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SEM UMA EXPLICAÇÃO PLAUSÍVEL

Governo suspende medicamento para 8 mil pacientes com leucemia

Medicamento de alto custo e vital para pacientes crônicos teve a distribuição suspensa no final de fevereiro, sem uma explicação plausível

Governo suspende medicamento para 8 mil pacientes com leucemia
Talvez os tecnocratas do Ministério da Saúde não saibam, mas quem tem câncer tem pressa (Foto: D. Meyer)

Cerca de 8 mil brasileiros que sofrem de leucemia mieloide crônica (LMC) vivem dias de preocupação desde que foi suspensa no final de fevereiro a entrega aos hemocentros em todo o país do quimioterápico mesilato de imatinibe. O medicamento – de alto custo – é vital para a manutenção da esperança e da qualidade de vida destes pacientes crônicos – a maioria deles já sem sua dose diária de quimioterapia.

A falta do fármaco afasta o paciente da fase crônica da doença – cuja expectativa de vida supera os dez anos – e o condena à fase aguda, com perspectiva de morrer em menos de doze meses. Até o momento, o Governo Federal não deu uma explicação plausível para o desabastecimento. A caixa do quimioterápico – com 30 comprimidos de 400 mg – tem um preço médio superior a R$ 10 mil por mês.

Mas o que está ruim ainda pode piorar. Numa espécie de pré-Reforma da Previdência, pacientes com câncer estão perdendo o auxílio-doença. Nos postos do INSS, os peritos – de forma subjetiva – avaliam se os doentes em tratamento possuem “capacidade laborativa”. Esta regra vale somente para os trabalhadores do regime geral da Previdência – a grande maioria dos brasileiros. Para militares e funcionários públicos federais – como os próprios peritos do INSS -, a regra é diferente e determina que eles sejam aposentados por invalidez, independentemente da capacidade de trabalho.

Essa diferenciação entre brasileiros comuns e brasileiros de elite ocorre no acesso aos medicamentos de alto custo. Por exemplo, o superseguro de saúde dos senadores e deputados federais, bancado com dinheiro público, garante a estes cidadãos poderosos e especiais o acesso sem dificuldade ou atraso a qualquer tratamento.

Muitos pacientes do SUS vivem situação dramática. É o caso de Maria, de 47 anos – personagem desta matéria. Ela preferiu este nome com medo de represália, tanto no INSS quanto no hemocentro onde é atendida. “De uma hora para outra, a vida se torna um pesadelo. Sofro constantemente de fadiga, diarreia, náuseas e dor muscular. O remédio que me mantém viva acabou, sem previsão de entrega. E não tenho espaço no mundo do trabalho. Estou desempregada e uma empresa não contrata quem trata do câncer”, lamenta.

Ministério da Saúde não tem pressa

Em nota oficial, a Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale) destaca a “situação calamitosa” e alerta para os riscos da falta do mesilato de imatinibe. “Enviamos um ofício para o departamento de Assistência Farmacêutica do Ministério da Saúde solicitando um posicionamento do órgão quanto à regularização do fornecimento do medicamento. Porém, até o momento, não obtivemos resposta”.

A entidade buscou o ministério por todos os meios até obter a promessa de que a distribuição voltaria ao normal no dia 22 de abril – o que efetivamente não ocorreu. Há versões de que a embalagem está fora dos padrões, embora, para estes pacientes, o conteúdo seja muito mais importante do que qualquer invólucro.

O medicamento que prolonga a vida

Introduzido no mercado em 2001, o Imatinibe é comercializado mundialmente com o nome fantasia de Glivec. O produto prolonga a vida dos pacientes com LMC – e outros tumores – e garante também mais qualidade no dia a dia por um período comprovadamente superior. Antes do Imatinibe, a perspectiva de vida do doente de LMC era inferior a cinco anos.

Ainda assim, o uso continuado do medicamento provoca diferentes reações nos pacientes, como diarreia, náuseas, vômitos, dores ou cãibras musculares, fadiga, edemas, neutropenia (contagem anormal de glóbulos brancos), trombocitopenia (redução do número de plaquetas), anemia, indigestão, dores abdominais, dores de cabeça, dores e espasmos musculares ou ósseos entre outras reações. Importante destacar que este foi o primeiro genérico para o câncer a ser produzido no Brasil – após a quebra de sua patente. Devido a seu alto custo, o produto se mantém inacessível à maioria dos pacientes. Muitos deles, sem condição financeira para fazer frente a tamanho investimento, já estão recorrendo ao site Vakinha – de arrecadação de doações em dinheiro.

Diante de algumas matérias denunciando o inexplicável sumiço do quimioterápico, o Ministério da Saúde publicou um calendário com novas datas para a regularização da distribuição do medicamento – a maioria em meados do mês de maio. A cada dia que passa, o drama de 8 mil famílias brasileiras aumenta. Talvez os tecnocratas do ministério não saibam, mas quem tem câncer tem pressa.

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15 Opiniões

  1. Regina disse:

    Situação difícil de quem precisa do SUS.

  2. Roberta disse:

    A Abrale faz um trabalho sério de conscientização sobre leucemia e ajuda a buscar direitos de quem tem essa doença.

  3. BS disse:

    Quem tem câncer tem pressa. Verdade. Que tudo se resolva logo.

  4. Quiz disse:

    No entanto o governo concentra a sua força no combate às ideologias contrárias aos seus interesses, em especial nas áreas sociais, prejudicando a Educação, Saúde e não gera empregos… Impeachment seria o caminho???

  5. Lúcia disse:

    Meu Deus, o que eu vou fazer? Tomo o Glivec há 9 anos.

  6. Aparecida disse:

    O que esperar de país onde saúde não é prioridade, nem sei pra serve uma constituição que não é respeitada. As prioridades neste país são fúteis e tem muito a ver com o ego dos nossos poderes políticos.

  7. Lilian disse:

    Isso seria o maior absurdo do mundo!!!

  8. Erni Santos Rocha disse:

    A população brasileira tem que começar a fazer arminha com a mão, assim o remédio vai chegar rapidinho para quem precisa.

  9. Silvinho disse:

    Lamentável essa situação. Tomo glivec a 06 anos depende dele pra estar vivo. Meu auxílio doença me tiraram até vou levando… agora se parar a entrega gratuita. Ai lascou de vez remédio custa 10 mil reais. ..

  10. William disse:

    Fake pesquisem em outro lugar a matéria assim .

  11. Simone disse:

    William, não é fake. O abastecimento foi restaurado. Mas a proposta da reforma da previdência é cancelar o abastecimento.

  12. Elisete Limoeiro disse:

    Que absurdo!Que abuso!É facil tirar dos pobres; dificil tirar dos ricos.. Leucemia é Câncer.
    Aonde querem chegar com a saúde e educação? Isto é um direito nosso!!

  13. Jadiel de Oliveira Azevedo disse:

    O governante, que não tem como princípio, o bem estar social está no lugar errado.

  14. DAVI RADOVAN disse:

    A leucemia ceifou a vida do meu irmão querido em 1994 aos 33 anos de idade. Uma tristeza para toda a nossa familia. A ciência evoluiu, aumentando a expectativa de vida dos portadores de leucemia. A doença, se não tratada, é devastadora. Precisamos de uma explicação pra ontem acerca dessa negligência perpetrada poe nossos “gestores”.

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