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Há muito de podre no governo brasileiro

O conluio do cartel de empreiteiras com a Petrobras, o governo e a aliança partidária que aí está escancarado remete a uma tragédia Shakespeariana

Há muito de podre no governo brasileiro
Último balanço auditado da Petrobras revelou o gravíssimo registro dos desvios (Reprodução/ABr)

Na última semana foram finalmente publicadas as demonstrações financeiras 2014 da Petrobras, revelando o gravíssimo registro dos desvios, e desta vez com o selo de uma auditoria internacional. Assim, estamos diante de três fatos importantes: (1) a corrupção propriamente dita; (2) seus valores elevadíssimos e (3) o atestado de sua existência conferido por terceiros independentes.

A investigação de assassinatos, em geral, só avança quando há um corpo para confirmar; no caso da Petrobras temos os defuntos – a própria empresa, a República (a coisa pública) e o povo brasileiro, com certidão de óbito e firma reconhecida, isto é, o parecer da auditoria. O marketing do Planalto pode tentar fazer muita coisa, como até a tentativa de transformar os criminosos em vítimas; já alguns juízes do STF – indicados pelo partido da situação – não se reconhecem impedidos em mandar para casa os indiciados e poupar os grandes nomes.

Chama a atenção também a banalidade da comunicação do novo presidente da Petrobras, que se vangloria de ter publicado o balanço “conforme prometido”, como se não fosse a mais elementar das obrigações societárias; fica a impressão de que os dirigentes da estatal não podem ser responsabilizados já que, por enquanto, somente os operadores, com delação premiada, estão sob as garras da Justiça.

Não é demais lembrar que nossa atual mandatária está à frente da questão desde 2003, primeiramente no Ministério de Minas e Energia, ao qual a Petrobras está subordinada e seguidamente como Chefe da Casa Civil e presidente do Conselho da empresa, e finalmente na Presidência da República. A alegação de desconhecimento, por 12 anos, causa suspeita sobre sua sinceridade.

Na mesma semana, por coincidência, celebrou-se o aniversário de William Shakespeare (1564–1616), autor de uma das peças teatrais mais marcantes de todos os tempos: Hamlet, o príncipe da Dinamarca. O tema principal é a vingança do príncipe contra seu tio, que se descobre assassino do pai, usurpando o trono real, além de se casar com a própria mãe de Hamlet. Nestes desenlaces, um dos guardas do palácio pronuncia, diante da luta pelo poder de forma criminosa e escandalosa, uma das frases teatrais mais famosas: “Há algo de podre no reino da Dinamarca” (something is rotten in the state of Denmark). Caso o dramaturgo voltasse a escrever a peça hoje tendo nosso país como cenário, o conluio do cartel de empreiteiras com a Petrobras, o governo e a aliança partidária que aí está escancarado, certamente a sentença seria atualizada para “há muito de podre no governo brasileiro”.

Bem, imaginamos que os nossos leitores não têm tempo ou aptidão para o tema ou leituras de balanços contábeis, mas deve-se salientar que a desvalorização de ativos foi de R$ 44,6 bilhões e os pagamentos desviados para terceiros de má fé na ordem de R$ 6,2 bilhões, entre outros descaminhos generalizados. Como a Petrobras é cotada nas bolsas internacionais, sabe-se que esses prejuízos alcançam, entre US$ 17 bilhões e US$ 20 bilhões, dependendo da taxa de câmbio.

Temos assim, a confirmação auditada da saída desses recursos, mas quem os recebeu está pendente da investigação em curso, já se sabendo que grande parte da quantia foi utilizada no financiamento à campanha presidencial de 2014, além das demais envolvendo o mesmo partido.

Outra frase marcante da tragédia é “ser ou não ser; eis a questão” (to be or not to be; that is the question). Assim, diante dos crimes, agora tão bem constatados, levanta-se a dúvida na sociedade sobre o impedimento ou renúncia no Planalto. Coitado do país que em tão pouco tempo tem de recorrer a este artigo constitucional outra vez. Democrático é aquele que tem uma constituição que estabelece estas alternativas.

*Paulo Gurgel Valente é economista e sócio fundador da Profit Projetos

2 Opiniões

  1. Adauto Simplicio de Castro disse:

    Porque o governo brasileiro esta do lado dos criminosos? pois todos os policos e todas a justiça do brasil São os piores bandidos. e eles não irão criar a pena de morte que
    servir pra eles mesmo

  2. Renato Fregapani disse:

    Se é para lembrar Shakespeare, prefiro Ricardo III que no Brasil diria: “Um jegue. um jegue, a República por um jegue”.

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