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Esses ‘jornais de oposição…’

Toda semana, a gente dá de cara com tentativas de demonizar jornalistas para inocentar governantes, num furibundo fanatismo anti-imprensa

Esses ‘jornais de oposição…’
Entusiastas do governo dizem que jornais cumprem o papel que deveria ser dos partidos de oposição (Fonte: Reprodução/blogeducacao.org)

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A “Folha de S.Paulo” é “a vanguarda entre os veículos da imprensa empenhados em isolar o governo da opinião pública”. Num país em que a oposição não tem peito nem engenho para fazer oposição, as redações jornalísticas se encarregam de jogar as autoridades no descrédito. É assim, ao menos, que pensam os entusiastas do governo federal. Para eles, os jornais cumprem o papel que deveria ser dos partidos de oposição. Inconformados, os representantes do Palácio do Planalto contra-atacam, como fez o líder do par­tido do governo na Câmara dos Deputados, diante de mais uma reportagem crítica lida em plenário por algum adver­sário mal-agradecido. “Sinceramente, não encontramos aqui um pensamento inédito”, disse o parlamentar governista. Segundo ele, a imprensa apenas requenta fatos velhos para agredir quem trabalha sem descanso para melhorar a vida dos brasileiros. Os governantes, segundo essa visão, não pas­sam de vítimas da maledicência, pade­cem sob o bombardeio de uma campa­nha articulada para desacreditá-los. O líder do partido do governo, no mesmo pronunciamento em que reclamou das notícias requentadas, foi severo e cate­górico em seu diagnóstico: os órgãos de imprensa “são o grande veículo dessa campanha articulada”.

Antes de qualquer interpretação apressada, vamos escla­recer. As declarações transcritas no parágrafo acima não re­produzem falas de integrantes do governo Dilma Rousseff. São anteriores. Também não trazem recortes dos inflamados discursos de entusiastas do primeiro ou do segundo gover­nos de Luiz Inácio Lula da Silva. Nem de beneficiários das duas gestões de Fernando Henrique Cardoso, ou do breve mandato de Itamar Franco, ou de Collor, ou mesmo de José Sarney. Elas vêm de um período ainda mais antigo, vêm dos tempos da ditadura militar.

Quem disse que a “Folha” é “a vanguarda entre os veículos da imprensa empenhados em isolar o governo da opinião pública” foi João Baptista Figueiredo, o mesmo que chegou a ocupar a Presidência da República entre 1979 e 1985. Ele disse ou, mais exatamente, ele escreveu isso um pouco an­tes de ser empossado ditador, num relatório que entregou, em 1977, ao então ministro da Justiça, Armando Falcão. Naquela temporada, Figueiredo era o chefe do temido SNI, o Serviço Nacional de Informações, e enxergava no diário paulistano um criadouro de oposicionistas ou, nas palavras dele, “o esquema de infiltração mais bem montado da chamada grande imprensa”. Se as coisas não iam bem, a culpa deveria ser das redações. O episódio pode ser lido com mais detalhes no livro Folha (páginas 67 e 68), escrito pela jornalista Ana Esteia de Sousa Pinto, que chegou em dezembro às livrarias com o selo da Publifolha.

Quanto ao governista que reclamou das “campanhas articuladas” contra o governo, de nome Cantídio Sampaio, ele foi líder da Arena, a Aliança Renovadora Nacional, o partido que apoiava a ditadura militar. O arenista enunciou seu juízo sobre a imprensa também em 1977, ao protestar, na Câmara dos Deputados, contra a extensa cobertura que os jornais tinham dedicado ao lançamento da Carta aos Brasileiros, do professor e jurista Goffredo Telles Júnior, no dia 8 de agosto, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Em sua Carta, hoje célebre, Goffredo conclamou os compatriotas a exigir com ele o fim do regime de exceção, numa guinada decisiva para a conquista da democracia no Brasil. O deputado governista, acuado, sem outros argumentos, pôs a culpa no noticiário, como relata Cássio Schubsky em “Estado de direito já! – Os trinta anos da Carta aos Brasileiros” (a partir da página 219), lançado em 2007 pela editora Lettera.doc.

Tudo isso é passado, claro. A ditadura acabou e, com ela, caiu em desuso a doutrina de segurança nacional que consistia em pôr toda a responsabilidade pelos males nacionais nos “inimigos infiltrados” dentro dos meios de comunicação. Espantosamente, porém, tudo isso ainda é presente. A velha doutrina se retirou, é fato, mas as teorias de que ela se serviu, como a da “notícia requentada”, ou a da “campanha articulada” para “isolar o governo da opinião pública”, continuam na ativa. Toda semana, a gente dá de cara com tentativas de demonizar jornalistas para inocentar governantes, num furibundo fanatismo anti-imprensa. Presentemente, essas tentativas gostam de se declarar “de esquerda”, mas são apenas obscurantistas, como eram nos tempos da ditadura. São apenas autoritárias, intolerantes e mal-intencionadas. Nesse ponto, só o que mudou no Brasil foi a cor da gravata.

Fontes:
Instituto Millenium - Esses “jornais de oposição…”

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3 Opiniões

  1. Loureiro disse:

    Ainda bem que muitas pessoas não formam suas opiniões somente com pitacos midiáticos. O que se vê, de fato, é que grande parte da imprensa, convenientemente, joga a poeira dos partidos de “direita” para debaixo do tapete, senta no sofá ,toma um chá e assiste a novela das nove.Uma pequena parte, defende, a todo o custo o governo petista que teve seus méritos, mas teve muitos problemas. Os órgãos de imprensa são incapazes de “bater” e “assoprar” nos momentos merecedores. O colorido partidário das notícias e opiniões é muito forte. E vocês falando de liberdade de imprensa e ditadura… No mínimo cômico. Liberdade de imprensa? O que os jornalistas têm de liberdade é escrever o que seus editores aprovam a mando dos donos do órgão midiático para o qual laboram. Jornais são empresas, e as opiniões que vinculam são as dos seus donos. Simples assim.

  2. helo disse:

    Interessante o artigo mostrar os discursos idênticos e autoritários da ditadura e do governo atual contra a mídia. Mídia do estado é propaganda, mídia com donos, para sobreviver, nunca faz o papel da oposição. Franklin Martins, chefe de redação na Globo, mantinha seus cargos na empresa e no governo petista, e poucos notaram.
    Enfim, nem tudo é o que parece e o melhor nunca é perfeito.

  3. Markut disse:

    De fato, só mudou a cor da gravata. Tradicionalmente, é preciso achar “o outro” ,o culpado.
    A esta altura, não temos uma oposição atuante; muito ao contrário, politicamente, nada há que se distinga situação de oposição.
    Por outro lado, a fúria com que o poder constituido se atira contra a mídia, buscando a cada tanto amordaçá-la, sinaliza o fato de que é a mídia quem ainda nos permite a nós, sociedade, tomar conhecimento dos desmandos e, mais do que isto, nos permite avaliar , ao tomar cohecimento da parte visivel do iceberg,o tamanho dele.
    Jornais são empresas , de fato, mas falta a quem se sente injustiçado pela mídia, vir a público , com clareza, e desmentí-la.
    Foi preciso uma inesperada e bemvinda guinada da atitude do STF para confirmar, sem desmentidos, de que tudo aquilo que se apregoava de malfeitos cometidos era a pura verdade.
    Restou à companherada organizar almoços fraternos para arrecadar fundos, a fim de ajudar os condenados a cumprir parte dos seus débitos com a justiça
    Mas, o débito para com o eleitor, esse dificilmente será cancelado.

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