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BRASIL E ARGENTINA

A estranha dança de Temer e Macri

Presidentes das maiores economias da América do Sul buscam ampliar a parceria, mas a boa vontade não é capaz de superar décadas de desconfiança mútua

A estranha dança de Temer e Macri
Ao longo da história, países foram mais rivais do que parceiros (Foto: Beto Barata/PR)

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Enquanto países ricos abraçam o nacionalismo, as duas maiores economias emergentes da América do Sul buscam a parceria. No dia 7 deste mês, o presidente da Argentina, Mauricio Macri, terá um encontro com o presidente brasileiro, Michel Temer. Os dois líderes pretendem esquentar as relações, que andam mais frias do que deveriam. Há motivos para otimismo, mas também para ceticismo.

Brasil e Argentina foram mais rivais do que parceiros durante quase todo o século XX. Na década de 1970, eles quase embarcaram em uma corrida armamentista nuclear; até a metade da década de 1980, a literatura estrategista militar ainda ensinava que a mais provável guerra do Brasil seria com o país vizinho.

A população do Brasil de mais de 200 milhões supera em muito a de 43 milhões da Argentina, embora os argentinos sejam mais ricos. Isso torna difícil para ambos os países reproduzir a parceria franco-germânica que uniu a Europa. Quando Brasil e Argentina concordam, costuma ser mais por ideologia nacionalista do que por abertura política. Foi o que aconteceu na década de 1950, durante os governos de Getúlio Vargas, no Brasil, e Juan Domingo Perón, na Argentina; e no início da década passada, quando os dois países embarcaram em vertentes diferentes de governos esquerdistas.

No encontro da próxima semana, é improvável que as décadas de estranhamento sejam deixadas para trás. Mas Temer e Macri têm motivos de sobra para ensaiar uma parceria que traga abertura de mercado. O PIB de ambos os países encolheu no último ano, caindo 3,3%, no Brasil, e 1,8%, na Argentina. A recessão no Brasil, destino de um sexto das exportações argentinas, complica mais ainda a situação de seu vizinho. Estima-se que uma queda de 1% no PIB brasileiro faz a economia argentina encolher 0,7% em dois anos.

Esse consenso em relação ao pragmatismo pró-mercado é “sem precedentes”, segundo Paulo Estivallet de Mesquita, encarregado do Itamaraty para assuntos da América Latina. A opinião é compartilhada pelo ministro do Interior argentino, Francisco Cabrera. “Finalmente estamos com a mesma linha de raciocínio”, diz Cabrera.

Macri e Temer desejam ampliar a cooperação bilateral em temas que vão de energia nuclear ao combate ao crime organizado. Eles também planejam reanimar o Mercosul. Essa tarefa, no entanto, será difícil, já que a recessão na Argentina aumenta o temor dos produtores locais em relação à competição com produtos brasileiros.

Mesmo com as melhores intenções, Temer e Macri não conseguirão superar o estranhamento causado pelas suas diferenças de tamanho e economia. A Argentina sempre enxergará o Brasil com desconfiança. Por sua vez, o Brasil nunca tratará a Argentina como igual. Não importa o quão graciosa seja a dança entre Temer e Macri, os dois líderes provavelmente pisarão um no pé do outro.

Fontes:
The Economist-What to expect when the presidents of Brazil and Argentina meet

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2 Opiniões

  1. Beraldo disse:

    No terceiro parágrafo, faltou mencionar os períodos de Ditaduras militares, nos dois países.

    Esquecimento ou omissão?

    Ou o colunista considera o fato irrelevante?

    A propósito: Macri foi eleito pelo povo e Temer foi “eleito” por golpistas.

    Mais uma coincidência ideológica: Ambos são da pior espécie da direita, que considera importante se ajoelhar aos pés do EEUU.

  2. Áureo Ramos de Souza disse:

    Pensei que eram só rivais no futebol mas na política é coisa feia.

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