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SANTA CATARINA

Insegurança obriga Feira do Livro a cancelar presença de Miriam Leitão

Organização cancelou a presença da jornalista e do sociólogo Sérgio Abranches após uma série de ameaças. Episódio expõe a escalada da censura no país

Insegurança obriga Feira do Livro a cancelar presença de Miriam Leitão
Após o cancelamento, Leitão e Abranches receberam apoio pelas redes sociais (Foto: Montagem/Redes Sociais)

A 13ª Feira do Livro de Jaraguá do Sul (SC), que ocorre no próximo mês de agosto, cancelou, na última terça-feira, 16, a presença da jornalista Miriam Leitão e do sociólogo Sérgio Abranches no evento. O motivo seria um abaixo-assinado com mais de 3,4 mil assinaturas contrário à participação dos convidados.

O documento, que foi enviado à organização do evento, falava em nome do “povo jaraguense”. Os ativistas apontavam o “viés ideológico e posicionamento” dos convidados para “repudiar” a presença deles na Feira do Livro. Devido ao cenário de insegurança, os organizadores da feira do livro se viram obrigados a cancelar o convite.

“Logo depois que anunciamos [os nomes], recebi ligações, mensagens e comentários nas redes dizendo que os dois seriam recebidos com ovadas. É a primeira vez que isso acontece em 12 anos de evento”, afirmou o coordenador geral do evento, João Chiodini, em entrevista ao Globo.

As últimas edições da Feira do Livro, que é gratuita, contaram com participantes de diferentes posições políticas, desde o cantor Lobão até a filósofa e escritora Marcia Tiburi, que foi candidata ao governo do Rio de Janeiro pelo PT em 2018.

Em entrevista ao Globo, Miriam Leitão revelou que participaria de um evento chamado “Biblioteca Afetiva” juntamente com Abranches. No entanto, conforme apontou a jornalista, “a intolerância foi mais forte, desta vez”. No entanto, essa não foi a primeira vez que Miriam Leitão foi vítima de ataques verbais ou ameaças. Em junho de 2017, a jornalista foi hostilizada por eleitores do PT durante um voo.

O sociólogo Sérgio Abranches, por sua vez, se posicionou pelas redes sociais. Ele compartilhou um trecho de um poema de Berlot Brecht (1898-1956), intitulado “Aos que virão depois de nós”.

“Realmente, vivemos tempos muito sombrios! (…) Aquele que ri ainda não recebeu a terrível notícia que está para chegar. Que tempos são estes, em que é quase um delito falar de coisas inocentes. Pois implica silenciar tantos horrores!”, compartilhou Abranches.

Falando ao portal NSC Total, Carlos Schroeder, coordenador artístico do evento, classificou como “vergonha” o cancelamento do convite à Miriam Leitão pela falta de segurança.

“Eles participariam da mesa de debates Biblioteca Afetiva, falando como construíram a formação como escritores, como jornalistas. São pessoas muito sensíveis e ligadas à literatura. Pessoas que leem muito. Os veículos de comunicação da cidade noticiaram e começou uma enxurrada de comentários nas redes sociais e nos celulares da equipe da feira. Eram 600, 700 comentários, falando em matar, em jogar ovos. Ameaças à integridade física dos convidados, em uma proporção assustadora”, contou Schroeder.

O caso expõe a ascensão da censura e da liberdade de expressão no Brasil, que já ocorre há anos. Um estudo da organização Repórteres sem Fronteiras (RSF) colocou o país, em 2018, na 105ª posição, entre 180 nações, em relação à liberdade de imprensa. Já um levantamento da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) destacou o perigo de atuar como jornalista no Brasil.

Além de Miriam Leitão, o recente caso das divulgações dos supostos diálogos entre o coordenador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, e o ministro da Justiça, Sérgio Moro, também colocou o jornalista Glenn Greenwald como alvo de graves ameaças, inclusive à sua família.

Ambos os casos, que aconteceram apenas no último mês, e reúnem ameaças diretas aos jornalistas, expõem a crescente censura promovida por uma parcela da sociedade brasileira. As acusações contra a imprensa são chanceladas por membros do governo. Nas redes sociais, não é incomum ver ameaças e críticas de eleitores de extrema-direita quando o conteúdo divulgado diverge de sua posição política.

O empresário Luciano Hang, famoso eleitor bolsonarista, celebrou o cancelamento da participação de Miriam Leitão na Feira do Livro. Pelas redes sociais, o empresário afirmou que os brasileiros estão “cansados de escutar abobrinhas”, destacando que a jornalista faz “costumeira doutrinação esquerdista”.

“Foram muitos anos de pregação, que não deram certo e o povo acordou. Vai ser difícil para esse pessoal ficar andando pelo Brasil falando aquilo que não é a realidade”, escreveu Hang em seu perfil no Instagram.

Apoio à Miriam Leitão

Nas redes sociais, milhares de pessoas, entre jornalistas, políticos e eleitores, se uniram em apoio à Miriam Leitão e ao sociólogo Sérgio Abranches. O ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso usou o Twitter para lamentar o cancelamento da presença dos palestrantes no evento em Santa Catarina.

“A intolerância é inaceitável. As ameaças a Miriam Leitão e Sérgio Abranches em uma festa literária mais que entristecem: são inaceitáveis e envergonham os que acreditamos na liberdade como base da convivência. Discórdia faz parte do jogo democrático, impedir a voz, não”, escreveu o ex-presidente.

Diferentes jornalistas, como Rubens Valente e Daniele Lima, da Folha de São Paulo, Leonardo Sakamoto, do Uol, Marco Antonio Villa, ex-Jovem Pan, usaram as redes sociais para lamentar a decisão da Feira do Livro.

“Liberdade de expressão não acaba da noite pro dia. Antes é censura ali, demissão acolá, filme que não entra em cartaz, palestra cancelada, rojão contra o debate”, escreveu Valente.

“As vítimas do obscurantismo desta vez foram @MiriamLeitaoCom e @abranches , desconvidados de uma feira do livro em SC após protestos de gente que não convive bem com a democracia. Organizadores disseram que não poderiam garantir sua segurança. Um absurdo”, prosseguiu Sakamoto.

“Em defesa de Miriam Leitão e Sergio Abranches. Barbárie x civilização: a feira de livros é em Jaraguá do Sul (SC) e devido às ameaças a participação da jornalista e do sociólogo foram canceladas. Vivemos em uma democracia e não em uma ditadura!”, completou Villa, que gravou um vídeo sobre o assunto.

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5 Opiniões

  1. Antonio Segetto disse:

    “Não é possível ter debate, só entre esquerdistas”, disse o diretor Josias Teófilo. Ele revelou que sua vida ficou “insustentável” em Brasília depois de resolver filmar Olavo de Carvalho. “Grandes festivais disseram que eu não era bem-vindo e que nunca mais eu conseguiria dirigir nada. Esse documentário foi feito com crowdfunding porque seria impossível tentar a Lei Rouanet. Vivemos a tirania da coletividade sobre o indivíduo. Quem está fora desse establishment de esquerda só encontra má vontade no campo do cinema.”

    A patrulha, de esquerda ou de direita, não é só burra, primária e insuportável. É perigosa. Favorece o obscurantismo, a ignorância. Na chamada esquerda brasileira, há grupos numerosos, especialmente no PT, que fazem distinção entre “a censura do bem” e a “censura do mal”. “As ditaduras do bem”, como Cuba e Venezuela, e “as do mal”, de direita. É de uma insensatez frenética e fanática a forma como tantos intelectuais relativizam prisões, torturas, arbitrariedades, corrupção, censura, preconceito sexual, força do Estado… desde que o regime seja de esquerda.

    “Esses cineastas que boicotaram o Festival de Pernambuco conseguem ser piores que Mao e Hitler, que assistiam aos filmes antes de censurar. Leonid Brejnev proibiu um filme de Tarkovski, mas assistiu antes. Esse grupo aí não viu e não gostou”, disse o diretor Josias Teófilo. “O jardim das aflições é muito mais metafísico que político. Fala de Aristóteles e Platão. O documentário traz uma mensagem a favor da individualidade. Discorre sobre a morte. Não tem motivo esse desespero todo. Mandei mensagens simpáticas aos colegas revoltados, agradecendo pela divulgação. Eu não podia pagar assessoria de imprensa.”

  2. Jan foster disse:

    A reportagem fala como se durante os últimos 20 anos não houvessem acontecido milhares de perseguições, boicotes, assassinatos de reputação, e inúmeros atos de obscurantismo a partir de militantes de esquerda contra pessoas não de esquerda. Agora que a esquerda recebe de volta o que plantou ficam choramingando.

  3. Marcus Padilha disse:

    A direita nunca quiz fazer diferente, queria apenas vingança. Não queriam que virassemos uma Venezuela e sim uma Alemanha nazista! Hail Bozo!

  4. Roberto Henry Ebelt disse:

    Arquiteto Marcus Padilha, petista/esquerdista, por supuesto, delirando nos comentários desta página que está desenvolvendo um forte bias esquerdista. É claro que nunca quisemos e nem queremos que o BRASIL vire uma Venezuela. De onde este infeliz tirou esta ideia estapafúrdia???

  5. Nelson Franco Jobim disse:

    Só 10% da humanidade vivem sob regimes que respeitam a liberdade de imprensa. Se não lutarmos pela liberdade de imprensa, ela desaparerá.

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