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TRANSPORTE PÚBLICO

Malandro é o Barata, que assim tem mais lucro

Como Jacob Barata, o ‘Rei dos Ônibus’ no Rio de Janeiro, catapulta fortunas originárias de passagens e mudanças no contingente de coletivos

Malandro é o Barata, que assim tem mais lucro
Reportagem do 'Globo' de 1985 denunciou esquema nos coletivos (Foto: EBC)

Poderia ser o início de uma reportagem sobre o calvário diário de quem usa o transporte público no Rio de Janeiro para ir trabalhar, estudar ou farrear, que ninguém é de ferro: “A viagem, como era de se prever, foi desagradável. O ônibus atrasou, como sempre, e veio apinhado”.

Mas estas são na verdade as primeiras palavras do romance policial A morte de Rimbaud (Companhia das Letras, 2000), do filósofo petropolitano de nascimento e carioca de coração Leandro Konder. Esta única aventura de Konder no terreno da narrativa ficcional — à exceção do conto Um Ordálio Carioca, publicado na coletânea A Cidade de Cada Um (Civilização Brasileira, 1963) — começa com a chegada do detetive Sdruws, depois de um itinerário de suplícios desde a capital,  a uma cidade fictícia do interior, onde começaria a investigação de um misterioso assassinato. Antes dos deveres do ofício, porém, Sdruws se põe a tentar desvendar os assombrosos mistérios do cotidiano:

“Nas duas viagens anteriores que fiz para vir à Guariroba, o ônibus também estava lotado. É evidente que a demanda não se satisfaz com uma única viagem diária de ida e volta entre a capital e a Guariroba. Por que a empresa concessionária não faz um pequeno investimento, com certeza lucrativo, e põe outro ônibus no serviço, programando mais uma viagem? Depois da segunda experiência, procurei me informar e soube que a empresa pertence a uma família de crápulas que prefere especular e investir tudo em operações financeiras, o que dá muito mais dinheiro do que a concessão para explorar a linha de ônibus”.

Como o livro foi publicado há mais de 15 anos, e tendo Leandro Konder morrido em novembro de 2014, não há realmente hipótese de esta tipificação tão ácida do dono de uma empresa de ônibus ter sido fruto do conhecimento da informação, que só veio a público em 2015, graças ao SwissLeaks, de que 31 sócios, integrantes de diretorias e empresários ligados a empresas de ônibus do Rio tinham US$ 38,2 milhões aplicados em contas secretas do HSBC na Suíça entre os anos de 2006 e 2007. 

O ‘Open’ e o 390

Só Jacob Barata, o “Rei dos Ônibus” no Rio de Janeiro, senhor de mais de 6 mil coletivos que circulam na cidade e região metropolitana, tinha US$ 17,6 milhões depositados em uma conta conjunta com sua esposa e filhos em Genebra, e movimentada por uma offshore de nome Bacchus Assets Limited, com sede no paraíso fiscal de Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas.

É possível, entretanto, que aquela caracterização literária da alavanca com a qual empresários costumam catapultar fortunas originárias de passagens de ônibus tenha começado a ser construída com a leitura, por Konder, do jornal Globo do dia 28 de março de 1985, edição que trouxe uma denúncia de João Santos Nogueira, vice-presidente do Sindicato dos Rodoviários do Rio, sobre como Jacob Barata descumpria sistematicamente um acordo firmado quatro anos antes com o sindicato para o pagamento semanal, e não mensal, dos motoristas e cobradores:

“Na verdade, o pagamento vem sendo feito mensalmente, mas motoristas e cobradores são obrigados a assinar um documento, como se tivessem recebido o salário por semana. É claro que ele faz isso para aplicar o dinheiro no Open e ninguém denuncia, porque existe um medo coletivo de perder o emprego”.

Na mesma edição do Globo, funcionários da empresa Viação Amigos Leopoldinense acusavam Barata de mandar a maioria dos ônibus só rodar na hora do rush, mais lucrativa. E informava ainda, o jornal:

“Jacob Barata é acusado também por passageiros de colocar à disposição do público um reduzido número de ônibus da linha 398 (Campo Grande-Largo de São Francisco), cuja passagem custa Cr$ 1.300”.

“No entanto, segundo a denúncia, ele aumenta o contingente de coletivos no mesmo horário na linha 390 (Santa Cruz-Largo de São Francisco), com a passagem a Cr$ 1.700, que passa pelo ponto final dos coletivos da outra linha. Com pressa de chegar em casa e cansados de aguardar o 398, muitos passageiros acabam usando o ônibus mais caro, objetivo de Jacob Barata, que assim tem mais lucro”.

Como epígrafe do primeiro capítulo de A Morte de Rimbaud, Leandro Konder escolheu uma frase de uma personagem de Shakespeare que bem poderia ser o verso de um samba natural do Rio de Janeiro; um samba sobre o sentimento do carioca ao subir, uma vez mais, em um ônibus apinhado e quente no dia da entrada em vigor de mais um aumento da passagem: “Meu coração suspeita que há algo mais do que meus olhos podem enxergar”.

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4 Opiniões

  1. helo disse:

    Triste ver onde estão os governos.

  2. Almanakut Brasil disse:

    PF prende empresários de ônibus suspeitos de pagar propina no RJ – 03/07/2017

    Empresários de ônibus são acusados de pagar mais de R$ 260 milhões em propinas, em troca de vantagens na tarifa e em linhas de ônibus.

    http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2017/07/pf-prende-empresarios-de-onibus-suspeitos-de-pagar-propina-no-rj.html

    No Rio de Janeiro, sete ônibus são incendiados

    tvbrasil – 15/05/2015

    https://www.youtube.com/watch?v=c88IUDaTXTI

  3. laercio disse:

    O barata assim como a maior parte dos empresários e políticos brasileiros pegaram a cristã da onda que tem como jargão “o mundo é dos espertos”; não montaram seus impérios com trabalho e sim se aproveitando de uma população leiga é um poder público que tem muitos dos seus integrantes apatridas não compromissados com o termo nação; aliás,a maior parte de nossa autoridades sejam empresários, legisladores e políticos trabalham com critérios técnicos desconsiderando uma população vítimas durante anos. Lamentavelmente nossas instituições superiores de ensino não trabalham com a ética mas sim com uma parte técnica que coloca o lucro na frente do homem.

  4. Markut disse:

    Aprende-se todos os dias: A variante de “Entre a terra e o céu, há mais coisas do que a nossa vã filosofia possa imaginar.

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