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GOVERNO ALTERNATIVO

Governadores e Congresso ocupam vácuo deixado por Bolsonaro

Presidente privilegia disputas ideológicas no meio ambiente, saúde, educação e relações exteriores, perdendo protagonismo na agenda nacional

Governadores e Congresso ocupam vácuo deixado por Bolsonaro
Congresso opera numa espécie de 'parlamentarismo informal', liderado por Rodrigo Maia (Foto: EBC)

Dedicado a manter em alto nível a tensão política que ajudou a elegê-lo em 2018, Jair Bolsonaro (PSL) já atacou autoridades de Cuba, França, Alemanha, Noruega, Argentina e Finlândia, acirrando, ainda, o clima de desconfiança com a China e com os países árabes.

As ofensas e atitudes do presidente na arena internacional, é claro, causaram reações negativas para os brasileiros.

Cuba cancelou o acordo firmado com o Brasil que instituiu o programa Mais Médicos, deixando milhões de pessoas sem atendimento profissional de saúde. Países europeus cancelaram a ajuda bilionária que destinavam ao Fundo Amazônia, usado na preservação da floresta e contra as queimadas que assolam a região, gerando transtornos inclusive para o agronegócio. China e Argentina, dois dos maiores parceiros comerciais do Brasil, veem aos poucos substituindo as compras de produtos brasileiros por mercadorias de outros países.

Internamente, o cenário não é diferente. Bolsonaro alimenta semanalmente polêmicas com o Congresso, o Ministério Público, a Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal, o que não tem ajudado – pelo contrário – na aprovação das duas principais pautas econômicas de sua gestão: a reforma da previdência e a privatização das estatais.

Enquanto isso, investimentos públicos e privados no país seguem no menor ritmo em anos, a indústria bate recordes negativos a cada mês e o número de desempregados mantém-se na faixa das 11 milhões de pessoas – o trabalho informal, sem carteira assinada, alcança já 37 milhões de brasileiros.

Áreas de educação e pesquisa científica, por sua vez, são negligenciadas em nome de uma guerra ideológica contra as universidades, antro de professores, professoras, alunos e alunas petistas, na opinião revanchista de membros do governo.

É senso comum dizer que não há vácuo em política. De fato, o espaço em aberto deixado em diversos setores pela inapetência de Bolsonaro e sua equipe tem sido ocupado, à esquerda e à direita, pelos governadores dos estados e pelo Congresso Nacional.

Pactos entre governos estaduais e parlamentarismo informal

Isolados politicamente por Bolsonaro, os “governadores de paraíbas”, como se referiu o presidente aos políticos nordestinos, receberam apenas 2,2% dos empréstimos da Caixa destinados a governos estaduais e municípios em 2019. Muito embora, nos últimos meses, a economia da região tenha crescido acima dos níveis nacionais.

Pretendendo manter em alta o crescimento e para se contrapor ao governo federal, os nove estados da região criaram o “Consórcio do Nordeste”, alternativa à esquerda ao projeto econômico e político do presidente.

Entre as preocupações do consórcio liderado pelo governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), e da Bahia, Rui Costa (PT), está o combate ao desemprego e à violência e a busca por soluções na saúde e educação.

O Consórcio, inclusive, está em contato com autoridades cubanas para reimplantar, na região, versões estaduais do Mais Médicos.

No campo dos investimentos internacionais, o Nordeste tem ignorado a orientação do governo federal de isolar a China, privilegiando relações com os EUA. Empresas como a Huawei e a ZTE se reuniram com governadores, como o petista Wellington Dias, do Piauí. A ideia é firmar parcerias público-privadas na área de educação e saúde.

“Vamos trabalhar com todos os países que aqui queiram investir, e a China é quem tem melhores condições; os interesses do povo brasileiro vão prevalecer, independentemente das ideologias”, disse, à Folha de S.Paulo, o governador do Piauí.

O Congresso, por sua vez, trabalha em ritmo de “parlamentarismo informal”. Avaliando que os ataques do presidente a Rodrigo Maia (DEM), ao “Centrão” e à “velha política” constituem uma tática de Bolsonaro para inflamar seus apoiadores, o enorme grupo de deputados de centro-direita convergiu para blindar a pauta econômica dos atritos com o Executivo. Conseguiram, à revelia de Bolsonaro, aprovar na Câmara a reforma da Previdência.

Maia, tratado por congressistas como uma espécie de “primeiro-ministro”, chamou para si também a agenda ambiental. Se reuniu com lideranças indígenas, do agronegócio e de ONGs, buscando consenso mínimo no tema, e pediu ao STF que libere recursos do fundo da Lava Jato para ações contra as queimadas.

Também na política entre os estados Maia tem atuado. Se Bolsonaro, de olho nas eleições de 2022, busca enfraquecer seus adversários na direita, como Witzel (PSC), governador do Rio de Janeiro, e Doria (PSDB), de São Paulo, Maia busca aproximação junto aos dois, incluindo-os nas rodadas de negociação da reforma tributária, pauta de interesse dos estados.

Paradoxalmente, como revela pesquisa recente do Datafolha, os próprios eleitores de Bolsonaro são os que mais bem avaliam o trabalho de Maia. Entre os que apoiam o presidente da República, 35% apoiam também o líder dos deputados – abaixo do índice global de apoio a Maia, que é de 25%.

Não surpreende, também, que a rejeição do presidente no Nordeste tenha saltado de 41% para 52% de julho para setembro.

Ou seja: se em longo prazo a tática bolsonarista de alimentar o conflito ideológico com ofensas e falácias dará certo, só o tempo dirá; presentemente, contudo, podemos considerá-la mais um entre os vários erros do governo.

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1 Opinião

  1. Rogério Freitas disse:

    O bom é perceber que tem gente buscando alternativas, pensando efetivamente no país.
    É preciso peneirar os políticos, e os que ficarem na peneira precisam se uinir em favor do bem da nação.

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