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REBELIÃO

Entenda a relação da guerra das facções com a rebelião em Manaus

A ruptura da parceria entre o PCC e o Comando Vermelho parece ter sido o que motivou a Família do Norte a matar detentos na rebelião em Manaus

Entenda a relação da guerra das facções com a rebelião em Manaus
O complexo Anísio Jobim, onde ocorreu o episódio da rebelião, tinha 1.224 detidos num local que só teria 454 vagas (Foto: Flickr/Marighella Publico)

A rebelião no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, no último domingo, 1, está levantando uma série de debates em torno do sistema carcerário do país e da guerra entre as facções.

Leia mais: Faltam bloqueadores de celular em 65% dos presídios do país

Para entender melhor a situação atual, é preciso voltar ao tempo e relembrar o massacre de Carandiru em 1992. O assassinato de 111 presos na Casa de Detenção de São Paulo (conhecido como Carandiru) foi decisivo para a fundação do Primeiro Comando da Capital (PCC). O PCC foi criado por um grupo em 31 de agosto de 1993 na Casa de Custódia de Taubaté, pouco menos de um ano depois do massacre do Carandiru.

O massacre de Carandiru e o surgimento do PCC

“Antes do massacre, o estado já extorquia, torturava e matava os presos. O Carandiru não foi a única causa da fundação (do PCC), mas colaborou muito para isso”, afirmou o padre Valdir João Silveira, coordenador nacional da Pastoral Carcerária, da Igreja Católica a BBC.

Um dos principais objetivos da facção, no começo, era combater os maus tratos nas prisões e evitar massacres como o de 1992. Com o tempo, o PCC ganhou força e tentava aterrorizar o estado de São Paulo, com violência e ameaças, para ter melhores condições de vida e até regalias para os presos. Os governos paulistas dizem nunca ter negociado com a facção.

Depois a facção começou a cobrar mensalidades de seus membros, gerando uma rede de apoio para os criminosos, os presos e suas famílias. Suas ações não se restringiram apenas aos presídios, a facção começou a controlar parte do tráfico de drogas em São Paulo e até assumiu o controle do tráfico de entorpecentes no país.

Segundo o Ministério Público, o PCC tem hoje no país 29 mil membros, sendo 22 mil deles fora do estado de São Paulo. Já a maior facção do Rio de Janeiro, o Comando Vermelho, tem 16 mil fora do Rio.

Ruptura entre facções

De volta à atualidade, a ruptura da parceria entre o PCC e o Comando Vermelho parece ter sido o que motivou a Família do Norte a matar detentos na rebelião em Manaus. A Família do Norte é uma facção amazonense e atualmente é o braço do Comando Vermelho no norte do país. No entanto, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes diz que é um erro achar “que esse massacre e essas rebeliões são apenas guerra entre facções”.

Por outro lado, existe um medo crescente nas unidades prisionais, principalmente, que o PCC retalie os ataques da Família do Norte ou até que o PCC se reafirme como “líder das prisões”. Em uma prisão de Dourados, no Mato Grosso do Sul, por exemplo, presos iniciaram uma rebelião porque disseram ter visto um drone lançando um pacote no pátio da unidade. De acordo com agentes prisionais, a suspeita é que armas teriam sido deixadas para detentos e seus rivais denunciaram o delito. “Depois de Manaus, todo mundo está paranoico por aqui. É um inimigo denunciando o outro. Acham que qualquer momento alguém pode começar uma carnificina”, afirmou um agente penitenciário de Dourados.

Em um comunicado à imprensa, a Humans Right Watch pediu que o governo brasileiro retome o controle de seu sistema prisional.  “O fracasso absoluto do Estado nesse sentido viola os direitos dos presos e é um presente nas mãos das facções criminosas, que usam as prisões para recrutar seus integrantes”, afirmou a diretora da HRW no Brasil, Maria Laura Canineu.

O posicionamento dos políticos

Para piorar a situação, o ministro da Justiça disse que as autoridades do Amazonas já sabiam, antes do massacre, da possibilidade de uma fuga em massa dos presídios do estado. No entanto, a festa de fim de ano da penitenciária não foi suspensa.

De acordo com o Globo, um relatório indicava que a Polícia Federal do Amazonas sabia há mais de um ano que criminosos da facção Família do Norte planejavam exterminar “todos os membros” do grupo ligado ao PCC presos em Manaus. No entanto, nada foi feito.

Como a Polícia Federal é subordinada ao Ministério da Justiça, o ministro da Justiça criticou o governo do Amazonas por ter conhecimento da situação e não ter avisado nada ao governo federal. “Não foi solicitado nenhum auxílio, seja da Força Nacional, seja de qualquer outro mecanismo”, declarou Moraes. O governo estadual, por sua vez, reconheceu que houve falha.

O presidente Michel Temer ainda não falou nada sobre o assunto. Porém, ele se reuniu, nesta quinta-feira, 5, com os ministros de segurança (Justiça, Gabinete de Segurança Institucional, Advocacia-Geral da União e Transparência) para debater algumas soluções para o sistema penitenciário brasileiro.

Na coletiva da reunião, Moraes falou que o foco do ministério será ações inteligência, com agentes coletando informações dentro dos presídios e tratados com países vizinhos para coibir o tráfico de drogas e armas.

Moraes também anunciou que serão construídos mais presídios, incluindo de segurança máxima, que vão separar presos de acordo com idade e periculosidade. Esse presídios serão munidos de bloqueadores de celular e scaners para impedir a entrada de armas nas unidades.

Fontes:
El País-De mãos atadas, Temer debate estratégia para caos penitenciário
Congresso em Foco-PF sabia desde 2015 de ameaça de massacre no Amazonas, diz O Globo
BBC-Matança no Carandiru motivou formação de facção criminosa
G1-ENTENDA: o que a disputa nacional entre facções tem a ver com a barbárie no presídio do Amazonas

5 Opiniões

  1. Lucas Rodrigues disse:

    O Brasil é o país que mais tem leis no mundo, ou seja, nosso problemas é a falta de leis e sim a falta de aplicação e mal funcionamento dos sistemas , judiciário, penario e carcerário, nos tempos de hoje, o criminoso não tem mas medo das leis e das autoridades militares, civil ou federal, eles sabem que semanas ou até dias depois de preso estaram soltos nas ruas. Moral dá história estamos todos fudidos enquanto Bolsonaro não ser eleito

  2. Carlos Valoir simões disse:

    A TV não mostra, mas os mortos de Manaus foram decapitados e esquartejados. Como é razoável supor que a maioria dos “empresários” e colaboradores do crime estão soltos, imaginem a sociedade ter que conviver com gente dessa índole solta pelas ruas.

  3. Rogerio Faria disse:

    “E tudo quanto havia na cidade destruíram totalmente ao fio da espada, desde o homem até à mulher, desde o menino até ao velho, e até ao boi e gado miúdo, e ao jumento.”
    Josué 6:21.

    Pelo menos em Manaus não se mataram, crianças, mulheres, velhos, etc.
    O massacre de Jericó foi com as “bênçãos de deus”…

  4. Jorge disse:

    É surrealista!
    No Brasil 136 assassinatos POR DIA. Imaginem a quantidade de outros crimes.
    É o país com o maior numero de assassinatos DO MUNDO.
    E a mídia, os ditos “analistas”, “especialistas” focam nos mortos por policiais, da população carceraria, até da cultura de estupro, mas nada falam da cultura do crime, da cumplicidade do crime organizado com os políticos.
    A estratégia de poder continental inclui fomentar o crime organizado e não organizado para desestabilização do sistema mas isso é omitido do imaginário popular.
    Com isso a mídia torna-se corresponsável por essa calamidade.
    Aonde estão os jornalistas corajosos e independentes???

  5. lauro disse:

    as leis estão muito frouxas os presos tem muitas regalas,onde era para ser lugar de castigo,
    e área de ressocialização,viraram motéis,pontos comercias,Quando será que um bandido temerá a um presidio se lá ele faz o que quer? tem que rever as leis,colocar trabalho nos presídios e os presos trabalharem para se manter e mandar para suas família e ainda pagar ao governo a sua estadia no presidio pois muito vai por que quer,eles sabem o que é crime não é? e nos cidadão somos obrigado a pagar por isso.

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