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ECONOMIA

Ilan Goldfajn no Banco Central

Talvez virar a página da economia seja pouco para controlar a 'nova matriz econômica'

Ilan Goldfajn no Banco Central
Ilan Goldfajn, um dos mais fortes candidatos indicados à presidência do Banco Central (Foto: YouTube)

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Um dos mais fortes candidatos indicados à presidência do Banco Central, Ilan Goldfajn enfatizou, em palestra esta semana no Rio de Janeiro, que a política derivada da nova matriz econômica – “podemos expandir os gastos sem controle porque um dia a coisa se ajeita pelo próprio crescimento econômico” – foi a causa principal dos problemas econômicos que, em dramático resumo, quebraram o país.

O termo nova matriz econômica não foi só colocado em discursos ocasionais da boca pra fora, mas constou de artigos técnicos, inclusive dos atuais ocupantes dos postos de comando da economia. Saímos de um superávit primário positivo de 4% do PIB para 2% ou 3% negativos, um percurso de afogamento continuado em que o governo não reconheceu o problema durante a expansão do déficit, de mais de R$ 111 bilhões em 2015, três vezes maior que o déficit que interessava no ano eleitoral de 2014. Trata-se da fórmula de manter o projeto autoritário de poder em que os fins justiçam quaisquer meios, mesmo que ilegítimos.

Por que não é possível gastar “como se não houvesse amanhã”? É muito simples: os excessos aumentam a dívida pública, que não pode ser crescer indefinidamente, levando ao risco de não ser assimilada pelos credores e o governo tornar-se inadimplente.

Goldfajn reafirma a gravidade da responsabilidade fiscal, visto que não é possível combinar ideologia com aritmética, ainda que a economia do país não seja exatamente igual a um orçamento familiar ou empresarial. Uma afirmação inédita do palestrante é de que o congelamento do preço da gasolina foi o pior problema para a Petrobras – até mais grave do que a Lava Jato – e para o Rio de Janeiro, que ficou viciado nos royalties do petróleo.

O ritmo inflacionário, tendo chegado a elevados 11% em 2015, tornou mais difícil o retorno a níveis aceitáveis, seja por conta do mecanismo da inércia inflacionária de preços administrados ou ainda pela aceitação dos reajustes. Muito embora a inflação esteja cedendo por conta da gravidade da recessão, acredita-se que estejamos agora no nível de 9%, com a expectativa de se alcançar os 7%, ficando próximo da faixa superior da meta do Banco Central em 2017.

Goldfajn foi ainda bastante objetivo em apontar as três medidas que para ele seriam indispensáveis para a economia brasileira:

(1) Criar um limite para os gastos públicos, talvez um percentual do PIB, de forma que as reformas em geral se subordinem a alcançar estas metas. É claro que as reformas não surtirão efeitos no curto prazo, mas servem como um importante sinal de que há uma solução, um alívio, e de que ela está a caminho.

(2) Aumentar a idade mínima da aposentadoria para 65 anos, bem acima do intervalo atual de 50-55 anos, criando um mecanismo de transição para quem já estivesse próximo deste novo limite.

(3) Desvincular os gastos públicos do salário-mínimo, uma vez que sua regra de correção pela inflação passada e crescimento do PIB está acima da produtividade, não obstante o PIB ter registrado nos últimos três anos valores negativos. Os políticos e a opinião pública não vão aceitar mudanças drásticas, por conta da importância de se manter o ganho real do salário-mínimo e de outros programas sociais.

Além destas três medidas, seria fundamental uma reforma trabalhista que conferisse maior flexibilidade aos acordos entre empregadores e empregados, para superar o desemprego severo, bem como a reforma tributária, haja vista a grande confusão de impostos e distorções entre os estados. O próximo governo poderá ainda desenvolver estímulos às privatizações, grande parte denominada concessões.

Um aspecto positivo é que a crise não passa pelo aspecto cambial, característica de quase todas as convulsões passadas, inclusive já que a balança comercial vem dando resultados positivos, em parte pelo crescimento da exportação e muito pela drástica redução da importação pela recessão. O reajuste do câmbio também veio  promover uma redução do custo unitário do trabalho em dólares, já que as nossas práticas de reajustes elevaram o custo do trabalho em mais de 20% em relação aos EUA, o que é difícil de compatibilizar para que o país seja competitivo. Não se prevê nenhuma crise cambial, a menos que no curto prazo surja (ou ressurja) um candidato populista que faça a multidão correr através de uma porta muito estreita em direção a ativos mais estáveis.

Quanto ao desemprego, mesmo com as reformas, ainda terá efeitos dolorosos, pois no primeiro ano de demissão, o desempregado ainda vive com o valor da indenização, mas esta acaba sendo consumida rapidamente.

Talvez virar a página da economia seja pouco, vai ser necessário abrir um livro inteiramente novo.

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