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ELEIÇÕES 2018

Maremoto Bolsonaro: ‘a onda que me carrega, ela mesma é quem me traz’

Democracia liberal padece do vazio de concretude para conceitos como Democracia, Justiça e Direitos Humanos

Maremoto Bolsonaro: ‘a onda que me carrega, ela mesma é quem me traz’
Maremotos não se formam assim, digamos que quando bate mais forte um sudoeste (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

“Uma coisa chamada internet, que abre os olhos da gente”. É a ela, à internet, que Lucia Helena Ribeiro Pinto, 47 anos de idade, atribui sua guinada política pessoal e radical: de eleitora assídua do PT até a primeira eleição de Dilma Rousseff (“Eu tinha bottom, bandeira, ia em passeata na Cinelândia e na Candelária. Vermelho era minha cor preferida”), de petista de carteirinha, portanto, passou a ser eleitora e militante de Jair Bolsonaro. Lucia Helena é uma das sete figuras de uma mesma família do Rio de Janeiro, todas adeptas do bolsonarismo, que explicaram à revista Piauí as razões dessa adesão, expostas numa longa reportagem publicada na última segunda-feira, 15, e intitulada “Os formadores da onda”.

O sopro que formou a onda que está prestes a arrebentar no Brasil vem, é certo, do alto mar de insatisfações no seio do povo que têm sido muito mal abordadas pelo que ora é chamado de “velha política”, e pelo que desde há muito nos acostumamos a chamar de “formadores de opinião”. Ou, tomando emprestadas as palavras de um ex-candidato à presidência da República (na introdução de um livro acerca da essência do fascismo), falamos aqui sobre a apropriação, pela “opinião pública”, de elementos subjetivos através dos quais “os seres humanos em cada época tomam consciência das contradições do real e lutam para resolvê-las”.

Ou ainda como explana um bocado simploriamente (mas não sem alguma didática para quem está atento às lições que os revezes costumam proporcionar) uma outra personagem daquela família sobre a qual a Piauí se debruçou, referindo-se à entrevista de Jair Bolsonaro no programa Roda Viva, em julho passado: “Eu sou dona de casa, estava doida pra saber como ia ficar aposentadoria, saúde, educação das crianças, e aí o pessoal pergunta sobre negro, escravo, coisa de 1964. Eu não era nem nascida naquela época”.

Ondas, talvez. Maremotos, porém, não se formam assim, digamos que quando bate mais forte um sudoeste. Para explicar o que a jornalista Miriam Leitão chamou de “tsunami conservador” que atingiu o primeiro turno das eleições desse ano no Brasil, portanto, talvez seja o caso verificar (além das colunas da Míriam Leitão) o que, ou quem, vem manejando a mais subterrânea tectônica da política neste país sem sismos de maiores magnitudes e cujos desastres nunca são totalmente, digamos, “naturais”.

Leva o título “Sua tia não é fascista, ela está sendo manipulada” um texto que tem circulado veloz na internet brasileira nesses dias de trovão. Manipulada, a tia como a família inteira, pela via da atual e notória disseminação viral de notícias nada menos que falsas, sem dúvida. Mas também via açulamento, com ou sem “fake news”, dos piores preconceitos sobre a política, e sobre tudo mais, que grassam no senso comum dos brasileiros; que ganham impulso no assombroso vácuo de senso crítico diante, por exemplo, das mais flagrantes apologias a crimes contra a humanidade, o que significa no vazio de concretude, forma, dimensão para conceitos como Democracia, Justiça e Direitos Humanos.

‘Especialista em teorias da conspiração’

Democracia, Justiça e Direitos Humanos. São conceitos civilizatórios fundamentais, mas que tendem a repercutir como abstrações “esquerdopatas” onde repercute mais forte, isto sim, o apelo exacerbado, o culto mesmo à razão prática, vertente para grandes marchas para trás: ali entre quem tem visto seus problemas bastante reais, cotidianos, como a violência urbana, serem tratados no âmbito da política “tradicional” no mais das vezes à base da mais delirante desconexão com a realidade da vida lá fora; ali entre quem está farto de um Estado absolutamente incapaz, porque crivado de contradições a cada dia mais tensionadas, de pôr na rua políticas públicas “sustentáveis”, para usar uma palavra da moda, em benefício da maioria da população — políticas públicas minimamente eficazes contra aqueles problemas que costumam aparecer no topo dos rankings do que mais infelicita, aflige o coração da massa.

“O que estamos vivendo é o capítulo brasileiro da derrocada da democracia liberal. A base do arranjo – participação política reduzida, um eleitorado decidindo a partir de informação mínima – é simplesmente incapaz de sobreviver ao whatsapp”, observou o professor de Ciência Política na UnB Luis Felipe Miguel. Ao whatsapp e – é possível acrescentar, de maneira mais ampla – ao manejo de algoritmos, de bolhas, de material audiovisual de propaganda política apresentando como fatos todo um repertório de mentiras.

É precisamente esse, ou seja, “uma coisa chamada internet, que abre os olhos da gente”, o metiê de Steve Bannon, ex-membro da diretoria da famigerada Cambridge Analytica, ex-chefe de redação do site de extrema-direta americano Breitbart, “especialista em teorias da conspiração”. Em agosto desse ano, Bannon esteve com Eduardo Bolsonaro, a quem “se colocou à disposição para ajudar” na campanha presidencial de Bolsonaro pai. Em 2014, esteve na vitoriosa campanha presidencial de Donald Trump, na condição de “estrategista-chefe” nos esforços para ganhar os corações sempre aflitos de um eleitorado do qual parte nada desprezível acredita que as bebidas lácteas achocolatadas são produtos feitos a partir do leite de vacas marrons. Porque eleição, como se sabe, rima menos com razão e mais com emoção.

Pode ser, portanto, que atenda pelo nome de Steve Bannon a chacoalhada tectônica que formou o maremoto político do bolsonarismo na reta final da campanha do primeiro turno (com a quase vitória de Bolsonaro logo de cara, as disparadas de Witzel e Zema no Rio e em Minas, e com o PSL curtindo sua Oktoberfest particular na condição de recordista de votos no Brasil), em vez de uma onda conservadora previsível, mas sem mover tanta energia, nessas areias onde nasceu a linda Iracema dos lábios mel.

Quem navega os votos é o mar, ou melhor, o Ocean

Nesta terça-feira, 16, Jair Bolsonaro agradeceu, via Twitter, o apoio que recebeu do primeiro-ministro da Itália, Matteo Salvini, que no dia seguinte ao primeiro turno das eleições no Brasil saudou, também via Twitter, os “novos ares” que se anunciam no Brasil, com direito à hashtag #gobolsonaro. Salvini é um grande entusiasta da ideia de Steve Bannon de formar uma articulação internacional de políticos de extrema-direita sob o nome “O Movimento”. Em recente entrevista à Bloomberg, Bannon, falando de toda essa movimentação, citou Bolsonaro e “o que está acontecendo no Brasil”.

Em março desse ano publicamos nesse Opinião e Notícia um artigo sobre o uso, pela Cambridge Analytica, e na campanha de Trump, de um modelo de “medição” das tendências de ação, reação e atuação dos indivíduos, extraído das ciências comportamentais e batizado de Big Five, porque tem como base o que seriam os cinco fatores da personalidade do ser humano, ou os cinco que interessam a empreitadas desse tipo.

São eles: “abertura” (o quanto o indivíduo é afeito a novas experiências); “consciência” (o nível de perfeccionismo do sujeito); “extroversão” (em que ponto o cara está entre uma criatura social ou antissocial); “amabilidade” (o quanto se é solidário e disposto a cooperar com outras pessoas); e, por fim, “neuroticismo” (o grau de estabilidade/instabilidade emocional do cabra).

Dizíamos, naquele artigo de março:

“Em inglês, as iniciais das cinco palavras que são os cinco fatores de análise do Big Five formam o acrônimo Ocean. Se o sambista já dizia que ‘não sou eu quem me navega’, quem ora navega as democracias ocidentais parece ser também o mar, ou melhor, o Ocean, cujos milagres de Iemanjá estão à venda para os pleiteantes a timoneiros das nações, com garantia de precisão de bússola das marés eleitorais, influenciando, assim, de posse dessas informações, e como vento, o sol e a lua, o próprio movimento das águas”.

A Cambridge Analytica foi para o brejo, após o escândalo da ilegal “mineração”, por assim dizer, de dados de usuários do Facebook. Mas os milagres de Iemanjá, ou melhor, de Steve Bannon, ainda estão à venda para os candidatos a timoneiros desse mundo, ou mesmo, pelo visto, para mais rasos capitães de artilharia. Esses milagres, quem diria, não têm grandes mistérios. A rigor, é um só, e é esse: “A onda que me carrega, ela mesma é quem me traz”.

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2 Opiniões

  1. Marisa Motta disse:

    Ótimo artigo. Parabéns Hugo.

  2. Aureo Ramos de Souza disse:

    Esta matéria diz tudo e o que nos mostra é que os brasileiros desejam mudança e a mudança que encontraram é justamente o Maremoto Bolsonaro. A prova está nas eleições a mudança que foram feitas em todos os Estados de nosso País.

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