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FOCO DE RESISTÊNCIA

Em 1964, MPB e estudantes puxaram a fila da oposição à ditadura

Em contraste com o tom contemplativo da Bossa Nova da década anterior, a MPB se formou nos anos 1960 em meio a preocupações sociais e tensão com militares

Em 1964, MPB e estudantes puxaram a fila da oposição à ditadura
Campo cultural e artístico foi um foco de resistência ao movimento militar (Foto: Wikipedia)

Olavo de Carvalho, Alexandre Frota, Lobão e outros entusiastas de Jair Bolsonaro opinaram, no aniversário de 50 anos do Ato Institucional Número 5, que marcou a fase mais sanguinária da ditadura no Brasil, que artistas como Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil “estavam do lado errado da história”.

Para esclarecer parte do que se passou, vamos aos fatos. É verdade que parte significativa da música brasileira produzida entre 1965 e 1978 reflete sobre o momento político pós-golpe militar, e muito já se escreveu sobre as posições de enfrentamento dos músicos e estudantes da época.

Cláudio Novaes, pesquisador da história da música brasileira, afirma mesmo que “a própria constituição da MPB é inseparável da existência de vínculos com setores estudantis”.

Em seus primeiros anos, conta Novaes, que coincidem com o período posterior ao golpe, a MPB se fortalece “identificando-se com posturas nacionalistas, com a realização de shows promovidos por organizações estudantis, especialmente nas universidades paulistas”.

O entusiasmo dessas primeiras plateias foi parte do que chamou a atenção dos empresários da indústria fonográfica e dos produtores da TV Globo e da Rede Record, que nos anos seguintes investiram pesadamente nos festivais da canção que auxiliaram a MPB a se estabelecer no mercado.

“Por toda parte os estudantes se organizavam. Diretórios ferviam. Camburões se multiplicavam nas ruas”, lembra Márcio Borges, um dos principais parceiros musicais de Milton Nascimento e Lô Borges. Embora num momento inicial não se pudesse dizer que a sociedade estivesse mobilizada contra a ditadura – pelo contrário, parcela importante da população apoiava o regime, enquanto outros tantos eram indiferentes – os movimentos estudantis, sob a liderança da União Nacional dos Estudantes (UNE), fez desde o início oposição aos militares. Por isso, já em 1964, sob a Lei Suplicy de Lacerda, a UNE foi extinta e passou a atuar na ilegalidade, tendo sua sede nacional, na Praia do Flamengo, Rio de Janeiro, invadida e incendiada.

Atitudes extremas do regime militar como a extinção da UNE ou a instituição da censura, no entanto, encontravam aprovação entre amplos setores da classe média e alta.

Nas palavras dos sociólogos Heloísa Buarque de Hollanda e Marcos Augusto Gonçalves, dos meses que antecederam o golpe até o desmoronamento do “milagre econômico”, parte do povo, provando que a história se repete em ciclos, parecia “tomado por um turbilhão de preciosidades do pensamento doméstico” que incluía “o zelo cívico-religioso a ver por todos os cantos a ameaça de padres e professores comunistas; a vigilância moral contra o indecoroso comportamento “moderno” que, certamente incentivado por comunistas, corrompia a família; enfim, todo o repertório ideológico que a classe média, a caráter, prazerosamente é capaz de ostentar”.

Assim, apesar de representativa de uma minoria que tinha acesso ao ensino superior (e que, não raro, era filha dessa mesma classe média reacionária de que falam Buarque e Gonçalves), a UNE, levando-se em conta apenas os universitários, era grande o bastante para incomodar os militares: por volta de 1968, estima-se em 214 mil o número de matriculados em faculdades pelo país. Uma fatia pequena, contudo, se comparada aos mais de oito milhões de universitários matriculados atualmente.

Marchas e protestos eram organizados com frequência pela UNE, alguns figurando ainda hoje no imaginário em torno da resistência à ditadura, como o “Massacre da Praia Vermelha”, em 1966, quando estudantes de medicina da UFRJ foram recebidos a cassetetes e bombas pelas forças policiais, e a “Passeata dos 100 mil”, em junho de 1968 e também no Rio de Janeiro, impulsionada pela morte do estudante secundarista Edson Luís e que contou com a presença dos atores Paulo Autran e Grande Otelo, da escritora Clarice Lispector, das jovens estrelas Nara Leão, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento, de políticos como Tancredo Neves e Fernando Gabeira e dos então desconhecidos líderes estudantis José Dirceu e Dilma Rousseff.

Acossada pela ascensão cultural da esquerda e pelas frequentes manifestações estudantis, em dezembro de 1968 o governo militar baixa o AI-5, fortalecendo o poder repressivo do Estado. Em nome do “combate à subversão e às ideologias contrárias às tradições de nosso povo”, segundo consta no texto do decreto, o ato dava ao executivo a prerrogativa de fechar o Congresso Nacional e as assembleias estaduais se julgasse conveniente, de suspender e cassar direitos políticos de cidadãos tidos por suspeitos, proibir manifestações e atividades de natureza “subversiva”, demitir funcionários públicos e juízes contrários ao regime e, por fim, determinava que o judiciário não poderia apreciar recursos apresentados por pessoas acusadas em nome do AI-5.

“Os temas eram infindáveis, tanto quanto a duração dos debates”, escreveu o jornalista Zuenir Ventura em “1968, O ano que não terminou”: “mais do que discutir, torcia-se: pela vitória dos vietcongs, a favor ou contra as guitarras elétricas na MPB, por Chico ou Caetano, pela participação política dos padres e, claro, contra a ditadura”.

Participantes ativos nesses debates – sendo que muitos vinham das classes médias e das universidades –, os músicos da MPB ganhavam protagonismo entre a esquerda e forjavam sua identidade por meio, também, da luta contra a ditadura. Se o debate nas ruas, no parlamento e nas esferas tradicionais de discussão política foi inviabilizado pelo AI-5, o campo cultural e artístico buscou desempenhar, novamente nas palavras de Heloísa Buarque e Marcos Augusto, “um papel de ‘foco de resistência’ à implantação do projeto representado pelo movimento militar”.

Imagens utópicas de uma modernidade desvinculada dos modelos impostos de fora e ideias de liberdade e justiça social perpassam parte das composições da MPB desta época. Artistas como Nara Leão, João do Vale e Elis Regina buscavam ampliar o horizonte temático da Bossa Nova – resumidos no bordão “o amor o sorriso e a flor” – e, na esteira do Cinema Novo e do Teatro de Oprimido, abordavam os problemas sociais e políticos do país.

Não por menos, shows como o do teatro Opinião, dirigido em 1965, por Augusto Boal, e que apresentou Maria Bethânia ao Rio de Janeiro, ficaram marcados como representativos desse momento inicial da MPB. A ideia corrente, expressa já no título e no texto que apresentava o espetáculo, era de que a música era tão mais expressiva “quanto mais tenha uma opinião”.

O engajamento dos músicos e dos estudantes, contudo, não saiu barato: de 1968 em diante a ditadura se acirrou, começaram os expurgos de professores e alunos nas universidades, o exílio e a censura de escritores e músicos, e o sequestro, a tortura e o assassinato se tornaram formas de intimidação política.

Só 20 anos depois de 1964 teve fim o “governo provisório” dos militares que, para o presidente Jair Bolsonaro e muitos de seus apoiadores, não pode ser considerado como uma ditadura.

 

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3 Opiniões

  1. Vasco A. Duval disse:

    Ditadura mesmo seria o que tentaram implantar aqui no Brasil com todo apoio cubano e soviético. Um sistema político que ao longo do século passado assassinou aproximadamente cem milhões de soviéticos, chineses, cubanos e cidadãos do Leste Europeu, na maior matança que a humanidade conheceu.
    Aqui no Brasil, tivemos uma oposição que, apesar de cerceada tinha grande protagonismo, chegando a grandes vitórias principalmente em 72, sob o AI5, após o choque do petróleo que desorganizou as economias ocidentais assim como a nossa.
    Tivemos também Chico Buarque e outros compositores que tiveram liberdade de fazer musicas metendo o pau nos militares. Seus discos vendidos livremente em todo território nacional enriquecendo os autores no típico caso de cuspir no prato que comeu.
    O militares sempre souberam que com comunistas não se pode titubear e, graças à sua firmeza, hoje temos um país democrático, longe da “democracia” da então “República Democrática Alemã” pois chamar aquilo de “República Democrática” é um escárnio à humanidade e, seria este tipo de regime que teríamos hoje aqui no Brasil, não fosse a firmeza dos militares.

  2. Almanakut Brasil disse:

    Bela “ditadurinha” o Regime Militar, o brando, que não fuzilou seus opositores PEÇONHENTOS, como fizeram as DITADURAS comunistas!

    Se não tivesse sido aquela censura, a maioria desses parasitas da MPB já estavam esquecidos e muitos tinham morrido pobres.

    Em CUba, a maioria dos astros da música de lá só fizeram sucesso fora do país e muitos ninguém conhece.

    Hoje, principalmente por causa do antro da imprensa que permaneceu e dos ratos de poderes públicos que infestaram o Brasil, principalmente depois da “c*” da Anistia, o povo percebeu quem sempre prestou e quem tem que queimar no Inferno de vez.

    Graças a DEUS não caímos na conversa de professores comunistas maconheiros e fugimos a tempo das trevas.

    Só não agradecemos os militares da época com total entusiasmo, por causa do serviço malfeito.

  3. Almanakut disse:

    Prezado jovem que pretende ser um “jornalista” do futuro, se é que o jornalismo tem futuro:

    DEUS te livre de um professor maconheiro, cachaceiro e comunista da esquerda!

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