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PEGADA ECOLÓGICA

Hábitos de consumo e o impacto ambiental

Ações cotidianas podem afetar o ecossistema muito mais do que imaginamos, segundo a escritora holandesa Babette Porcelijn

Hábitos de consumo e o impacto ambiental
Estima-se que mais de um terço da comida produzida não chega até o prato do consumidor (Foto: Flickr/jbloom)

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Ao jogar lixo no chão ou andar de carro em trajetos curtos, estamos poluindo o meio ambiente. Porém, o que raramente paramos para pensar é que o fato de ler um livro, ver um filme, comprar uma roupa nova ou, simplesmente, comer um pedaço de carne também afeta o ecossistema no qual estamos inseridos.

É o que a designer e escritora holandesa Babette Porcelijn explica no seu livro “Hidden Impact” (Impacto Oculto, em tradução livre), que reúne resultados de um vasto estudo sobre como as menores das nossas ações impactam diretamente no meio ambiente. Além disso, Porcelijn ainda dá dicas para reduzir os impactos das escolhas cotidianas, sem que seja necessário mudar radicalmente os hábitos de vida.

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Por exemplo, uma simples calça jeans pode estar relacionada a utilização de 10.000 litros d’água (o que seria útil em 200 banhos de aproximadamente seis minutos). Outros fatos, como o impacto de um notebook no meio ambiente, ou como a forma escolhida para locomoção afeta o ecossistema também estão reunidos no livro.

A escritora notou que apenas 29% do impacto que causamos no meio ambiente é visível, enquanto 71% é oculto. Para chegar a essa conclusão, ela levou em conta todos os fatores dos produtos consumidos no cotidiano, desde a extração da matéria-prima para a sua criação, até o meio de transporte e a maneira como são descartados após a utilização.

No caso da bateria do celular, por exemplo, pensamos na energia elétrica gasta para carregá-la, mas não sobre a mineração dos materiais, ou na quantidade de água usada no processo. “O maior impacto ambiental não é causado exatamente pelos carros que dirigimos ou pelo ar-condicionado das casas e, sim, por produtos que consumimos – livros, eletrônicos, roupas, alimentos”, conta a escritora.

Porcelijn revelou que, apesar de ser especialista na cadeia produtiva de produtos industrializados, não entendia completamente como o seu estilo de vida impactava o meio ambiente. A revelação surgiu após uma conversa com o marido no sofá de casa a respeito da emissão de enxofre.

“Ele me contou que os 16 maiores navios porta-contêineres do mundo, juntos, emitem a mesma quantidade de enxofre que todos os carros que circulam no mundo! E que perdemos cerca de 27 milhões de árvores por dia por causa do desmatamento. Isso mudou minha maneira de ver nosso impacto ambiental, porque eu achava que estávamos fazendo um ótimo trabalho, pelo menos aqui na Holanda”, explica a autora.

No estudo, Porcelijn buscou levar em consideração todos os processos, desde a fabricação até o fim da vida útil de diferentes produtos. Além disso, a ela tentou calcular o impacto do uso da água e da terra, o desmatamento, a mineração de matérias-primas, emissões de gases de efeito estufa, uso de combustíveis fósseis, esgotamento de recursos naturais, perda da biodiversidade e a produção de lixo.

“O que eu quero fazer é monitorar todo o sistema e incluir todo tipo de impacto. Não só no clima, mas também na natureza, na biodiversidade, todo tipo de poluição. Eu não conseguia encontrar esses dados em lugar nenhum, o que achei muito esquisito. Quando eu procurei especialistas, eles me disseram que nenhum método científico atual inclui todos os tipos de impacto. Mas como podemos superar o maior desafio dos nossos tempos se não conseguimos investigá-lo de verdade?”, questionou Porcelijn.

Para calcular o impacto da carne, a escritora levou em conta a produção de alimento para o gado e o desmatamento causado para o pasto. Enquanto isso, para saber o quanto um carro prejudica o meio ambiente, Porcelijn incluiu também a poluição causada pela mineração dos metais utilizados.

Diminuindo o impacto

O estudo revelou que frutas e legumes em conserva, ou transformados em molho, podem ter menos impacto ambiental do que os frescos. Isso porque, como o impacto na produção de vegetais é pequeno, o maior problema é devido ao desperdício feito desde o momento da colheita até chegar ao consumidor.

“Perder um tomate tem um impacto muito mais negativo do que comprar tomates embalados. A embalagem, na verdade, se não for excessiva, pode ser boa, se considerarmos que ela impede a perda”, explicou Porcelijn.

Estima-se que mais de um terço da comida produzida não chega até o prato do consumidor, com frutas, legumes e verduras somando 50% de perda durante as colheitas. Exatamente por isso que Porcelijn defende os produtos em conserva, pois são feitos com alimentos frescos assim que colhidos e, dessa forma, têm menos desperdício.

Mas não são apenas durante as colheitas ou em supermercados que ocorrem os desperdícios de alimentos. Na casa do consumidor, diferentes produtos passam da validade na geladeira, ou são descartados como restos após a alimentação. Evitando esse desperdício, a pegada ecológica humana diminuiria cerca de 15%.

Já se tratando dos meios de transporte, os resultados surpreenderam, visto que as viagens longas de avião se mostraram bastante nocivas ao meio ambiente. Os carros poluem mais por quilômetro, mas a possibilidade de viajar de avião aumentou as distâncias que percorremos e, por isso, se tornou mais impactante ao ecossistema.

Uma viagem de 110 km de bicicleta não causa nenhum impacto ambiental em níveis de emissão de CO2, enquanto uma viagem de 650 km de trem é equivalente ao plantio de 8 árvores para compensar o impacto ambiental. Já num trajeto de 650 km de carro, são necessárias 17 árvores. Por outro lado, uma viagem de 5.200 km de avião exige o plantio de 143 árvores como compensação.

“Nas férias, viajamos muito de bicicleta. É uma aventura incrível e nossos filhos também adoram. A família ficou mais próxima”, revelou a holandesa.

Se tratando do consumo de comidas e roupas, Porcelijn explicou que procura comprar tudo de segunda mão, inclusive roupas, para diminuir o impacto ambiental. Além disso, a escritora disse que deixou de comer carne, além de não ter carros e evitar ao máximo pegar avião, apenas usando o meio de transporte quando as viagens são longas e o custo-benefício é melhor para o ecossistema, como foi o caso do trajeto Holanda – São Paulo, quando a holandesa visitou a cidade para participar do evento What Design Can Do (“O que o design pode fazer”, em tradução livre).

Levando em conta que as pessoas, atualmente, vivem como se tivessem recursos de 1,6 planeta Terra, em 2050, quando a população terrestre será de cerca de 10 bilhões de humanos – segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU) -, caso os hábitos de consumo não mudem, serão necessários 4,3 Terras para sustentar o estilo de vida.

No caso do Brasil, a população vive como se tivesse 1,8 planeta Terra, consumindo mais recursos do que a média mundial. Por isso, o ideal seria que o impacto ambiental no país fosse reduzido pela metade do que é atualmente.

Para isso, quem quiser fazer mais do que apenas economizar, Porcelijn aconselha a compostagem, plantio de árvores, investimento em energia renovável e apoio financeiro a organizações ambientais.

“O truque é: mesmo que você ainda faça tudo o que normalmente faz, faça menos. Por exemplo, pode comer a metade de uma porção de carne, e não essas enormes. Ou não comer todo dia, mas só uma vez por semana. Depois de começar a adotar essas reduções, pode escolher opções que tenham menos impacto. No caso da carne, por exemplo, a bovina tem o maior impacto. Frango já seria melhor”, afirmou Porcelijn.

Até mesmo a escolha das roupas pode diminuir o impacto ambiental gerado no planeta. Por exemplo, as peças sintéticas são produzidas de maneiras menos poluentes, mas durante a lavagem, elas liberam microplásticos na água. “Se você sabe que determinado tecido é produzido de maneira menos poluente, ótimo. Mas é melhor comprar menos roupas, do que simplesmente mudar para roupas orgânicas”, ressalta a autora.

Apesar das ideias de ter hábitos menos prejudiciais ao ambiente ainda soarem elitistas, visto que produtos orgânicos e sustentáveis normalmente são mais caros, Porcelijn explica que as classes mais ricas consomem mais por ter condições melhores para comprar e, por isso, devem ser mais atentas aos impactos ambientais. “Tento dizer quais mudanças seriam as mais eficientes. Mas não julgo o comportamento das pessoas. Só acho que não temos tempo a perder”, finalizou Porcelijn.

Fontes:
BBC - Como entender (e diminuir) o impacto dos seus hábitos no meio ambiente, de roupas a comida

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1 Opinião

  1. Laércio disse:

    Se unirmos tudo que há no mundo os impactos ainda serão menores do que o da produção de proteína animal.
    Para produzir um quilo de carne são gastos um mínimo de 12000 litros dágua; florestas são derrubadas para dar lugar a pastos e, consequentemente acabam as nascentes; a produção de tal proteína aumenta a concentração de renda haja visto que o empreendimento necessita de capital altíssimo e, somente “JOESLEYs” com BNDES detém tal poderiu.
    Não podemos fazer nada contra tal sistema cujas raízes do interesse “atingem Marte”… Todavia a população pobre deveria procurar se informar, porque em uma simples mudanças de hábitos podem gerar uma economia de até 70% de suas necessidades gerais, começando pelo consumo de carne apenas uma vez por semana… Carne deve ser igual cerveja, deve para entretenimento, o consumo diário trará problemas na unidade familiar e num todo da nação.

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