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CÂMARA

EBC terá de explicar restrição à cobertura do caso Marielle

Comissão da Câmara quer explicações de presidente da EBC sobre ordem para restringir a cobertura da execução de Marielle Franco

EBC terá de explicar restrição à cobertura do caso Marielle
Episódio é mais um de uma série e polêmicas envolvendo a direção da empresa (Foto: ABr)

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A comissão externa da Câmara criada pelo Psol para acompanhar as investigações da execução da vereadora Marielle Franco (Psol-RJ) e seu motorista, Anderson Gomes, vai exigir do diretor-presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Laerte Rímoli, explicações sobre a ordem dada a jornalistas da empresa para restringir a cobertura do caso e não noticiar manifestações em homenagem à vereadora.

O fato veio à tona na última terça-feira, 20, quando repórteres e editores da EBC decidiram protestar contra dois e-mails enviados por chefes de reportagem aos subordinados com ordens para que a cobertura do caso fosse reduzida.

Um dos e-mails foi enviado pelo gerente-executivo da Agência Brasil, Alberto Mendonça Coura, com a solicitação “Menos matéria da vereadora”. “Peço a gentileza de orientar Akemi [jornalista da empresa] a não fazer manifestações sobre a morte da vereadora. Estão repetitivas e cansativas. Nos jornais só há artigos e, você sabe, não publicamos esta forma de opinião. Claro que, se houver fato novo relevante, deve fazer”, diz o e-mail.

O outro e-mail, enviado pelo gerente de Redação da Agência Brasil, Roberto Cordeiro, orienta os subordinados a reduzir a cobertura, afirmando que as homenagens do Psol à vereadora “são para tirar proveito do momento”. “Precisamos reduzir matérias da morte da vereadora Marielle Franco. Essas homenagens do Psol são para tirar proveito do momento. Ou outras repercussões do gênero. Devemos nos concentrar nas investigações e naquilo que dizem as autoridades”, diz a mensagem.

(Foto: Facebook)

(Foto: Facebook)

Na terça-feira, em reposta às imposições, repórteres e editores da Agência Brasil de Brasília postaram no Facebook uma foto com os dizeres “Não vão nos calar! Marielle presente”. Profissionais de imprensa se solidarizaram com os colegas e passaram divulgar nas redes sociais notas de apoio ao protesto e repúdio à postura da chefia de reportagem.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal também se manifestou, divulgando uma nota condenando a conduta da EBC. “Jornalistas e radialistas da Empresa Brasil de Comunicação protestam contra restrição da cobertura do assassinato de Marielle e Anderson. Chefias da Agência Brasil orientaram a não cobrir mais os atos alegando que eles seriam uma ‘exploração política’, censurando manifestações legítimas e importantes. Enquanto isso, o site faz cerca de 10 matérias por dia sobre o Fórum Mundial da Água por ter feito contrato com a Agência Nacional de Águas no valor de R$ 1,8 milhão”, diz a nota.

Após a repercussão, a EBC se manifestou através de uma nota na qual se diz “surpresa com a orientação” de Roberto Cordeiro e informa que o gerente de redação foi “formalmente advertido”. “A orientação sempre adotada pelo comando editorial da empresa – e repassada a seus veículos – é a de acompanhar todos os temas da agenda nacional, como o caso Marielle, e noticiar todos os fatos do dia a dia”, diz a nota.

Histórico de ingerência e polêmicas

A EBC é uma empresa de comunicação pública. Diferente das emissoras comerciais, que pautam a cobertura pelo retorno financeiro, e das emissoras estatais, que servem de porta-voz do governo, ela tem como missão ser um espaço de difusão cultural e formação do pensamento crítico do telespectador, e não pode ter caráter político-partidário. No entanto, como já noticiado em um artigo do Opinião e Notícia, a distinção entre público e estatal nunca foi muito clara no Brasil, o que faz da EBC alvo constante de ingerência do governo.

Uma das mudanças mais drásticas ocorreu em 2016, quando Dilma Roussef foi afastada da presidência e Michel Temer assumiu interinamente o governo. Uma das primeiras ações de Temer foi exonerar Ricardo Melo do cargo de diretor-presidente da EBC. Melo havia sido nomeado por Dilma para a função duas semanas antes, para um mandato de quatro anos. Em seu lugar, Temer nomeou Laerte Rimoli, atualmente no cargo. Meses depois, Temer extinguiu o conselho curador da EBC, que atuava junto aos dois outros conselhos da emissora, o fiscal e o administrativo, e era responsável por dar o caráter público da EBC.

Em 2017, outra polêmica envolvendo a EBC veio à tona. Em março daquele ano, em meio a rígidas medidas de austeridade que resultaram no corte de diversos contratos, o conselho de administrativo da EBC aprovou um reajuste de 30% no salário do diretor-geral Laerte Rimoli e de outros quatro diretores da cúpula da emissora. O assunto foi noticiado em uma reportagem do Globo. Em contraponto, um ano antes, a empresa concedeu um reajuste de apenas 6,87% a seus funcionários, medida que foi concretizada após um longo processo de negociação que necessitou da mediação da Justiça Trabalhista.

Outra polêmica envolvendo Rimoli ocorreu em novembro do ano passado, quando ele foi convocado para se explicar na Comissão de Ética Pública da Presidência. O órgão pediu a ele esclarecimentos sobre postagens em redes sociais que faziam piada de casos de racismo sofrido pela atriz Taís Araujo, que na época havia dado uma palestra falando sobre o preconceito racial sofrido por ela e sua família.  Na época, jornalistas da EBC repudiaram a postura de Rímoli, que, diante da repercussão do caso, pediu desculpas pelas piadas e apagou as postagens.

Imparcialidade em xeque

Em entrevista dada na terça-feira, à revista Forum, Gésio Passos, coordenador do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal e repórter da EBC, criticou a postura da empresa em relação à cobertura do caso Marielle, que, segundo ele configura censura. Na entrevista, ele fez um contraponto ao argumento de partidarismo da chefia de redação, uma vez que a empresa promove uma cobertura enviesada de temas defendidos pelo governo.

“Na verdade, é mais uma censura da direção da empresa contra seus trabalhadores. Isso se soma a um histórico de intervenção, encomendada pelo Planalto, dentro da EBC. Não é um caso isolado, está sendo cada vez mais corriqueiro. O sindicato vem denunciando sistematicamente essas intervenções na linha editorial da empresa […] Em paralelo, a gente tem uma cobertura toda enviesada do Fórum Mundial da Água porque a empresa fez um acordo, na nossa visão, ilegal. Um acordo de cobertura do Fórum onde a Agencia Nacional de Águas (ANA) tem ingerência na escolha das pautas”, disse Passos, se referindo ao evento que ocorre em Brasília até a próxima sexta-feira, 23

Passos também aponta o fato de que a EBC vem censurando a cobertura de críticas à intervenção federal no Rio de Janeiro, iniciativa apoiada pelo governo federal e criticada por Marielle Franco. “A gente teve casos, por exemplo, durante a intervenção, de chefes não querendo dar a nota da Justiça Global sobre a intervenção, dizendo que a Justiça Global não deveria se pronunciar sobre o assunto. Chegou ao absurdo disso dentro da redação da EBC. São vários casos e, com isso, se mostra a tentativa do governo de calar a empresa pública e impedir que ela cumpra o seu papel, que é levar informações de forma independente à população”, criticou Passos.

Caso de grande repercussão

A execução de Marielle Franco gerou grande comoção nacional e repercutiu em importantes veículos internacionais, como o New York Times, a ABC News e o Washington Post, que dedicou uma matéria de capa ao caso.

No desdobramento das investigações, uma onda de notícias falsas começou a circular na internet, o que levou uma equipe de voluntários das áreas de Comunicação e Direito a lançar uma página dedicada a desmentir boatos falsos.

Os casos mais polêmicos envolveram o deputado Alberto Fraga (DEM-DF), que publicou uma notícia falsa no Twitter associando Marielle ao narcotráfico, e a desembargadora Marilia Castro Neves, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), que também relacionou a vereadora ao crime organizado.

No caso da desembargadora, a polêmica foi ainda além, uma vez que, além de difamar Marielle, ela se envolveu em outras controvérsias por ofender uma professora com Síndrome de Down e por ter defendido em uma ocasião o fuzilamento do deputado Jean Wyllys (Psol-RJ). O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) abriu um processo para investigar a conduta da desembargadora.

Uma petição pública pedindo o afastamento de Marilia Castro Neves também foi criada na internet. Direcionada ao CNJ, o manifesto afirma que a conduta da desembargadora ” é incompatível e acintosa com as elevadas funções que exerce”.

Uma das que apoia a petição é a jornalista Cora Ronai, do Globo. Na terça-feira, ela expressou seu apoio ao manifesto em uma postagem no Facebook. “Uma pessoa tão destituída de bom senso e de empatia não pode tomar decisões sobre a vida dos outros. Pelo bem da sociedade, as suas sentenças deveriam ser revistas, uma a uma”, escreveu a jornalista.

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2 Opiniões

  1. Daniela Villa disse:

    Um interessante caso de censura ao contrário, onde uma emissora é censurada não pelo que mostra, mas pelo que deixa de mostrar.

  2. laercio disse:

    Brasil é cadeia são iguais: quem pode mais chora menos!

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