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Um brasileiro detido em Londres

Glenn Greenwald: ‘Até a Máfia tem mais escrúpulos’

Menos de 3% dos suspeitos de terrorismo que entram no Reino Unido passam por interrogatório semelhante ao que David Miranda, namorado do jornalista Greenwald, foi submetido neste domingo

Glenn Greenwald: ‘Até a Máfia tem mais escrúpulos’
David Miranda desembarcou no Rio nesta segunda-feira e deixou o aeroporto com Glenn Greenwald (Reprodução/OGlobo)

O governo britânico deteve e interrogou o carioca David Miranda, namorado do jornalista Glenn Greenwald, durante nove horas neste domingo, 18, no aeroporto de Heathrow, em Londres, sob a infundada suspeita de terrorismo. A ação “é injustificável”, como disse o chanceler brasileiro Antonio Patriota quando pediu explicações das autoridades britânicas nesta segunda, e representa uma clara demonstração do caráter abusivo dos programas de inteligência de países que se consideram acima do bem e do mal.

Miranda foi interrogado por nove horas porque seu namorado constrangeu o governo americano, publicando informações sobre o NSA, o programa de espionar civis dos EUA. Sua detenção se baseou na seção 7 da Lei de Terrorismo britânica, que entrou em vigor em 2000. A lei permite que as autoridades britânicas detenham um suspeito “por até nove horas para interrogatório e para realizar buscas em seus bens pessoais, muitas vezes sem a presença de um advogado, para determinar possíveis vínculos com o terrorismo”.

Leia também: Detenção de companheiro de jornalista do caso Snowden gera polêmica

De acordo com um documento publicado pelo próprio governo britânico e reproduzido nesta segunda no blog de Greenwald, menos de três em cada 10 mil pessoas são interrogadas à medida que atravessam as fronteiras do Reino Unido. No caso de Miranda, ele não estava nem mesmo entrando no Reino Unido, mas apenas em trânsito para o Rio após uma viagem a Berlim. Ainda de acordo com o documento do governo britânico, “mais de 97% dos interrogatórios duram menos de uma hora”. Um anexo a esse documento afirma que apenas 0,06% de todas as pessoas detidas são mantidas por mais de 6 horas. O objetivo declarado desta lei é “determinar se a pessoa está ou esteve envolvido na comissão, preparação ou instigação de atos de terrorismo.

David Miranda foi detido pelo tempo máximo permitido pela lei britânica e nem um minuto a menos. Na visão do governo britânico, ele estava entre os 3% dos “suspeitos” com maior probabilidade, supõe-se, de manter ligações com redes terroristas.

A pergunta óbvia é: o que poderia levar os serviços de segurança britânicos a suspeitar que Miranda mantém laços com terroristas? Não há nada que poderia vincular nem mesmo seu namorado a redes terroristas. Suspeitar que Greenwald é terrorista está tão longe de ser razoável que beira o absurdo. A ideia de que Miranda poderia estar ligado a redes terroristas é ainda mais ridícula.

O roteiro da intimidação

Os agentes britânicos o detiveram por três horas antes de comunicarem Glenn Greenwald. Quando telefonaram para Greenwald, às 6h30 (horário de Brasília),  não permitiram que ele falasse com Miranda. Um agente de segurança, que se identificou apenas pelo número 203.654, disse apenas que poderiam manter Miranda sob custódia durante nove horas a fim de interrogá-lo, período após o qual poderiam prendê-lo sob acusações de terrorismo ou pedir a um tribunal para estender o tempo de interrogatório. Miranda não tinha o direito de ter um advogado presente.

Mais cinco horas se passaram sem que advogados do jornal Guardian ou autoridades brasileiras (incluindo o embaixador brasileiro em Londres) conseguissem obter qualquer informação sobre Miranda. “Passamos a maior parte do tempo contemplando as acusações que ele provavelmente iria enfrentar uma vez decorrido o período de 9 horas”, escreveu Greenwald em seu blog nesta segunda-feira.

Durante as nove horas de interrogatório, Miranda foi intimidado psicologicamente, numa clara tentativa de atingir a imprensa, incarnada na figura do seu namorado Glenn Greenwald. Embora David tenha sido liberado, todo o conteúdo de sua biblioteca digital foi confiscado junto com seu laptop, celular e videogame.

“Isso é, obviamente, uma profunda escalada dos ataques contra o processo de coleta de notícias e o jornalismo”, escreveu Greenwald. “É ruim o suficiente processar e prender fontes. É pior ainda prender jornalistas que relatam a verdade. Mas começar a deter membros da família e entes queridos de jornalistas é simplesmente despótico. Até mesmo a máfia tinha regras éticas contra a perseguição dos familiares de pessoas que a ameaçavam. Mas as marionetes do Reino Unido e seus proprietários no estado de segurança nacional dos EUA obviamente não se sentem limitados nem mesmo por estes mínimos escrúpulos”.

Fontes:
Guardian - Glenn Greenwald: detaining my partner was a failed attempt at intimidation
The Dish - Cameron Proves Greenwald Right

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1 Opinião

  1. jan disse:

    É ridículo dar tanta importância a esse caso, assim como o foi no caso do Jean Charles que até virou filme.
    O Brasil é um pais que aceita silenciosamente mais de 50 mil assassinatos por ano, ano após ano.
    Ou seja, é um pais que não valoriza a vida de seus cidadãos.
    Com que moral podemos nós reclamar dos ingleses? Nenhuma.
    Isto tudo é apenas ideologia barata, anti-colonialismo, anti-ocidentalismo.
    Acordem para o que realmente é importante e não deixem estas coisas nos distraírem.
    Temos é que valorizar a vida de todo brasileiro por nós mesmos.

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