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Função de um dicionário: documentar ou direcionar?

Ação contra suposta discriminação étnica do Houaiss provoca debate sobre papel do dicionário como reflexo de uma sociedade: uma publicação deve ignorar conotações preconceituosas de um termo, mesmo quando elas existem? Por Bolívar Torres

Função de um dicionário: documentar ou direcionar?
Dicionário descreve povo cigano como 'velhaco' e 'burlador', entre outras definições

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“(…)aquele que trapaceia; velhaco, burlador” e “(…)aquele que faz barganha, que é apegado ao dinheiro; agiota, sovina”. Os termos usados pelo Dicionário Houaiss, um dos mais conceituados do país, para definir a palavra “cigano” provocaram uma ação civil pública para “a imediata retirada de circulação, suspensão de tiragem, venda e distribuição” da publicação, ajuizada pelo Ministério Público Federal em Uberlândia (MG). A ação, originada em 2009 depois que um cidadão de origem cigana denunciou o que julgava ser uma prática de discriminação e preconceito contra sua etnia, deverá obrigar as editoras a suprimir de suas próximas edições qualquer expressão pejorativa ao evocar a palavra. As Editoras Globo e Melhoramentos atenderam a recomendação. Já a Editora Objetiva recusou-se a cumpri-la, sob o argumento de que seu dicionário é editado pelo Instituto Houaiss, sendo apenas detentora exclusiva dos direitos de edição.

A decisão do órgão federal levantou o debate sobre a função e o papel dos dicionários. Ao fazer uma compilação das palavras de uma língua, deveriam descrever todos os seus usos, positivos e negativos? Seria sua função direcionar a linguagem ou apenas documentá-la?

O argumento do procurador Cléber Eustáquio Neves, que entrou com a ação, é de que a descrição do Houaiss poderia internalizar o uso preconceituoso do termo.

“Ao se ler em um dicionário, por sinal extremamente bem conceituado, que a nomenclatura ‘cigano’ significa aquele que trapaceia, velhaco, entre outras coisas do gênero, ainda que se deixe expresso que é uma linguagem pejorativa, ou que se trata de acepções carregadas de preconceito ou xenofobia, fica claro o caráter discriminatório assumido pela publicação”, afirmou. “Trata-se de um dicionário. Ninguém duvida da veracidade do que ali encontra. Sequer questiona. Aquele sentido, extremamente pejorativo, será internalizado, levando à formação de uma postura interna pré-concebida em relação a uma etnia que deveria, por força de lei, ser respeitada”, acrescentou o procurador.

Para Evanildo Bechara, professor, gramático e filólogo correspondente da Academia Brasileira de Letras, porém, o dicionário é o “repositório da vida espiritual política econômica de uma sociedade”. Nesse sentido, tem a obrigação de refletir as ideias de um povo. Ele lembra que, em dicionários do mundo inteiro, serão encontradas referências desairosas ao lado de referências positivas aos ciganos.

“De uns tempos para cá existe a ideia do politicamente correto, mas não se pode polir da veia de documentação de um dicionário todas estas experiências históricas. Se nos dicionários cigano podem ter referências pejorativas esteja certo que não é culpa do Houaiss: ele apenas é o registrador da concepção que está viva na sociedade”, argumenta. “Ninguém, por exemplo, pode retirar da vida espiritual da sociedade a ideia do judeu e a relação com a morte de cristo, da crucificação. Não se pode tirar da língua o verbo ‘judiar’. A palavra francesa ‘crétin’, que significa ingênuo ou lunático, deriva do latim Christianus, ou seja, cristão. Agora, vai uma distancia muito grande entre o que esta registrado no dicionário e a influência que isso pode causar nas pessoas que o leem”.

O filólogo da Academia acredita que se fixar nos termos depreciativos de uma palavra não provoca uma leitura inteligente de um dicionário. “É como ver um binóculo com a lente invertida: a visão fica diminuída”.

Mesmo que hoje a etnia cigana seja menos associada à “agiotagem” ou “barganha”, Bechara acredita que cabe aos dicionários não apenas o registro do “presente, mas também do repertorio da vida cultural através dos tempos”. “Se fizermos um dicionário contemporâneo apenas com o que se fala hoje no Brasil, não teria mais de 500 palavras”.

Nesse sentido, ao registrar concepções negativas dadas a uma etnia, o dicionário poderia até prestar serviço ao denunciar o preconceito e o racismo presente na sociedade. Não é, porém, o que pensa Mio Vacite, da União Cigana do Brasil. Vacite, um dos líderes que ajudaram a resgatar a história e riqueza cultural dos ciganos no Brasil, diz que, para acabar com o preconceito, é melhor “eliminar” qualquer relação pejorativa ao termo cigano.

“Apagar é melhor do que explicar”, avalia. “A explicação vai eternizar o preconceito. Se você não retirá-la já estará impregnada no cérebro e no inconsciente da pessoa”.

Em 1988, Vacite liderou um movimento para modificar o verbete do dicionário MEC-75, do Aurélio Buarque de Hollanda, que descrevia o cigano como um “homem errante, de vida incerta”, mas também como “bando, padilha, negociata sem escrúpulos”.

“Levou dois anos e fomos os primeiros no mundo a conseguir esta alteração”, conta Vacite. “Na Inglaterra, tentaram e não conseguiram”.

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8 Opiniões

  1. Sandra disse:

    Outro enfoque da questão….Realmente , a censura foi o único aspecto que enxerguei no primeiro comentário à matéria anterior…A descrição que me parece mais imparcial e acertada seria a de “homem errante, de vida incerta”….

  2. Markut disse:

    O comentário de Sandra levanta uma perplexidade inusitada ao se questionar aquilo que parecia inquestionavel, que é um dicionário.
    O exemplo da caso de cigano, como o de judeu, deveria, sim, ser apresentado com cuidado, não a fim de apagar alguma de suas versões, por mais pejorativas que fossem ,mas de apresentá-las despidas do eventual ranço preconceituoso de quem o redige e Sandra mostrou que isso é possivel.
    Não sendo assim, chegaremos às fogueiras de livros queimados em praça pública,triste espetáculo “dejà vu”.

  3. TARCISIO NEVIANI disse:

    Exatamente, Markut e Sandra. Já opinei a respeito. Qualquer dicionário que se preze, dá a fotografia das cepções de uma palavra, inclusive ao longo dos tempos e, quando é um grande dicionário, dá exemplos literários do uso da palavra ao longo dos teempos. Esta história cultural não pode ser apagada, só porque agora, com o muito criticável politicamente correto, resolvemos ser virtuosos por decreto dos petistas (arautos da ética antes de galgarem o poder; campões da corrupção desavergonhada enquanto no poder). Por exemplo: o Grande Dicionário Italiano do Uso (Autor”Tullio de Mauro – Ed. UTET, PÁG. 1137), define “ZINGARO” como “quem pertence à etnia dos ciganos, grupo étnico originário da India norte ocidental , que se difundiu, a partir do Séc. X no Oriente Médio, na Europa e na África setentrional, conduzindo vida nômade, exercendo atividades como o comércio de cavalos, a produção de artefatos de cobre e, especialmente, as mulheres, a quiromancia e a mendicância, e somente mais tarde e raramente estabelecendo-se em acampamentos, carroças; pessoa sem morada fixa ou com aspecto mulambento e sujo; lígua que se formou, sobre base neo-indiana, com a sobreposiç~!ao de elementos linguísticos arabo-persas, armênios, rumenos e de outras linguas onde o grupo passou a viver. Sinönimos: nomade, giramundo, vagabundo.” Esta é visão européia dos ciganos. No Brasil o termo teve outras acepções, que não podem ser ignoradas. Se tivermos de “creolinizar”a nossa história, por que não “esquecermos” da escravidão, que é uma das nossas vergonhas hitóricas? Já mencionei que, analogamente o Português do Brasil absorveu outras terminologias nada favoráveis em muitos outros casos; por exemplo: mafiosos ou carcamanos, para designar os italianos; polacas para designar as prostitutas do século passado no Rio de Janeiro e outras. Vamos abolir também isso tudo dos dicionários? Que os esquerdistas queiram fazer lavagem cerebral para evitar que pessoas pensem diferente deles é sabido desde o decálogo do Lênin. Por que nós, Brasileiro, que gostamos de ser diferentes dos outros, devemos aceitar essas cartilhas superadas e mentirisas?

  4. Markut disse:

    Tem razão Tarcísio.
    É impressionante como o trágico legado de uma ideologia equivocada e/ou mal digerida se espalha feito rastilho de pólvora até em mentes, supostamente menos desavisadas.

  5. Sandra disse:

    Esta polêmica do dicionário Houaiss está sendo muito enriquecedora e estimulante, pois me faz refletir….Assim como a contribuição dos leitores : Markut e Tarcisio.
    Os fatos são imutáveis, portanto os livros de história que relatam estes fatos também o seriam…Se bem que, na realidade ,os livros de história , por exemplo, as guerras napoleonicas dos livros ingleses são totalmente diferentes das dos livros franceses, versões diversas dos mesmos fatos, puxando a brasa para a sua sardinha…Os usos e costumes por sua vez mudam , portanto os códigos legais devem ser atualizados periodicamente…Será que os dicionários também não deveriam sofrer uma revisão, incluindo neles o significado antigo e o moderno? Ou ficariam muito volumosos?Honestamente, não sei, fica em aberto a questão.

  6. Daniel disse:

    Mais uma manifestação da ditadura do politicamente correto. É lamentável o ponto a que chegamos. Dicionários existem para documentar o significado corrente e histórico das palavras e não para fazer julgamentos. Não se pode mais definir uma palavra, pois a verdadeira definição pode ir de encontro às convicções da ideologia dominante, no caso, a populista.

  7. Markut disse:

    Uma questão levanta outra. Há uma diferença qualitativa importante entre os grandes dicionários (volumosos) e as versões condensadas, de uso e portabilidade mais imediatista e ,comercialmente, mais conveniente.
    Cito, como exemplo, a palavra : recife.Com exceção do dicionário da Melhoramentos, em 4 volumes,nenhum outro forneceu as 7 ou 8 versões , inclusive a da origem do vocábulo, que é a que me interessava.
    Num dicionário compactado, será mais facil induzir o significado que ideologicamente mais convenha.
    Não fosse esta oportunidade, confesso que nunca tinha pensado nisso.

  8. Salim disse:

    A definiçao de Houaiss para a palavra “cigano”e uma Apologia ao xenofobismo. Como educar as pessoas se estas ao recorrer ao dicionario encontram no significado da palvra uma grosseira distorçao do seu sentido sugerindo preconceito?. A eliminaçao do pejorativo na definiçao classica das palavras tem de ser dada pelos proprios educadores e no conteudo dos seus livros. O Marketing do Nazismo contra Judeus, ciganos, negros, homssexuais etc… foi denegrir pelo lado negativo do comportamento de alguns e influenciar o povo a rejeita-los. Vejo que muitos leitores nao compreenderam a atuaçao do MPF. A livre expressao nao pode ratificar e perpetuar un dano de imagem à alguem pelo uso pejorativo que a inquisiçao e o Nazismo imprimiram a outros povos.

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