Início » Brasil » Doulas remam contra maré no país das cesáreas
Tendências e debates

Doulas remam contra maré no país das cesáreas

Defensoras ferrenhas do parto normal, as doulas se propõem a preencher uma lacuna no cenário do parto no país: a que trata justamente do bem-estar físico e emocional da gestante

Doulas remam contra maré no país das cesáreas
Doula é uma palavra de origem grega, que significa 'mulher que serve' (Fonte: Reprodução/Arquivo pessoal/Sofia Menz)

Há alguns anos pouco se falava sobre o papel das doulas durante uma gestação e na boa hora, a hora do nascimento de um bebê, mas a cada dia essas profissionais parecem mais presentes na vida de grávidas e também nas salas de parto.

Leia também: Parto humanizado: a volta do protagonismo feminino?

Doula é uma palavra de origem grega, que significa “mulher que serve”. Servir no sentido de oferecer um suporte físico e emocional a gestantes antes, durante e após o parto. As doulas remetem ainda à assistência domiciliar dada antigamente por mulheres mais experientes – mães, avós, irmãs mais velhas, entre outras – a grávidas em trabalho de parto. Uma tradição, no entanto, que foi se perdendo à medida que os partos passaram a ser realizados principalmente nos hospitais, de forma mais especializada à luz da medicina moderna.

Em entrevista ao Opinião e Notícia, a doula e fisioterapeuta Sofia Menz, de Resende (RJ), diz que “hoje no Brasil estamos em um processo de resgate do parto fisiológico e da humanização do atendimento à mãe e ao bebê. Assim, a figura da doula assumiu um papel importante para alcançar esses objetivos”.

No Brasil tem havido esforços em prol do incentivo ao parto normal, inclusive por parte do governo. No início do ano, a Agência Nacional de Saúde e o Ministério da Saúde anunciaram uma série de novas regras, que entraram em vigor no último dia 6 de julho, para incentivar a realização de partos normais e reduzir o alto número de cesáreas no Brasil, que está atualmente no topo do ranking dos países que mais realizam este tipo de procedimento.

Defensoras ferrenhas do parto normal, as doulas se propõem a preencher uma lacuna no cenário do parto no país: a que trata justamente do bem-estar físico e emocional da gestante.

“Uma doula tem a função de fornecer apoio emocional, físico e informativo. Não cabe a ela realizar nenhum procedimento, como toques vaginais, auscultas do bebê ou ministrar medicamentos farmacológicos. Busca-se oferecer alívio para as dores através de massagens, exercícios, banhos de imersão, técnicas de relaxamento e respiração. O principal é dar apoio emocional e encorajar a mulher a se lembrar do seu dom natural de parir”, explica Sofia.

Nem sempre, no entanto, as doulas são autorizadas a entrar na sala de parto, principalmente quando ele é feito em um hospital público. Uma lei aprovada em 1990 prevê que a gestante seja acompanhada por uma única pessoa durante o nascimento do bebê, geralmente o pai ou um membro da família.

A categoria “doula” foi incluída, no início de 2013, na Classificação Brasileira de Ocupações do Ministério do Trabalho e Emprego. Isto significa, na teoria, que o trabalho destas mulheres passou a ser reconhecido pelo governo, mas, na prática, elas ainda enfrentam resistência.

Muitos médicos não se sentem seguros para trabalhar ao lado das doulas, por medo de interferência. Segundo Sofia, “o preconceito existe principalmente entre a classe médica, às vezes por falta de conhecimento do nosso trabalho, e outras vezes por nos verem como ameaça”.

Ela ressalta, no entanto, que “os profissionais de saúde que estão engajados na causa do nascimento com respeito entendem muito bem a nossa parte neste processo”.

Sofia trabalha há nove anos como doula, mas só há cerca de três vem percebendo uma procura maior pelo seu trabalho. Ela acredita que isso se deve principalmente à maior discussão e divulgação do tema na mídia e nas redes sociais. O filme “O Renascimento do Parto”, de Érica de Paula e Eduardo Chauvet, lançado em agosto de 2013, é citado pela doula como um marco dos alertas sobre o número alarmante de cesáreas na realidade obstétrica mundial.

Um estudo publicado em 1993 pelos pesquisadores norte-americanos John H. Kennel e Marshall H. Klaus revelou que a presença da doula no trabalho de parto e durante o parto reduz em 50% os índices de cesariana, em 25% a duração do trabalho de parto, em 60% os pedidos de analgesia peridural, em 30% o uso de analgesia peridural, em 40% o uso de ocitocina e em 40% o uso de fórceps.

Já o grupo científico da Cochrane Collaboration, uma organização independente sem fins lucrativos, declarou em um relatório publicado em 1998 que, “devido aos claros benefícios e nenhum risco conhecido associado ao apoio intraparto, todos os esforços devem ser feitos para assegurar que todas as mulheres em trabalho de parto recebam apoio, não apenas de pessoas próximas, mas também de acompanhantes especialmente treinadas. Este apoio deve incluir presença constante, fornecimento de conforto e encorajamento”.

O trabalho das doulas não se resume, no entanto, ao trato com a gestante. “No pós-parto, a doula auxilia na amamentação, na interação entre mãe e bebê, além de contribuir na redução da incidência de depressão pós-parto”, ressalta Sofia, que conclui a entrevista citando uma frase de Kennel: “se doula fosse remédio, seria antiético não receitar”.

No Brasil, o trabalho das doulas pode ser contratado por um valor que varia de R$ 400 a R$ 2.500, dependendo da cidade e do tipo de pacote desejado pela gestante. Há também doulas que trabalham como voluntárias em hospitais públicos. Diversas entidades no país oferecem cursos de formação de doulas, cujos treinamentos podem durar apenas um final de semana ou até mesmo alguns meses. A atividade não requer uma formação específica; requer vocação e amor.

Caro leitor, você acha que a participação de uma doula em um parto pode interferir no trabalho dos profissionais de saúde? Você contrataria ou indicaria o serviço de uma doula?

3 Opiniões

  1. Roberto Ebelt disse:

    Maravilhoso. Sem falar que é uma loucura internar uma pessoa sadia em um local cheio de doentes e doenças, bactérias e vírus para a realização de um parto, visto que gravidez não é doença. Nasci através das mãos de uma parteira, e me parece que é necessário desospitalizar os partos. Com a palavra os médicos.

  2. Nelia Maria Richa disse:

    Sempre admirei o trabalho das doulas. Mas acredito que o desconhecimento sobre o que fazem, onde achá-las e o nůmero reduzido delas dificulte a participaçāo delas. Artigos como esse ajudam a esclarecer e informar a populaçāo. Parabéns.

  3. Mario Flavio Seixas disse:

    Excelente e indispensável apoio às gestantes.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *