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PROTESTOS PRÓ-IMPEACHMENT

‘Fora, Dilma!’ consolidou onda reacionária no Brasil

Ascensão de Jair Bolsonaro e da extrema direita, que abraçou as demandas mais reacionárias da sociedade, começou nos protestos pró-impeachment

‘Fora, Dilma!’ consolidou onda reacionária no Brasil
Protestos pró-impeachment fortaleceram demandas reacionárias (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

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“Intervenção militar já”, “Dilma quenga”, “We say no to comunism!”, “Pela minha família, pelos meus amigos, eu voto sim”, “Pelos fundamentos do cristianismo”, “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra”. Entre março de 2015 e abril de 2016, o povo brasileiro vivenciou – parte perplexo, outra parte eufórico – as manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, reeleita menos de dois anos antes, e que culminaram, em 17 de abril de 2016, na votação favorável ao seu afastamento na Câmara dos Deputados.

Sabemos que uma série de atores cooperou de maneira decisiva, nem sempre de forma orquestrada, para que a deposição acontecesse. É o caso de mencionar a atuação de parte do Poder Judiciário, o apoio das organizações empresariais, de parcela da mídia tradicional e – estes fartamente documentados – os movimentos subterrâneos de proeminentes lideranças políticas. Mas Dilma não teria sido removida do cargo não fossem os massivos, festivos, estridentes protestos de rua que deram o respaldo que faltava ao processo de impeachment. Percebidas pelos jornais de grande circulação como manifestações em geral democráticas e cívicas, ainda que reunissem uma franja que “pede a intervenção militar”, foram nestes protestos que o agora presidente Jair Bolsonaro surgiu como figura nacional, justamente, talvez, por ter abraçado as propostas da “ala radical” dos manifestantes, que, afinal, não era tão minoritária como algumas reportagens faziam parecer.

É constatável que tanto a parcela expressiva dos protestos contra Dilma Rousseff quanto as manifestações de muitos deputados na Câmara em 2016 se orientaram por fundamentos autoritários. De forma velada ou aberta, o que se expressou nos meses do “Fora, Dilma” foi o desprezo a valores que acordou-se chamar de democráticos.

Acontecimentos desse porte, ensina Vera França, pesquisadora de Comunicação da UFMG, rompem com a normalidade diária, descortinam sentidos, falam da nossa experiência cotidiana e expõem as condições e contradições do nosso tempo. Para tanto, acionam memórias, mobilizam imaginários culturais e tradições e, baseados no que os precedeu, pretendem provocar uma reação no tempo presente. De fato, os protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff trouxeram à tona disputas ideológicas – com consequências materiais, como atestam os anos seguintes – presentes no seio da sociedade brasileira e que revelam desejos, medos e rancores de classe, gênero e raça.

Isso ficou claro não só no que estava escrito em cartazes e no que foi dito em trios elétricos e na tribuna do Congresso, mas também na estética que deu cor e forma aos protestos. O nacionalismo sazonal da camisa da seleção brasileira de futebol, a invocação dos “valores da família tradicional”, a exaltação do então juiz Sérgio Moro e do Exército brasileiro como guardiões da moral e da ordem convergem na construção de certa “brasilidade ancestral”, anterior à suposta invasão desta por elementos que teriam suspendido sua alegada cordialidade natural.

O medo de “inimigos internos” – que no período anterior ao golpe de 1964 os jornais e parte da população também expressaram – fica evidente em diversas pautas que encontraram eco entre parcela expressiva dos manifestantes: na defesa da “escola sem partido”, contrária à abordagem de questões históricas e de gênero nas escolas; na crítica ao programa Bolsa Família e às cotas raciais e socioeconômicas nas universidades; ou no clamor pela redução da idade penal.

Junho de 2013 e abril de 2016

Na semana decisiva em que as manifestações de 2013 tomaram nova proporção, cristalizando expressões como “jornadas de junho” para se referir ao que antes era tratado pelos jornais de grande circulação como atos isolados de vandalismo juvenil, esses veículos da mídia tradicional se viram na necessidade de reposicionar seus discursos e a cobertura do que ocorria.

Como escreveu o cientista político Marcos Nobre na revista Piauí, a forma e o conteúdo das manifestações tinham, então, algo de inédito: “As revoltas de 2013 não têm lideranças, palanques nem discursos. As passeatas se formam, se dividem e se reúnem sem roteiro estabelecido. É difícil até mesmo prever onde vão surgir e ganhar corpo. Organizam-se a partir de catalisadores nas redes sociais e no boca a boca das mensagens de texto. Não são revoltas dirigidas contra este ou aquele partido, esta ou aquela figura política. São revoltas contra o sistema, contra ‘tudo o que aí está”.

Organizados e divulgados nas redes sociais da internet, esses protestos ilustram bem a atual reconfiguração do espaço midiático. A instabilização que os protestos representaram para o jornalismo tradicional explica, em parte, a guinada de opiniões entre os editorialistas de O Globo, Folha de S.Paulo, Band etc., que passaram a apoiar algumas demandas dos manifestantes, e a futura cobertura dos protestos pelo impeachment em 2015-16.

“Tchau, querida!” e a crise democrática

O filósofo francês Jacques Rancière conta que o ódio à democracia é tão velho quanto a democracia em si. O próprio termo, diz, foi cunhado como insulto pelos que “viam a ruína de toda a ordem no inominável governo da multidão”. Da Ágora de Atenas à revolução Americana, até a disseminação, patrocinada pelos Estados Unidos, do que Winston Churchil, primeiro-ministro britânico durante a Segunda Guerra, classificava como a “pior forma de governo à exceção de todas as outras”, o que o acerto democrático buscou, avalia o Rancière, foi “tirar do fato democrático o melhor que se podia tirar dele, mas ao mesmo tempo contê-lo estritamente para preservar dois bens considerados sinônimos: o governo dos melhores e a defesa da ordem proprietária”.

O enlace entre democracia e capitalismo se estabeleceu no Ocidente sobretudo para evitar uma ressurreição do fascismo e fazer frente à sedução da saída comunista. Em sua “era de ouro”, até o fim dos anos 1960, aliando crescimento econômico ao “estado do bem-estar social”, esse encontro, diz o sociólogo Wolfgang Streeck, funcionou tão bem que domina ainda hoje “nossas ideias sobre o que o capitalismo democrático é ou poderia e deveria ser”.

À esquerda, a crítica à democracia, formulada inicialmente por Marx e ainda influente, acusa que “as leis e as instituições da democracia formal são as aparências por trás das quais e o instrumento com os quais se exerce o poder da classe burguesa”. O que esses críticos exigem, em tese, é mais democracia – os protestos de 2013, entende Marcos Nobre, operaram nesta chave.

A crítica observada em grande parte dos protestos contra Dilma, ao contrário, exigiu outra coisa. Nas palavras de Rancière, “o novo ódio pode ser resumido em uma tese simples: só existe uma democracia boa, a que reprime a catástrofe da civilização democrática”.

Constitui indício importante, então, o fato de as manifestações de 2013 terem acontecido em horários de pico em dias úteis, enquanto os protestos pelo impeachment e a votação na Câmara ocorreram aos domingos, quando as famílias se reúnem para almoçar. Numa, cobrava-se maior acesso à coisa pública, pauta encarnada na crítica ao aumento das passagens de ônibus, na outra falava-se em ‘moralizar’ a política, usando uma panela – outro indício importante – como instrumento expressivo da indignação. Interessa também a maneira como a polícia tratou e foi tratada pelos manifestantes: em 2013, o embate; em 2015-16, a camaradagem captada em selfies.

É certo que o decréscimo de adesão ao consenso democrático não é exclusividade nacional: fortes sinais de uma crise democrática proliferam-se inclusive nas democracias consolidadas, fazendo-se ver nos Estados Unidos de Trump e na Inglaterra, agora destacada da União Europeia pelo reacionário acordo do Brexit.

Mas é verdade também que o ódio à democracia tem cores próprias no Brasil. Do revisionismo quanto aos significados da ditadura militar passando pelo desprezo ao estado laico e aos direitos humanos e pela negação da existência de racismo e de interesses conflitantes de classes no país, ele conjuga uma rede de ressentimentos que parecem remeter à formação histórica do país.

O viralismo do discurso antipolítica, com ataques aos partidos em geral e ao PT em específico, e a defesa da “família”, de “deus” e da “pátria” contra supostas ameaças difusas estão aí para respaldar o paralelo. Ficam as perguntas: para além da disputa, que já ficou para trás, sobre o impeachment de Dilma Rousseff, o que esse ódio à democracia no Brasil segue expressando, e como o novo governo, a oposição e a sociedade lidarão com ele?

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5 Opiniões

  1. Rogério Freitas disse:

    Falta-nos conhecer a nossa história para compreendermos o jogo do opressor. O conhecimento torna o indivíduo capaz de analisar os fatos e descobrir a verdadeira intenção daqueles que detêem o poder.

  2. Nelson Franco Jobim disse:

    Bobagem! O impeachment é instrumento previsto na Constituição. Há um autoritarismo de esquerda, visível no discurso do PT. O Brasil é uma sociedade autoritária. O colapso do centro nas eleições de 2018 mostrou isso claramente, mas o articulista só vê problemas de um lado.

  3. Ludwig Von Drake disse:

    O texto cita diversos autores para parecer que é bom. Trata-se de um texto falacioso. Li tudo. Perdi meu tempo.

  4. Almanakut Brasil disse:

    Só em um país com muita gente mau-caráter e desgraçada se coloca uma BANDIDA, terrorista, quadrilheira e PEÇONHENTA no poder.

    E o pior, é que é por causa de gente que cheira a enxofre que esta MALDITA ainda não foi presa.

    Por outro lado, o “jornalista” que fala em extrema-direita no Brasil, só pode ser formado em universidade esquerdista que promove orgias à base de drogas e bebedeira.

    Se tivesse mesmo uma extrema-direita ativa por aqui, depois daquela facada o país tinha pegado fogo e a caçada teria resultados positivos.

  5. Fausto Simão disse:

    A imprensa em geral e o nicho artístico sempre foram contrários à essas manifestações…

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