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ESPECIAL DE CULTURA

Falta espaço na Biblioteca Nacional

Como o prédio sede já está com lotação esgotada, a reforma e ampliação de outro prédio, na Zona Portuária do Rio, é a única solução

Falta espaço na Biblioteca Nacional
No Dia do Bibliotecário, o O&N faz um especial de cultura sobre a Biblioteca Nacional (Divulgação/Fundação Biblioteca Nacional)

Guardar livros pode parecer uma tarefa fácil, mas quando o espaço físico acaba, a situação pode ficar complicada. Este é o caso da Biblioteca Nacional. Localizada no Centro do Rio de Janeiro, a estimativa é que seu acervo tenha mais de nove milhões de peças. No entanto, quase cem mil obras novas chegam por ano. A solução é reformar e ampliar o prédio que funcionava como Anexo da Biblioteca Nacional, no Porto Maravilha.

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Diretora do Centro de Processamento e Preservação da Biblioteca Nacional, Liana Gomes Amadeo (Foto: Mariana Mauro)

Como a biblioteca é nacional, não há julgamento de obras por mérito. O objetivo é preservar a memória. “Existe uma legislação desde 1904, que só vem sendo atualizada, que garante que tudo que se produz e se edita no país, venha para cá”, diz a diretora do Centro de Processamento e Preservação da Biblioteca Nacional, Liana Gomes Amadeo. A legislação a que a diretora se refere é a Lei do Depósito Legal. “As pessoas costumam achar que biblioteca só guarda livro, não a Nacional. Uma biblioteca escolar, universitária, pública, talvez. Mas aqui não.” O acervo conta com outros tipos de obras como mapas, revistas e jornais do país inteiro. “Talvez o universo de jornais e periódicos seja muito mais volumoso do que o de livros.” Afinal, o jornal tem uma nova edição todos os dias, e isso gera uma nova peça, que vai para o acervo.

O prédio sede da Biblioteca Nacional foi construído com esse objetivo. “Ele tem um aspecto de fortaleza militar se você olhar por fora. Ele tem uma estrutura forte e feita para isso, só que de lá até agora teve uma hora que esgotou [o espaço físico], até porque o Brasil teve um boom no mercado editorial.” Como o prédio é tombado pelo patrimônio histórico, há uma dificuldade na conservação das obras. “Os arquitetos do Iphan querem conservar o prédio e eu, os livros. Isso, às vezes, entra em choque.” A solução encontrada foi a reforma e ampliação do Anexo da Biblioteca Nacional, no Porto Maravilha.  “Essa solução é como é feita em todos os outros grandes países. Os Estados Unidos resolveram isso, dividindo as bibliotecas por tema. Já a Inglaterra e a França resolveram isso da forma como nós vamos resolver.” A ideia é que os acervos históricos fiquem no prédio tombado e que as obras correntes (mais atuais) sejam levadas para o novo prédio.

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Projeto vencedor do novo prédio da Biblioteca Nacional (Divulgação/Arquiteto Hector Vigliecca Associados)

O novo prédio vai ter quatro andares de armazéns padrões, que são basicamente caixas lacradas com ar-condicionado, controle de umidade e temperatura, segurança contra incêndio e iluminação ideal. O prédio sede tem seis andares de armazéns, mas o novo terá arquivo deslizante e mezanino, o que dobra a capacidade de armazenamento.  O projeto, feito no ano passado, foi selecionado no Concurso Nacional de Projeto de Arquitetura.  Ele também vai contar com uma área pública com espaços como auditório e sala de exposição. Segundo a diretora, a estimativa dos responsáveis pelo projeto é que em dois anos eles entreguem a parte dos armazéns, e que o prédio todo fique pronto em quatro. Já há recursos para os armazéns, mas para a outra parte, não. “Isso depende de dinheiro, eu acho que vai ser fácil financiar, porque é um local de muita visibilidade. O importante é que a parte interna já tem dinheiro, já tem recurso garantido.” Como o prédio sede já esgotou, as peças novas que chegam estão sendo guardadas em caixas.  “Por isso que é importante que essa obra fique pronta em dois anos. Esse problema já acontece há alguns anos, mas ele vem se agravando. Aquele novo prédio é a única solução, não existe outra.”

A Biblioteca Nacional já tem um programa de digitalização de acervo. A Biblioteca Nacional Digital conta com um datacenter que faz armazenagem, que equivale aos armazéns de obras. Ele guarda, faz migração de mídia, faz backup de segurança, e permite o acesso do público pela internet. “Digitalizar aqui não significa se desfazer do original. Aqui o digital é paralelo ao físico. É uma outra biblioteca em outro suporte. Esses são suportes, que eu acho, que vão conviver para sempre.”

O desafio da preservação e da conservação

Quando o prédio sede foi construído não existia ar-condicionado. A cidade tinha prédios baixos, o mar ficava perto da Biblioteca Nacional, então, o vento entrava pela janela e saía por cima por vãos no teto. Como o vento circulava, não havia problema de umidade. Contudo, com o crescimento da cidade, o mar ficou longe, já que a biblioteca ficou cercada por prédios altos. Como a circulação de vento se interrompeu, foi preciso fechar as janelas. A umidade é o que mais influencia a degradação do papel, além dos grandes choques térmicos. “Dentro de um prédio histórico, a conservação é feita tentando se manter o máximo possível de cuidados. É claro que se você tiver um problema de ar-condicionado, você vai ter um problema aqui, mas não é de imediato. Se você abrir a janela, o fungo não vai aparecer imediatamente. ”

A brigada de incêndio 24 horas também é fundamental, já que o conteúdo da biblioteca é altamente combustível. A vigilância permanente é importante para impedir a entrada de traças e, principalmente, de cupins. “Cupim é um grande inimigo, porque ele dá no concreto, dá na edificação.” Por isso, é preciso manter os prédios sempre dedetizados, além de ter uma constante vigilância de quem trabalha ali, já que há peças que ficam guardadas sem ninguém mexer por anos. Liana explica que a preservação e a conservação funcionam como um pronto-socorro para as obras, enquanto a restauração é uma espécie de UTI.  “Muitas pessoas esquecem que algumas obras já vieram velhas de Portugal e que vieram em bons baús de madeira, ficaram no cais enquanto chovia, porque a Família Real embarcou com chuva, e vieram no porão do navio. Elas já eram antigas, já eram raras.” A diretora explica que na Biblioteca Nacional há obras raras, antigas e correntes. As obras raras são de até 1751, e ficam em um armazém mais fechado, mais controlado. De acordo com registros de 2013, a equipe de preservação contava com 15 funcionários. Já no tratamento do acervo, o grupo era de 30.

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“Quando se fala de memória, eu não estou falando de duas gerações, que se alcança com facilidade, mas de cem, 200, 300, 400 anos… a tal eternidade do conhecimento.” No entanto, momentos históricos podem complicar esta missão. “Não importa o que acontece lá fora, nós temos que guardar. Na época do regime militar, as fichas foram tiradas dos catálogos para que não se achassem alguns livros. Os bibliotecários sabiam onde os livros estavam, mas eles guardavam as fichas [que impedia a localização das obras] para que não houvesse uma caça às bruxas.”

A Biblioteca Nacional recebe, por mês, de quatro a cinco mil visitas de pessoas que querem conhecer o lugar, já a Biblioteca Nacional Digital recebe cerca de cinco mil acessos por dia. “A Biblioteca Nacional é um museu dinâmico. Ela é um museu que entra obras todos os dias, que um dia vão se tornar obras de museu.” As peças podem ser consultadas. Enquanto o acervo geral é mais fácil de conseguir acesso, as obras raras requerem um direcionamento maior, como a de um centro de estudos, por exemplo.  Por se tratar de uma Biblioteca Nacional e não de uma biblioteca pública, não é possível fazer empréstimos de obras. Para ter acesso às peças, é preciso se apresentar, falar que tipo de pesquisa está fazendo e preencher um questionário. Um funcionário pega e guarda o livro, e a consulta é feita na própria biblioteca.

 

 

1 Opinião

  1. helo disse:

    As intenções são excelentes, projeto escolhido por concurso também. Entretanto livros, papéis e jornais guardados na zona portuária, sujeitos aos efeitos da maresia do local não é a melhor opção.

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