma espécie de herói (não muito pois não sou cultor de personalidades, coisa de gente dirigida)…

  3. Regina Caldas disse:

    Não aprovo reações violentas de grupos ou indivíduos. Vivemos num estado de direito, e as leis existem para ajustar comportamentos inadequados. Fazer justiça com as próprias mãos é ato de selvageria, que aprovado pela sociedade a faz regredir.

  4. jose roberto amorim disse:

    Minhas pedras vão para o ciclista que arranjou um camara para filmar motoristas que não respeitam ciclistas.
    So que ele o ciclista não aceitou ser filmado por um pedestre quando pedalava sobre a calçada e derrubou um idoso.

  5. André Luiz Duarte de Queiroz disse:

    Respondendo à pergunta.: De forma alguma. Isso não é justiça, é somente barbárie, selvageria, que pode ocorrer por tudo e por nada. Um estado de direito não pode admitir tais coisas, sob o pena de ver desmoronar toda ordem. É dito em certos meios iniciáticos que o povo é como o Mar: uma hora calmo, outra hora revolto! Por tanto, todo o cuidado é pouco.

  6. Áureo Ramos de Souza disse:

    Não eu jamais iria concordar com aberrações, o problema é a mídia que faz de tudo um lixão da avenida Brasil.

  7. Lucia disse:

    Depois de ler o o comentário de Luis Mourão, fiquei pensando se ele já teve alguma oportunidade de viver algun tempo fora do Brasil. Se sim, fiquei pensando, porque voltou? Se não, Luis, aqui vai uma idéia: saia fora do Brasil e veja como é a vida e como são as pessoas em outros países. Talvez voce possa pedalar sua bicicleta para fora do Brasil, começando aí pelo Paraguai, Peru, Colombia, Venezuela, e quem sabe continue pedalando pela a America Central e America do Norte? Uma caroninha de navio para a Africa ou Europa nem é assim tão fora de órbita. Esta aventura com certeza colocaria a sua visão do Brasil em outra perspectiva. Luis, o Brasil e os brasileiros não merecem tando ódio não, viu Luis?

  8. João Cirino Gomes disse:

    Uma das maiores distorções no Brasil é que; alguns privilegiados que criaram a lei e aprovaram, mas não respeitam, vivem dando maus exemplos e se acham acima da lei e da justiça!

    A população carcerária do Brasil, quinta maior do mundo, mas pode conferir, que só tem pobre preso, unas por furtar lata de leite, maisena, shampoo, outros por roubar radio bicicletas etc…

    Enquanto isso os políticos e suas quadrilhas que são os verdadeiros integrantes do crime organizado, que se institucionalizou dentro do desgoverno alem de terem o melhor salario do mundo recheados de mordomias principescas, ainda desviam, superfaturam roubam bilhões, se tornam bilonarios da noite para o dia; mesmo sendo pegos com a mão na botija, nunca devolvem o que surrupiam!

    No Brasil estes são os maiores exemplos de injustiça social, pois estes canalhas, roubam e escravizam a nação há mais de quinhentos anos, mas continuam impunes, distorcendo fatos, atropelando a lei, se passando por santinhos!

  9. Julius Pessanha disse:

    Geisy Arruda não sofreu linchamento moral. Recebeu prêmio de celebridade momentânea com a devida vaia que levou. De fato, ela tirou vantagem do acontecido, pois já era exibicionista. A vaia que procurava indicar um comportamento inadequado ao ambiente universitário acabou tendo efeito contrário. Ela fazia o próprio linchamento moral.

  10. gerusa contti disse:

    Sou Não! Acho que existe lei! Quanto as pernas da Arruda, acho que muita gente ficou com inveja de não ter arranjado uma boquinha como ela para aparecer! A maria Bethânia, pediu e lhe foi concedido. As pessoas que fazem a distribuição da grana é que devem avaliar melhor as propostas. O atleta, se formos procurar direitinho não deve ser só ele. E o rapaz que não gosta de cães deve responder por maus tratos a animais. Quanto a população carcerária do país… esse é um caso que se as autoridades que lidam com a juventude não der oportunidades reais aos mais pobres e educação de verdade, não tem solução. No entanto acho que por maior que seja a barbárie cometida pelo sujeito, seus direitos devem ser respeitados, ou corremos o risco de sermos tão bárbaros quanto eles. É simples assim!

  11. José Tadeu Barbalho disse:

    De todos esses fatos extremos de esperteza, oportunismo e jogo de influência, o projeto da Maria Betânia é o mais indigno e de completo insulto ao dinheiro público suado do bolso do Brasileiro. Tenho certeza que tal volume de dinheiro liberado para Maria Betânia, deve ter as digitais dos intelectuais espertos e corruptos do PT. Não se admite aprovar um projeto com essa vultuosa quantia para beneficiar uma pessoa em detrimento a tantos projetos sociais coletivos que são recusados pelo Ministério da cultura. Nem vou questionar a falta de critério, uma vez que este país está entregue a uma quadrilha que o rouba todos os dias, por isso seria irrelevante falar de critérios mediante tanta lama. O que posso pedir é que Betânia venha a público pedir desculpas por essa infeliz e patética forma de usufruir confôrto e comodidade com o dinheiro alheio.

  12. helo disse:

    Existem linchamentos políticos que não passam de farsa. A campanha de Haddad criticou violentamente o prefeito Kassab, colando sua administração à figura do Serra. Entretanto Kassab deu tanto apoio a Haddad que o partido que ele criou ganhará um ministério no governo Dilma. Dá para entender? Se der, difícil aceitar.

  13. AG disse:

    linchar a Geisy Parruda é fácil, quero ver pegar o Armstrong!

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