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ERRO DE FOCO

‘Escola sem Partido’ desvia atenção dos reais problemas da educação no Brasil

Frente às altas taxas de evasão escolar e analfabetismo funcional, governo eleito leva adiante discussão sobre 'doutrinação ideológica' em escolas

‘Escola sem Partido’ desvia atenção dos reais problemas da educação no Brasil
Enquanto os olhos se voltam para a suposta ‘doutrinação', problemas urgentes são escanteados (Foto: EBC)

Por ora, uma das prioridades do governo recém-eleito para a área da educação, o projeto de lei “Escola sem Partido”, está parado na Câmara dos Deputados e só voltará a ser discutido em 2019.

Contrariando as perspectivas dos mais otimistas, que apostavam que Jair Bolsonaro, uma vez eleito, iria moderar seu discurso, as escolhas ministeriais do novo presidente atestam que ele pretende gastar fichas no Congresso para fazer aprovar a polêmica lei que, na prática, pode gerar vigilância e censura a professores da rede pública e privada no Brasil.

Organizações voltadas para a educação e professores que atuam nas salas de aula, no entanto, avaliam que, enquanto os olhos se voltam para a suposta “doutrinação ideológica” nas escolas, os problemas urgentes do setor – a alta taxa de evasão escolar, o persistente analfabetismo funcional e o desempenho estagnado dos estudantes em todas as disciplinas – são escanteados, o que resulta em graves consequências sociais e econômicas para o país e sua população.

E esses problemas históricos podem se complicar ainda mais em razão dos impactos do ajuste fiscal e da lei do teto de gastos, que impõe limitações aos investimentos do governo também para a educação.

Nesse cenário, a discussão sobre o “Escola sem Partido”, além de polarizar o debate em termos que remetem anacronicamente à Guerra Fria contra o comunismo, desvia a atenção dos desafios do setor e revela a falta de projetos e soluções por parte dos governantes.

O ministro de Bolsonaro e os gargalos da educação

Eu seu blog na internet, o colombiano Ricardo Velez Rodriguez, indicado pelo novo governo para assumir o ministério da Educação (MEC), escreveu um texto em que delineia as linhas gerais para a Pasta a partir do ano que vem.

Afinado com o chefe, o ex-professor universitário e futuro ministro diz ter, entre seus principais objetivos, livrar o ensino público do que ele chama de “educação de gênero”, da “dialética do nós contra eles”, e da “ideologia marxista” que, em seu entendimento, almeja “desmontar os valores tradicionais da nossa sociedade”, isto é, a “família”, a “religião” e o “patriotismo”.

Nenhum tópico aborda caminhos para se combater, por exemplo, o analfabetismo funcional – a incapacidade de compreender e interpretar um texto simples que, de acordo com o Ibope, atinge 38 milhões de brasileiros que têm entre 15 e 64 anos de idade. Ou para enfrentar o alto grau de evasão escolar, que fará, em 2018, com que um a cada quatro estudantes de 15 a 17 anos abandone os estudos. Ou então para incrementar o grau de aprendizagem dos alunos, problema urgente, posto que 7 a cada 10 formandos no ensino médio deixam a escola sem atingir níveis minimamente satisfatórios de conhecimento em matemática e português, conforme dados do próprio MEC.

Para o diretor do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos, que chegou a ser especulado para a Educação, mas foi vetado pela ala evangélica do governo, tais problemas deveriam ser o foco prioritário de atenção. “A escola não atende a realidade, não temos organização curricular que atenda ao jovem, nem professores com formação ideal ou um currículo com objetivo de aprendizagem”, avaliou, em entrevista à revista Istoé.

De acordo com Mozart, o atual modelo, “com alunos enfileirados e professor falando na frente”, é parte das razões do desinteresse dos estudantes, o que leva ao alto grau de reprovação nas escolas e à desistência dos estudos.

Para se ter uma ideia do que isso representa em termos de orçamento, só em 2016, cerca de 3 milhões de jovens foram reprovados, gerando gastos na ordem de R$ 16 bilhões com salários, material didático e manutenção. O cálculo se baseia em dados do Censo Escolar.

Já os níveis de analfabetismo funcional, que impactam na tão falada baixa produtividade do trabalhador brasileiro, se encontra estagnado desde 2008. Para Roberto Catelli Júnior, da ONG Ação Educativa, o dado não surpreende. “A tendência é coerente com a queda de investimentos que tivemos no país nos últimos anos na alfabetização de adultos”, explicou, em entrevista à revista Veja.

Frente à realidade das salas de aulas, professores que atuam na rede pública consideram delirante a ideia de que haja “doutrinação de gênero” ou “doutrinação comunista” dos estudantes.

“Pode acontecer um ou outro caso isolado, mas certamente não é nada generalizado”, diz Flávio Nagib, professor de História em Divinópolis, interior de Minas Gerais. Ele afirma que é dever do professor apresentar visões distintas sobre os fatos históricos, deixando que o aluno forme suas próprias opiniões.

“O real problema é a dificuldade de se passar o conteúdo para os estudantes, muitos deles mais interessados nos celulares do que no que diz o professor”, lamenta Nagib.

Helena Soares, professora de português em Ribeirão Preto, São Paulo, concorda que engajar os alunos nos estudos é o desafio número um dos docentes. Entre os entraves, está a estrutura precária das escolas, onde “faltam carteiras, a merenda é de baixa qualidade, os recursos didáticos são antigos e muitas vezes temos 40 alunos ou mais em cada sala”, conta.

“Com essa configuração, a escola não altera a realidade social do aluno: ele sai sem aprender, despreparado para exercer funções que o fariam ascender no mercado, e o aluno das escolas particulares estará automaticamente a sua frente”, completa a professora.

Caminhos possíveis

Distante de alcançar as metas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) para o ensino fundamental e médio e ocupando as últimas colocações do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) – no qual, entre 72 países, ficamos em 63ª lugar em ciências, 59ª em leitura e na 66ª colocação em matemática – o Brasil tem muito trabalho pela frente. Mas exemplos não faltam para inspirar nossos representantes políticos.

“Entre os países que se destacaram no Pisa, vemos um contexto de valorização do professor muito forte, tanto no ponto de vista da carreira, da formação inicial e continuada, como nos critérios de seleção”, disse à revista Carta Capital a educadora Patrícia Mota Guedes, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento da Fundação Itaú Social.

Quanto ao engajamento dos estudantes no processo de ensino, uma solução que vem dando certo na rede particular é a educação em tempo integral, com atividades extra-classe que despertem as habilidades individuais dos jovens.

Tais saídas, no entanto, demandam dinheiro, o que deve ser dificultado pelas políticas de corte de gastos que, desde 2015, vêm dando o tom da administração pública. Não por menos, em 14 estados brasileiros, aponta a ONG Contas Abertas, os professores recebem salários abaixo do piso da categoria.

Ainda assim, estados com o Maranhão têm ousado priorizar a educação, elevando o piso salarial dos professores, para 40 horas semanais, a R$ 5.750 mil. Com a medida, os gestores pretendem reverter o quadro de deterioração do ensino no estado, afirma Felipe Camarão, secretário da Pasta.
E de fato, nas escolas onde o investimento é maciço, a situação destoa do quadro geral. De acordo com o movimento Todos Pela Educação, as escolas federais – que, em média, contam com três vezes mais dinheiro que as escolas estaduais e municipais – obtiveram desempenho superior ao das escolas privadas nas provas nacionais de avaliação do ensino.

Nelas, 81% dos alunos concluem o ensino médio com conhecimentos adequados em português, contra 68% dos alunos da rede privada, e 22% dos oriundos das escolas estaduais. Lamentavelmente, só uma pequena casta, 2% dos estudantes do ensino médio, encontram vagas nas escolas federais.

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4 Opiniões

  1. Almanakut Brasil disse:

    Toda escola deveria ter no mínimo um policial dentro, mesmo quando não tem aula!

  2. jan foster disse:

    A principal função do Movimento Escola Sem partido foi trazer o tema da hegemonia ideológica para o debate publico. É sim um dos pilares de todos demais problemas da educação no pais. A ideologia destrói a qualidade de ensino, acaba com a meritocracia, com o respeito entre aluno/professor, e diversos outros males.
    Resta agora os educadores sérios fazerem uma imensa autocritica e rever suas crenças. Penas que poucos são sérios.

  3. Markut disse:

    Absolutamente de acordo com manchete deste comentário.Estão jogando um cortina de fumaça
    sobre a essência do problema.

  4. ACM disse:

    A doutrinacao ideologica nas escolas e’ ponto fundamental para um partido se perpetuar no poder. De fato, “uma pessoa com uma ideologia tem a força de mil outras sem ideias claras.”
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    Hitler criou a Juventude Hitlerista para disseminar sua doutrina expressa no Mein Kampf, criando com isso fanaticos intransigentes, dispostos a dar sua vida pelo Fuhrer.
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    Qdo da criacao da URSS, o “ensino burgues” foi substituido pelo Marxismo-Leninismo, e a Historia foi re-escrita na Enciclopedia Sovietica, onde os fatos foram modificados ou deletados, e re-interpetados `a luz do Marxismo.
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    De fato, implantar uma nova ideologia sempre comeca com duas providencias: doutrinacao dos mais jovens, ainda nao “formatados”, e eliminacao dos que nao aceitam a nova ideologia (como nos expurgos de Stalin, Mao e Fidel – com milhoes de pessoas envolvidas).
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    Nos paises que seguem o Islamismo, as madrassas, que ensinam o Alcorao, sao as unicas escolas permitidas. As demais religioes sao proibidas por contrariar o Alcorao. A Jihad (guerra santa), visa destruir os infieis.
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    O Catolicismo criou inumeras escolas dentro do principio de Sao Francisco de Sales, “Da mihi animas, coetera tolle” (dai-me as almas e ficai com o resto), como forma de expandir seus dominios. As Cruzadas e a Inquisicao eliminaram os dissidentes (hereges).
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    O dominio das mentes e’ a forma mais eficiente de expandir os dominios.
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    Eliminar a doutrinacao ideologica, tanto nas escolas como na midia, e’ a maneira correta de dar `as pessoas a liberdade de escolher democraticamente as ideias q mais lhes agradam.

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