Início » Brasil » Papa supera fronteiras do catolicismo ao abordar meio ambiente
Mudanças climáticas

Papa supera fronteiras do catolicismo ao abordar meio ambiente

Essa é a primeira vez que maior grupo religioso do mundo dedicou um grande pronunciamento ao bem-estar do planeta

Nesta quinta-feira, 18, será divulgada a primeira encíclica (uma carta de ensinamento aos católicos), escrita exclusivamente pelo Papa Francisco. Um bispo católico, um ortodoxo e um cientista ateu sentarão juntos na Sala do Sínodo, no Vaticano, para apresentar o documento a jornalistas.

A escolha das pessoas não é aleatória, afinal, o papa quer que sua encíclica ultrapasse as fronteiras do catolicismo, chegue às “pessoas de boa vontade” e influencie as decisões internacionais sobre o meio ambiente e o clima. Desta forma, o documento abre uma porta para que outras lideranças religiosas se pronunciem sobre uma questão tão importante quanto às mudanças climáticas. Afinal, uma boa parte das nações mais poluentes, como China, Rússia, Índia e Japão, não têm grande número de católicos.

Apesar de o documento só ser apresentado formalmente nesta quinta-feira, um rascunho vazou três dias atrás. O documento solicita uma ação rápida, especialmente pelos países ricos, para conter os impactos ambientais. Essa é a primeira vez que maior grupo religioso do mundo dedicou um grande pronunciamento para o bem-estar do planeta, além de seguir um novo estilo de declaração papal. Encíclicas costumavam ser cartas aos bispos; em seguida, elas se tornaram missivas para todos os católicos. Esta, no entanto, parece abordar a humanidade em geral. Embora a encíclica cite muitas as ideias verdes da igreja, ela evita falas teológicas sobre o pecado e usa fontes não religiosas. A inspiração, como o Papa Francisco explicou, veio de sua experiência na América Latina; e sua influência depende muito da reação em sua região natal, que é o lar de 425 milhões de católicos (quase 40% do total mundial) e o foco de alguns dilemas ambientais.

A Influência brasileira

Nos círculos católicos de esquerda, especialmente os hispânicos, o documento foi saudado como reivindicação de um fluxo bastante novo de pensar, que visa falar pelos pobres e pelo hemisfério Sul, sem ser marxista; a primeira vez que isto ocorreu claramente foi em uma assembleia de bispos latino-americanos, na cidade brasileira de Aparecida, em 2007. O atual papa, que era então cardeal Jorge Bergoglio da Argentina, foi uma voz chave nessa reunião e agora é visto como um portador dessa mensagem.

O documento cita o alerta dos bispos de que as propostas verdes para “internacionalizar” a Amazônia poderiam ser assaltos velados à soberania. Ainda assim, foi somente em Aparecida, que o pontífice disse que percebeu que valia a pena salvar as árvores. “Quando eu ouvi os bispos brasileiros falarem do desmatamento da Amazônia, acabei entendendo que as árvores da Amazônia são os pulmões do mundo”, disse em uma coletiva de imprensa aérea no início deste ano.

A ótica moral da encíclica

O papa oferece descrições elementares de uma série de problemas ecológicos, o aquecimento global lidera os problemas, que incluem poluição do ar e da água, a destruição desenfreada das florestas, o desperdício de recursos e muitos mais. Mas, ele tem o cuidado de reconhecer que têm acontecido alguns progressos, com leis ambientais mais rigorosas em alguns países, permitindo que o ar e a água fiquem mais limpos.

No entanto, ele ressalta, e especialistas em meio ambiente concordam, que as pessoas pobres suportam uma carga desproporcional de poluição em países ricos e pobres. Ao mesmo tempo que eles se beneficiaram menos a partir de combustíveis fósseis, estão na primeira linha para sofrer com os efeitos da intensificação do aquecimento global.

Embora o papa não seja um cientista, ele sabe do que está falando. No último ano, Francisco se reuniu com inúmeros cientistas, autoridades e ativistas antes de preparar a encíclica. Nomes influentes no debate ambiental, como o do economista Jeffrey Sachs e do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, foram consultados. Além disso, o papa recebeu o bispo do Xingu, Dom Erwin Kräutler, conhecido por seu ativismo pelos direitos dos povos da Amazônia no ano passado. Kräutler contou para ele sobre as dificuldades sociais e ambientais da região. Ao fazer essa ponte com cientistas e ativistas, o papa conseguiu preparar um documento coerente e com poder para incendiar as negociações internacionais. O texto traz, portanto, uma ótica moral da questão.

Influência nas negociações internacionais

Ainda não se sabe se o documento vai influenciar as negociações internacionais, mas a expectativa, ao menos por parte do movimento ambiental, é enorme. Afinal, na última vez que o Papa Francisco se aventurou na área da diplomacia, ele conseguiu aproximar os inimigos históricos, Cuba e Estados Unidos. O momento da publicação também não é por acaso, já que, em setembro, a Assembleia Geral da ONU vai se reunir para aprovar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, onde o próprio papa irá discursar em Nova York, e em novembro, vai acontecer a Conferência do Clima em Paris, onde se espera que governos assinem um acordo global contra as mudanças climáticas.

Fontes:
The Economist-What would Jesus do about global warming?
The New York Times-Pope Francis Aligns Himself With Mainstream Science on Climate
Época-Por que o papa Francisco decidiu falar sobre aquecimento global?

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *