Início » Brasil » Expressar o indizível
Atualidade

Expressar o indizível

Vou começar logo dizendo que não sou Charlie

Expressar o indizível
'Embora estarrecida com o assassinato de homens que nada mais fizeram do que se expressar, não creio que tenham se transformado subitamente em heróis' (Foto: Reprodução/Internet)

Estamos sendo atropelados por notícias catastróficas vindas de dentro e de fora das nossas fronteiras.

Aqui, são, por um lado, os intermináveis mensalões e petrolões e eikebatistões, para os quais não há sinal de soluções (a rima foi involuntária, mais vem bem). Por outro, a droga, a polícia ineficaz ou corrompida, as balas perdidas. Coroando tudo, a seca, o racionamento de água e energia, a inflação, o déficit fiscal e comercial, o fracasso dos sistemas educacional e de saúde, enfim, parece que nosso país padece de todos os males possíveis, alguns devidos a fenômenos naturais, mas a maioria fruto da incompetência e corrupção generalizadas que assolam o país.

Os acontecimentos hediondos de Paris e as guerras travadas pelo Estado Islâmico (que, segundo alguns, não merece essa denominação) e pelo Boko Haram são mais um capítulo nessa novela sinistra e interminável escrita por bandos de loucos perigosos.

Paradoxalmente, à minha total e absoluta revolta contra os atos cometidos por esses bárbaros muito piores que Godos e Visigodos, mistura-se certa perplexidade com o desequilíbrio das reações da opinião pública. É com algum receio que vou tentar expressar o indizível, e vou começar logo dizendo que não sou Charlie. De jeito nenhum! Embora estarrecida com o atentado e penalizada com o assassinato de homens que nada mais fizeram do que expressar, de forma crua e cafajeste, sua opinião sobre temas polêmicos, não creio que tenham, pela força não das baionetas, mas dos Kalashnikovs, se transformado subitamente em heróis, mártires e santos. Merecem respeito, tristeza, lembrança dos familiares e amigos, mas, a meu ver, não o endeusamento coletivo e as passeatas de que fomos testemunhas. Acho que virou lugar comum dizer que igual tratamento mereceriam, e a mais forte razão, as meninas indefesas sequestradas e outras vítimas do Boko Haram, os estudantes trucidados no México, as vítimas do ebola, os mortos por bala perdida, os reféns da droga, as crianças assassinadas em Sandy Hook e todas as outras vítimas de franco-atiradores alucinados nos Estados Unidos, e, o que me leva a escrever este comentário, as mulheres e homens honestos sequestrados e atrozmente executados pelo ISIS.

Isto posto, poderão acreditar ou não que não sou de extrema direita; que não sou a favor de extremismos; que sou pela total liberdade de expressão, nos limites do respeito ao próximo; que, completamente ateia, apoio a liberdade religiosa, igualmente limitada pelo respeito às crenças alheias; e que sonho com um mundo em que cada qual possa escolher livremente seu destino e possa se expressar sem temer retaliações.

Sim, mas sabemos todos que esse mundo não existe e nunca existirá. O nosso cotidiano está infiltrado pela sordidez. O homem sabe ser mercenário, intolerante, arrogante, corrupto, prepotente, violento, fanático – não faltarão qualificativos. São uma minoria, é claro, pois ao seu lado existem montes de pessoas honestas, trabalhadoras, criativas, inteligentes, compassivas, justas. Só que essa minoria , por sua impiedosa virulência, é capaz de causar danos inimagináveis, mas aos quais vimos assistindo todos os dias.

Aux grands maux, dizem os franceses, les grands remèdes. Contra os grandes males, os grandes remédios. E aqui entra o indizível, o que o medo da opinião alheia quiçá não nos permita expressar.

A reação a esses atos de barbárie tem, infelizmente, na minha opinião, que ser igualmente violenta. Querer, como declarou nossa presidente, usar de diplomacia para enfrentar o ISIS, é uma brincadeira de mau gosto. Precisam ser varridos do planeta a tiros de metralhadora e bombardeios, sem tergiversar. Defender e pedir clemência para um traficante de drogas é abjeto. Manter presos, em condições subhumanas, todo tipo de criminosos, é cruel, improdutivo e causa danos à sociedade. Fazer o povo pagar pela imprevidência e desonestidade dos governantes é cínico e medieval.

Resumindo: sou, sim, em circunstâncias muito precisas, para certos crimes, favorável à pena de morte. Sou favorável à cobrança de responsabilidades e ao impeachment, caso necessário. Sou favorável a penas firmes de prisão para os espoliadores. A penas duras para os criminosos, indo até a pena de morte para assassinos, terroristas e traficantes. E que digam, se quiserem, que sou politicamente incorreta, elitista e reacionária. Pode ser. Mas Charlie, não, não sou.

 *Economista e diplomata

7 Opiniões

  1. Hugo Leonardo Filho disse:

    Por coincidência, estou lendo um texto de Jiddu Krishnamurti que diz que os problemas do mundo existem porque nós os reconhecemos e classificamos como problemas; e nos apegamos a eles. O segredo é deixar passar. É o que estou tentando fazer. Tomara que de certo.

  2. arnaldo disse:

    Não, Charlie vc não é realmente. Está mais pra jihadista, a levar em conta o que vc escreveu.

  3. Áureo Ramos de Souza disse:

    Sei que a escritora quis dizer algo sob Charlie e fez seu belo arrodeio. Não que que falem do meu DEUS O SER CRIADOR DESTE MARAVILHOSO MUNDO, mais também sou contra ceifar 12 pessoas que tem familia mais que poderiam pensar mais antes de postar. Ambos erraram e nós é que temos de consertar e pensar duas vezes antes de agir.

  4. olbe disse:

    Tudo o que você escreveu procede, mas você não entendeu que a revolta , que você acha desproporcional ,é porque eram jornalistas e neles ninguém deve tocar, só isto…

  5. Joma Bastos disse:

    Não falamos da inferior qualidade dos hospitais e da insuficiente inovação pedagógica e estrutural das escolas espalhadas por este país, da fraca qualidade da infraestrutura rodoviária, ferroviária e portuária.
    Porque não falamos da violência homicida que incrassa este país?
    Não falamos da falta e da má qualidade da água a nível nacional e da insuficiência de infraestruturas para o saneamento básico. Não falamos da recuperação das florestas já arrasadas.
    A corrupção está à vista de todos, mas em vez de procurarem fazer desaparecê-la, políticos de todos os quadrantes estão a tentar proteger aqueles que estão a ser julgados como tal, talvez porque muitos têm a defender laivos corruptivos individuais e partidários.
    Queremos um Brasil desenvolvido e sustentável? Então vamos ser todos “Charlie”, e sermos ótimos avaliadores e fortes críticos dos nossos pensamentos e ações, para depois podermos analisar e criticar os pensamentos e ações de todos aqueles que nos rodeiam, principalmente daqueles que têm o destino da Nação em suas mãos.

  6. Roberto1776 disse:

    Realmente, ser ou não ser Charlie não faz muita diferença. O que não podemos é ficar indiferentes a destruição do nosso Brasil por uma cambada de petistas que se apropriam descaradamente dos ativos da nação, que, infelizmente estão nas mãos do governo devido, em parte, a essa baboseira getúlio-varguista que foi a criação desta monstruosidade, desta excrescência conhecida como Petrobrás.
    Por muitíssimo menos Jango, que era apenas um ingênuo esquerdista apaixonado por comunistas fracassados, levou um pontapé no traseiro.
    Collor era um mero aprendiz de feiticeiro, mas lula e dilma superaram tudo de ruim que esse país já conheceu desde 1889.
    Que aqueles que devem zelar pelo país, as FFAA, ainda não tenham feito nada é de se admirar. Parece que eles também já foram cooptados, como aparenta ser o caso do Congresso Nacional, tão eficiente quando enfrentou as maluquices de Fernando Collor.

  7. André Luiz D. Queiroz disse:

    Valente a autora do artigo (sim, o jogo de palavras é proposital)!
    Não concordo com todas as opiniões expressadas, mas todas estão muito bem expostas!
    Precisamos de mais artigos assim! De mais “gente” assim!
    Abraços!

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *