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Política econômica

Ex-presidente do BC explica as três fases da era petista

Economista Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central, divide a política econômica dos últimos 15 anos nas seguintes fases: petismo passivo, extrovertido e arrependido

Ex-presidente do BC explica as três fases da era petista
O ex-presidente do BC Gustavo Franco (Foto: Divulgação)

Em uma palestra realizada nesta quinta-feira, 18 de junho, o economista Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central, fez uma retrospectiva da política econômica dos últimos 15 anos, tendo dividido os períodos nos seguintes momentos:

  1. O petismo passivo e envergonhado, com o primeiro mandato em 2003;
  2. O petismo extrovertido, a partir da crise mundial de 2008/09; e
  3. O petismo arrependido, a partir do segundo mandato do atual governo.

No primeiro período, do petismo passivo iniciado em 2003, o presidente herdou as profundas reformas realizadas nos governos anteriores ao assumir o país, que propiciaram a base para a melhoria, além de contar com o cenário externo e os termos de troca exportação-importação muito favoráveis e, especialmente com o boom das commodities e a expansão chinesa.

Além disso, em termos demográficos, registrou-se o efeito da redução da taxa de fertilidade da população, com o aumento na proporção de pessoas em condições de emprego nas famílias, de modo a promover a ascensão da classe D para uma nova classe C. Como política econômica, foram mantidos os princípios da Carta aos Brasileiros, preparada ainda na campanha eleitoral de 2002, em que se garantia o respeito aos contratos existentes, de modo a acalmar o mercado, tendo como resultado, entre outros, que fosse mantido o superávit primário de 3% do PIB.

Com os ventos externos favoráveis, as reservas internacionais do Brasil passaram de US$ 30 bilhões para US$ 300 bilhões, mas o custo dessas reservas ficou espelhado no aumento da dívida pública, com encargos financeiros muito elevados.

Petismo extrovertido

A segunda fase, do petismo extrovertido, começou com a afirmação de que a tsunami da crise internacional chegaria ao Brasil como uma “marolinha”, e o governo se extrapolou em movimentos de expansão anticíclicos. Segundo a filosofia predominante, o crescimento deveria vir dos Brics com o capitalismo de Estado através de um modelo do tipo chinês. Segundo a classificação do economista Luigi Zingale, PhD pelo MIT e professor da University of Chicago Booth School of Business, nesta fase estabeleceu-se um “capitalismo clone”, de comparsas, aparelhamento e máfias. Ao contrário do capitalismo pró-mercado, do tipo concorrencial americano, instalou-se o capitalismo pró-business, uma aliança incestuosa da relação público-privada, fato bastante comum também em outros países.

A presença do Estado na economia tem forte correlação com o aumento da corrupção pelo poder autoritário e discricionário. Como dizia Roberto Campos, nesse sistema as empresas privadas são controladas pelo governo, e as estatais por ninguém. Tudo isto resultou na espantosa primeira corrupção auditada, verificada na Petrobras, dentro do caos fiscal e das pedaladas hoje objeto de análise pelo TCU.

Marcha à ré

Na terceira fase, a do petismo arrependido, observa-se que era impossível imaginar na campanha eleitoral que a presidente pudesse escolher como ministro Joaquim Levy, claramente identificado com uma virada de 180 graus na política econômica. Levy estaria ainda sozinho no Planalto ideologicamente, com uma equipe lateral chefiada pela continuidade do Ministro Nelson Barbosa, do grupo anterior, causador das pedaladas e explosão do déficit.

A atual meta fiscal de superávit primário de 1,2% do PIB é até pouco agressiva, considerando que é menos da metade do realizado de 3% do PIB. A quebra da Lei de Responsabilidade Fiscal é suficientemente grave para condenar a atuação econômica do mandato anterior. A dívida interna brasileira, atualmente de R$ 3 trilhões, tem uma proporção alta quando comparada ao PIB, sendo um terço emitido pelo Banco Central com taxas mais elevadas do que a dívida diretamente do Tesouro, haja vista os leilões frustrados que empurraram para este patamar.

Uma das contribuições do economista francês Thomas Piketty foi a comparação da renda com o patrimônio nos países ricos, cuja proporção é cinco vezes maior do que nos países emergentes estudados; assim, a dívida pública brasileira é só aparentemente pequena em relação ao PIB, ao compará-la, por exemplo, com a dívida pública americana, o que nos deixa mal na foto.

Como ex-presidente do Banco Central, Franco entende que a taxa de juros tem uma função, na verdade, resultante do ambiente fiscal e, portanto, não pode ser julgada de forma independente. A elevada inflação atual de 8,5% é muito preocupante considerando que a meta governamental é de 4,5%, quando num país desenvolvido é de 2%. Esta inflação tem um componente forte do efeito do descongelamento de preços administrados, como os choques de aumento da energia elétrica de 60% e outros, mas que ocorreram de uma só vez, daí poder se prever uma redução da inflação para 5,5% em 2016.

A solução seria espalhar por Brasília a frase de seu fundador, Juscelino Kubitschek, que teria dito “não me cobrem coerência, pois não tenho compromisso com o erro.” Finalizando, afirmou que não há mágica para sair da crise, é preciso que o remédio amargo faça seu efeito no tempo próprio.

4 Opiniões

  1. Marluizo Pires Cruz disse:

    O Brasil é um país fantástico há 515 anos tudo parece estar errado para os que tiveram a oportunidade de fazer o certo e não fizeram, mas ainda resta em oportunidade de criticar o que não foi capaz de resolver. Então por culpa desses maus gestores estamos a 515 anos oportunizando criticas as faltas de soluções das instabilidades cíclicas econômicas e o subdesenvolvimento social do Brasil. Parecendo que a boa gestão pública só sensibiliza na sua concretização quem não tem o poder de realização.

  2. Pedro Tavares Nicodemos Filho disse:

    Faltou comentar que por onde DILMA ROUSSEF passou houve má administração, incompetência e corrupção sistêmica, entre o governo, a base de governo e as empreiteiras. E faltou dizer que os escândalos foram na ELETROBRAS, MENSALÃO, PETROLÃO e BNDES(Que ainda não chegou a público porque o governo considerou sigilosos certos empréstimos em relação à obras no exterior, e ao GRUPO JBS, do filho do Lula. Só este último atinge a cifra de R$30.000.000.000,00(TRINTA BILHÕES DE REAIS)!). E faltou dizer que foi o Lula em pessoa que defendeu a candidatura de DILMA ROUSSEF e continua defendendo a continuidade de seu mandato, apesar de 93% da população considerar RUIM ou PÉSSIMO o GOVERNO DILMA ROUSSEF. O PT só governa porque COMPROU a base alianda, principalmente o PMDB, e sem ele o IMPEACHMENT já teria ocorrido, mas com 39 ministérios, custando R$428.000.000.000,00(QUATROCENTOS E VINTE E OITO BILHÕES DE REAIS) AO ANO, em detrimento de aumentos na conta de luz, nos combustíveis, nos impostos, de 178.000(CENTO E SETENTA E OITO MIL) estudantes não poderem usar do FIES e do PROUNI em função de um CORTE DE R$9.000.000,00(NOVE BILHÕES DE REAIS) NO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, e de CORTE NO MINISTÉRIO DA SAÚDE, isso sem deixar de mencionar que no GOVERNO PT há 115.000(CENTO E QUINZE MIL) CARGOS DE CONFIANÇA!

  3. Vitafer disse:

    Mas a frase do Juscelino, se é que a disse, justifica tudo.

  4. helo disse:

    Ótimo artigo. Resume bem o que nos aconteceu desde 2003. Houve muito compromisso com o erro.

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