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‘THE INTERCEPT’

Em mensagens, Deltan celebra encontro com Fachin

Mensagens obtidas pelo 'Intercept' expõem encontro entre Deltan e o ministro do STF, puxão de orelha de Moro a procuradores e conselho de Faustão à Lava Jato

Em mensagens, Deltan celebra encontro com Fachin
‘Aha uhu o Fachin é nosso’, escreveu Deltan Dallagnol (Foto: José Cruz/ABr)

Novas mensagens obtidas pelo site “The Intercept” – referentes ao escândalo conhecido como Vaza Jato – foram divulgadas nesta sexta-feira, 5, pela revista Veja.

O conteúdo reforça a visão de que o atual ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, extrapolou suas funções ao orientar procuradores quando atuou como juiz responsável pelos julgamentos da Operação Lava Jato.

As conversas expõem o entusiasmo do procurador Deltan Dallagnol – coordenador da força tarefa da Lava Jato – após um encontro com o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), o posicionamento contrário de Moro ao fechamento de um acordo de delação premiada com o deputado cassado Eduardo Cunha, a orientação de Moro a procuradores para inclusão de um dado em uma denúncia contra um réu da Lava Jato a ser julgado por ele, um “puxão de orelha” em Dallagnol por ter o MPF recorrido de uma sentença aplicada a dois delatores da Lava Jato e uma orientação a Moro dada pelo apresentador de televisão Fausto Silva, da Rede Globo.

Em uma mensagem datada de 13 de julho de 2015, Deltan usa o aplicativo Telegram para celebrar um encontro que teve com Fachin. “Caros, conversei 45 m com o Fachin. Aha uhu o Fachin é nosso”, escreveu o procurador em um grupo composto por colegas do MPF.

Substituto de Teori Zavascki na relatoria da Lava Jato, Fachin é o segundo ministro do STF citado nas conversas. O primeiro foi o ministro Luis Fux, que apareceu em uma mensagem postada por Dallagnol em um grupo de procuradores em abril de 2016. Nela, Deltan escreveu: “Caros, conversei com o Fux mais uma vez. Reservado, é claro: O Min Fux disse quase espontaneamente que Teori [Zavascki] fez queda de braço com Moro e viu que se queimou, e que o tom da resposta do Moro foi ótimo”. Deltan encaminhou a mensagem a Moro, que respondeu: “Excelente. In Fux we trust” (Em Fux nós confiamos, em tradução livre).

As mensagens divulgadas nesta sexta-feira também apontam que, em novembro de 2015, Moro reclamou que estava difícil entender os motivos pelos quais o MPF recorreu da sentença aplicada aos delatores Augusto Ribeiro de Mendonça Neto, Pedro José Barusco Filho, Mário Frederico Mendonça Góes e Júlio Gerin de Almeida Camargo. Dallagnol explica que “o mp está recorrendo da fundamentação, sem qualquer efeito pratico [Sic]”. A explicação, no entanto, não reduz as críticas de Moro, e Dallagnol, então, solicita um encontro com o juiz. “25m seriam suficiente [sic].

Também em abril de 2016, Moro orientou procuradores a incluir uma informação em uma denúncia contra Zwi Skornicki, do estaleiro Keppel Fels, que tinha contratos com a Petrobras e operou propinas no esquema de corrupção da empresa. Após fechar acordo de delação premiada, Skornicki afirmou ter pago propina a funcionários da empresa, entre eles, Eduardo Musa. Em uma mensagem trocada em 28 de abril, Dallagnol diz à procuradora Laura Tessler: “Laura no caso do Zwi, Moro disse que tem um depósito em favor do Musa e se for por lapso que não foi incluído ele disse que vai receber amanhã e da tempo. Só é bom avisar ele”. A procuradora responde: “Ih, vou ver”. Minutos após a inclusão, Moro aceita a denúncia, citando em sua decisão o dado solicitado a Dallangol.

Em maio de 2016, moro relata a Dallagnol ter sido procurado pelo apresentador Fausto Silva, o Faustão, da Rede Globo. Moro diz que o apresentador o cumprimentou por seu trabalho na Lava Jato e deu um conselho sobre o repasse de informações ao público. “Ele disse que vcs nas entrevistas ou nas coletivas precisam usar uma linguagem mais simples. Para todo mundo entender. Para o povão. Disse que transmitiria o recado. Conselho de quem está a [sic] 28/anos na TV. Pensem nisso”, disse Moro. Procurado pela Veja, o apresentador confirmou a conversa e o conteúdo.

As mensagens também expõem a rejeição de Moro ao fechamento de um acordo de delação premiada de Eduardo Cunha. Em 12 de junho de 2017, o procurador Ronaldo Queiroz criou um grupo no Telegram para informar que foi procurado pelo advogado de Cunha para dar início à negociação de um acordo de delação premiada. O procurador afirma que a delação seria de interesse de procuradores de Curitiba, Rio de Janeiro e Natal – cidades onde corriam ações contra Cunha. Em seguida, o procurador afirma esperar que Cunha entregue no Rio de Janeiro, pelo menos um terço do Ministério Público estadual, 95% dos juízes do Tribunal de Justiça, 99% do tribunal de contas e 100% da Assembleia Legislativa.

Em 5 de julho, os procuradores concordam em marcar uma reunião com o advogado de Cunha, Délio Lins e Silva. Na noite daquele dia, Moro questiona Dallagnol sobre a possível delação. “Espero que não procedam”, diz o então juiz, sem saber o conteúdo da possível delação. Dallagnol responde que tudo não passa de rumores e que o encontro com o advogado foi marcado para que os procuradores tomem conhecimento do conteúdo dos anexos. “Acontecerá na próxima terça. estaremos presentes e acompanharemos tudo. Sempre que quiser, vou te colocando a par”, diz Dallagnol a Moro. O juiz responde: “Agradeço se me manter informado. Sou contra, como sabe”.

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