Início » Brasil » ‘Guerra às drogas’, além de tudo, empaca a ciência
ABORDAGEM EQUIVOCADA

‘Guerra às drogas’, além de tudo, empaca a ciência

Porém, governo considera guerra necessária, baseado em ‘evidências’ como passeios em Copacabana

‘Guerra às drogas’, além de tudo, empaca a ciência
A 'guerra às drogas' provoca um efeito colateral pouco discutido, mas muito importante (Foto: EBC)

No último 17 de maio a professora Andreia Galassi, coordenadora do Centro de Referência sobre Drogas da Universidade de Brasília (UnB), dividiu um estúdio da GloboNews com o ministro da Cidadania, Osmar Terra, para um debate sobre o projeto de lei aprovado no Senado que muda a política de drogas do Brasil. O projeto endurece a postura do Estado com o usuário de drogas, na contramão das práticas internacionais mais bem-sucedidas.

Osmar Terra foi o autor do projeto, quando ainda era deputado federal. No fundamento da mudança brasileira no trato com a questão está a percepção de que o país vive uma epidemia de uso de drogas ilícitas, e seria necessário, portanto, medidas drásticas para conter essa epidemia, no melhor estilo “guerra às drogas”. Quando Osmar Terra reafirmou esse motivo ao lado de Andreia Galassi, a professora ressalvou, para início de conversa:

“De antemão, a gente deveria perguntar ao governo a razão por que o governo não autoriza a divulgação da pesquisa realizada pela Fiocruz que demonstra que o Brasil não vive uma epidemia das drogas. Do ponto de vista epidemiológico, do ponto de vista do conceito de epidemia na saúde, a gente não vive uma epidemia das drogas. E o grande problema da aprovação dessa lei é que a gente está indo na contramão de como os países civilizados, de como os países desenvolvidos abordam a questão”.

O debate aconteceu dias antes de a questão da censura à pesquisa da Fiocruz explodir na imprensa, o que aconteceu em 28 de maio, após a publicação de uma entrevista de Osmar Terra ao jornal Globo.

Naquele 17 de maio, na GloboNews, Osmar Terra disse à professora Andreia Galassi que tinha “pesquisas mais confiáveis” que a da Fiocruz. Ele citou dados do INSS que mostram “um aumento extraordinário” de pessoas pedindo auxílio doença em função da dependência química do crack e da cocaína.

Na sequência, Osmar Terra disse que a pesquisa da Fiocruz tem “um defeito” metodológico a ele informado pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), do Ministério da Justiça. Disse ainda que “a Fiocruz trabalha há muitos anos para provar que não há problema com o consumo de drogas”.

Na entrevista ao jornal Globo, Osmar Terra explicou que o resultado da pesquisa não é compatível com o que ele próprio viu durante um passeios em Copacabana: “Eu andei nas ruas de Copacabana, e estavam vazias. Se isso não é uma epidemia de violência que tem a ver com as drogas, eu não entendo mais nada. Temos que nos basear em evidências”.

Osmar Terra Plana

Há quase dois anos, em agosto de 2017, Naomi Burke-Shyne, diretora da ONG Harm Reduction International, de defesa dos direitos de usuários de drogas, publicou um artigo mostrando como a “guerra às drogas” provoca um efeito colateral pouco discutido, mas muito importante: as imensas dificuldades, burocracia e consequentes atrasos de pesquisas médicas promissoras, mas que envolvem testes com substâncias consideradas ilícitas.

“Por 50 anos, e em nome da guerra contra as drogas, os formuladores de políticas priorizaram a aplicação da lei em detrimento da pesquisa médica. O resultado? Uma guerra contra as drogas que ainda está acontecendo e meio século de supressão de pesquisas e descobertas científicas”, escreveu Naomi Burke-Shyne.

Como exemplo, ela citou o caso do psiquiatra britânico Ben Sessa, que, na ocasião, tinha acabado de conseguir autorização para começar um estudo com que tentaria comprovar a eficácia de uma substância que, acreditava o Dr. Sessa, poderia reduzir significativamente o índice de recaídas de alcoólatras em recuperação – um índice que é 90% nos três anos seguintes àquele que se acreditava ser o último gole.

Tudo porque a substância em questão era o MDMA, popularmente conhecido como êxtase. Ben Sessa, um pesquisador renomado, levou nada menos que seis anos para conseguir tirar a pesquisa do papel. Só uma licença especial necessária para trabalhar com substâncias controladas demorou dois anos para sair e custou a bagatela de US$ 40 mil. Foram necessários outros US$ 50 mil para a aquisição de equipamentos de segurança especiais e para arcar com custos de monitoramentos exigidos por lei.

O estudo médico do Dr. Sessa, o primeiro do Reino Unido envolvendo MDMA, consiste numa espécie de “curso” de oito semanas com sessões semanais de psicoterapia. O MDMA é tomado pelo paciente apenas duas vezes, em cápsulas, na terceira e na sexta semanas, em doses similares à de um comprimido de êxtase. Até agora, sete pessoas concluíram o curso. Sem recaídas.

A pesquisa da Fiocruz censurada pelo governo mostra que, nos 30 dias anteriores à consulta, 30% dos 16 mil brasileiros entrevistados consumiram bebidas alcoólicas. Dos mesmos 16 mil, 1,5% disseram ter usado maconha no mesmo período, e 0,1% disseram ter usado crack.

“Temos que nos basear em evidências”, disse Osmar Terra precisamente como argumento para desqualificar uma pesquisa científica com metodologia aprovada em conferência internacional sobre métodos estatísticos, como ressaltou a revista Época. Com tantos partidos e ministérios mudando de nome, talvez Osmar Terra também mude o seu, o seu próprio nome. Talvez para Osmar Terra Plana.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

4 Opiniões

  1. José Antonio Alves disse:

    É muito simples resolver o problema das drogas. Pessoas que se adoentam pelo uso das mesmas não devem ser atendidas pelo SUS e nem se aposentarem por incapacidade física ou mental. Ficam os tratamentos e o sustento por conta dos familiares do usuário de drogas.

  2. jayme endebo disse:

    Essa pesquisa deve ser a mesma que deu vitoria a Haddad? cá entre nós dizer que 1,5% fumam maconha é piada né? a realidade é outra.A policia quase todos anos apreende toneladas de cocaína então é só fazer as contas de quantos consumidores temos além dos montantes de dinheiro que se arrecada e se lava.Falta seriedade no assunto e coragem para resolver.

  3. Roberto Henry Ebelt disse:

    O verdadeiro problema aqui é que o CRACK, ao contrário do prometido quando surgiu, não mata logo e deixa vagabundos matando e destruindo tudo o que veem pela frente. Se o usuário morresse logo, o problema estaria em grande parte resolvido. Os produtores de drogas poderiam cooperar produzindo drogas mais fortes e de pior qualidade.

  4. Mestry Badahra disse:

    Não existe interesse pelos que deviam, Tomar atitudes inteligentes, em relação a Maldição destes hábitos.
    E a Força, dos que dominam o atacado dos alucinógenos, é Muito Maior do que o estado…
    E os responsáveis pela Segurança do Cidadão que paga os salários deles , acham que a Família e eles nunca sofrerão, um acidente comum, de ter riscos até contra a vida .
    Isso só acontece com o cidadão comum (?)
    E, através de Bailes dos Banguelas, e até nos colégios , a Peste do Vicio está sendo iniciado …
    Toda a desgraça /a violência /e os absurdos , acontecem, devido o Infeliz e maldito dependente,precisa de DINHEIRO, para comprar a maldita pedra ….
    Só quem ignora isso, é a Autoridade que deveria a muito tempo, Tomar as devidas providencias.
    E ai perguntamos, Se ninguém tomasse cerveja, e cachaça, a AMBEV viveria de que ??? ….O Usuario é o fomentador de toda esta epidemia ….

    Mestry Badahra

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *