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Escola ou linha de produção?

Documento sobre os rumos da educação brasileira levanta polêmica

Escola ou linha de produção?
O projeto é ambicioso ao romper com a cronologia tradicional, ou seja, os temas partem do presente para passado e enfatizam o ensino da História do Brasil (Foto: Pixabay)

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“Professor, o que vai cair na prova?”, esta é uma pergunta frequente em sala de aula e que mostra que a nossa educação está muito mais pautada nas avaliações do que no ensino em si.

Atualmente, um documento apresentado pelo Ministério de Educação como a proposta preliminar para discussão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) está no meio de uma polêmica sobre os rumos da educação brasileira. O texto está em consulta pública, ou seja, qualquer um pode enviar sugestões de modificação, inclusão e exclusão pelo site até o dia 15 de março.

Segundo o site da BNCC, o objetivo do texto é estabelecer os conhecimentos e habilidades essenciais que todos os estudantes brasileiros devem obter em sua trajetória na educação básica, desde a educação infantil até o ensino médio.

A assessoria de comunicação social do Ministério da Educação (MEC) diz que a base não constitui um currículo em si, mas os objetivos de aprendizagem que os currículos escolares de todo o país, construídos por redes de ensino públicas e privadas, devem cumprir.

O texto relativo à disciplina de História é o que enfrenta mais críticas, tanto é que ele nem foi divulgado junto com os das outras áreas de conhecimento, mas dias depois. O projeto é ambicioso ao romper com a cronologia tradicional, ou seja, os temas partem do presente para passado e enfatizam o ensino da História do Brasil. As críticas são muitas, vão desde questões ideológicas, inadequação do conteúdo com a faixa etária dos alunos até temas que foram deixados de lado.

Na última quinta-feira, 14, o professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Fernando Penna, deu uma palestra no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) sobre o assunto. Uma de suas maiores críticas foi que a BNCC sirva para legitimar as avaliações de larga escala. Como exemplo, ele mostrou uma entrevista que fez com uma professora que trabalha há 25 anos em um colégio estadual do Rio de Janeiro. Na fala da educadora, ela se mostrava insatisfeita com um ciclo que acontecia com bastante frequência. Seus alunos passam por provas estaduais, o Saerjinho e o Saerj. A nota dessas provas com conteúdos específicos influencia na nota do aluno na escola. Além disso, as escolas e, consequentemente, seus professores ganham bonificação salarial por conta da meritocracia, ou seja, pelos níveis de aprovação dos alunos. Logo, se os alunos não forem bem nessas provas, a escola e os professores não recebem o bônus. Da mesma forma que ocorre no estado, isso pode acontecer no âmbito nacional com exames como a Prova Brasil, Ideb ou Enem, por exemplo.

Se olharmos para o exemplo americano, talvez, tenhamos uma ideia de como avaliações de larga escala podem não ser uma boa ideia. Com a lei, chamada de No Child Left behind (NCLB), promulgada em 2002, os estudantes precisavam ser testados, e os estados usariam estas notas para ver quais escolas estavam alcançando os objetivos. Aquelas que não alcançassem as metas seriam alvos de intervenções e até sanções. Os resultados foram tão ruins que, em 2015, o presidente Barack Obama voltou atrás, e o NCLB foi substituído por outra lei, o Every Student Succeeds Act (ESSA), que segue o princípio que toda a criança deve estudar, mas com moldes bem mais flexíveis, principalmente, no quesito de avaliações.

A grande questão então é: um aluno que se saiu bem numa prova é realmente aquele que aprendeu melhor? Penna citou a entrevista da ex-secretária adjunta de Educação dos Estados Unidos, Diane Ravitch, ao Estado de S.Paulo, “Nota mais alta não é educação melhor” para responder a questão. Diane que defendia o sistema de avaliações de larga escala voltou atrás ao ver os resultados da reforma.

Outra crítica que o professor faz diz respeito à criação de um mercado educacional. O BNCC poderia favorecer editoras, que fariam novos livros didáticos, e fundações privadas, que poderiam fazer consultorias.

Segundo o Plano Nacional de Educação (PNE), a BNCC deve ser entregue ao Conselho Nacional de Educação (CNE) até junho deste ano. E será o CNE que vai decidir o calendário de adoção da base, inclusive os prazos para as redes de ensino reformarem seus currículos de acordo com o documento, segundo a assessoria do MEC.

A ideia é que a BNCC estabeleça 60% do conteúdo programático, enquanto os outros 40% sejam definidos pelos estados e municípios. O receio, entretanto, é que estes 40% acabem sendo a totalidade do conteúdo por conta das avaliações de larga escala. Afinal, os alunos podem ser preparados apenas para serem testados. Desta forma, talvez a escola se assemelhe a uma linha de montagem, como na cena clássica de Charlie Chaplin apertando os parafusos em “Tempos Modernos”.

Caro leitor,
O que acha da Base Nacional Comum Curricular? E das avaliações de larga escala?

 

 

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4 Opiniões

  1. Ludwig Von Drake disse:

    O modelo brasileiro é do ensino voltado para passar na prova, onde o ENEM é a consagração do absurdo.
    A Escola e a Universidade devem ter autonomia para escolher o currículo e a forma de avaliação; um dia a Sociedade e o MEC vão entender o que significa isso e como se aplica, mas vai demorar.

  2. Joma Bastos disse:

    A tarefa mais importante da Educação Básica, que é fundamental e comum a todas as áreas de ensino, é acautelar o pleno conhecimento e controle da língua portuguesa escrita, pois este domínio é necessário para interpretar e produzir textos nas mais variadas ocasiões e níveis de comunicação.

  3. Markut disse:

    Em boa hora,parece estar se mexendo mais com este assunto crucial, para o desenvolvimento de um país.

    Por outro lado estão surgindo enfoques mais penetrantes sobre o papel e a missão da educação de massas. Reporto-me ao trabalho publicado na Folha de 17/01/2016 “Novas avaliações vão medir criatividade de alunos, diz educador”, em entrevista com Paulo Bliktein, brasileiro ,professor da Universidade Stanford, nos Estados Unidos.

  4. L. Batista disse:

    Educação brasileira colhe frutos amargos da Revolução Francesa-O ensino foi desenvolvido e aprimorado durante mais de mil anos pela Igreja Católica até estourarem, na França,os sanguinários acontecimentos de 1789.A influência do espírito igualitário e anticlerical da Revolução Francesa visava excluir a Igreja Católica da prática do ensino.A Igreja com isso foi perdendo gradualmente o encargo de ensinar nas escolas, passando a função ao Estado encharcado de idéias revolucionárias. “…a instrução pública foi dominada por militantes de esquerda (comunistas e socialistas), tanto pelo imenso poder que exerceram a partir de então nos poderosos sindicatos de professores, quanto por terem infiltrado seus elementos em toda a estrutura administrativa do Ministério da Educação. Rodrigo Amorim

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