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TRAGÉDIA HISTÓRICA

Mariana é inesquecível

Como esquecer um dos maiores desastres ambientais do país, cujos impactos social, ambiental e econômico podem se estender por mais de 10 anos?

Mariana é inesquecível
Distrito de Bento Rodrigues foi totalmente devastado pelo desastre (Foto: ABr)

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Criada recentemente, a campanha Não Esqueça Mariana visa impedir que a tragédia gerada pelo rompimento de duas barragens da Samarco em Minas Gerais (MG) caia no esquecimento.

Mas como esquecer um desastre que deixou 17 mortos e dois desaparecidos, varreu do mapa dois distritos mineiros, afetou 200 municípios entre Minas e Espírito Santo (ES) e inundou o Rio Doce com 63 milhões de m³ de lama de rejeitos de minério, que dizimou fauna e flora em seu trajeto para o mar?

Mariana entrou para a história como uma das maiores tragédias ambientais do Brasil. A lama de rejeitos ainda segue vazando das barragens e os impactos do desastre podem durar mais de 10 anos. Mariana é inesquecível.

Para ter uma ideia da dimensão da catástrofe, o Opinião e Notícia conversou com o secretário de Meio Ambiente do Espírito Santo, Rodrigo Júdice, e com Leonardo Merçon, presidente e fotógrafo do Últimos Refúgios, ONG capixaba que se dedica a despertar a consciência ambiental através de vídeos e registros fotográficos.

Impacto nas comunidades locais                                                                                                                                                                                                 

Lama passando pela barragem de Mascarenhas-ES (Foto: Leonardo Merçon)

Lama passando pela barragem de Mascarenhas-ES (Foto: Leonardo Merçon)

Para dar seguimento à cobertura dos fatos, o Últimos Refúgios criou o projeto Lágrimas do Rio Doce, que ao longo de um ano realizará expedições ao Rio Doce para acompanhar as consequências do desastre para o meio ambiente e as comunidades ribeirinhas locais. “Nós tentamos sensibilizar as pessoas e aproveitar essa tragédia para criar nelas uma consciência em relação ao quão insustentável está a nossa sociedade.”, diz Leonardo Merçon. O projeto é independente e sem fins lucrativos e se mantém através de doações.

Merçon explica que a princípio não havia uma real dimensão da tragédia e que muitos moradores locais, sem saber dos danos que a lama de rejeito pode causar à saúde, acabaram pegando peixes mortos do rio para comer ou vender. Com os depoimentos, ele espera alertar para o risco. “Temos laudos de secretarias de saúde de cidades às margens do Rio Doce com aumentos de 100% dos casos de diarreia. Entrevistamos a secretária de meio ambiente de Galiléia. Ela disse que está sozinha, não recebe ajuda e tem medo do que as substâncias lançadas na água vão causar às pessoas. E se daqui a um ano ou dois tiver um surto de câncer, ou de problemas neurológicos devido às substâncias que a lama deixou na água?”

Tragédia afeta meio de sustento das populações locais (Foto: Leonardo Merçon)

Tragédia afeta meio de sustento das populações locais (Foto: Leonardo Merçon)

A contradição entre laudos é um dos maiores problemas. Em dezembro, o Serviço Geológico do Brasil (CRPM) e a Agência Nacional de Águas (ANA) divulgaram um laudo conjunto afirmando que a qualidade da água do Rio Doce “pode ser consumida pela população sem riscos”. No entanto, análises independentes feitas por ambientalistas mostram o contrário, o que confunde os moradores locais. Para Merçon, na dúvida, o melhor é não consumir. “Eu não beberia essa água, então como esperar que as pessoas que vivem às margens do Rio Doce deem ela aos seus filhos?”

O desastre também ameaça gerar um efeito dominó na saúde e na economia das pequenas cidades ribeirinhas. “Foram doadas milhares de garrafas d’água, mas as cidades do interior não têm como recolher tanto lixo. Aí os moradores jogam nas ruas um monte de tampinhas, que viram criadores de mosquitos em época de surto de dengue. Além disso, sem pesca, quem vendia anzol, rede ou barco, não vende mais. Quem produz laticínios às margens do rio não consegue mais vender. As consequências vão ser sentidas ainda por bastante tempo”, diz Merçon, afirmando que os dados coletados no projeto serão reunidos e expostos em seminários escolares.

Marinha não libera laudo sobre a qualidade da água                                                                                                                                                       

A ave Carão, uma das que sofre com as mudanças causadas no rio. Fotografado em Aimorés-MG (Foto: Leonardo Merçon)

A ave Carão, uma das que sofre com as mudanças causadas no rio. Fotografado em Aimorés-MG (Foto: Leonardo Merçon)

Após percorrer o Rio Doce, a lama de rejeitos de minério chegou ao mar diluída, em forma de pluma de sedimentos. Essa pluma atingiu cinco praias do ES (Degredo, Pontal do Ipiranga, Barra Seca, Regência, Comboios e Povoação), que foram interditadas, e segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), pode ter chegado a Abrolhos, parque nacional marinho com a maior reserva de biodiversidade de corais do Atlântico.

Rodrigo Júdice afirma que a versão oficial que se tem é que a água causa apenas incômodo e alergia, e diz que no mar não houve a mortandade de peixes registrada no Rio Doce. Porém, ele revela que a Marinha realizou testes apurados da água, usando seu mais moderno navio, o Vital de Oliveira, que conta com laboratórios de análise. No entanto, os dados ainda não foram liberados.

“Para saber do mal que ela pode causar à saúde nós precisamos dos laudos que a Marinha não liberou até hoje. Eles estão de posse da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Foi feita uma coleta sistemática da qualidade da água e a UFES tem esses dados, mas até agora o Ministério da Defesa não liberou.”

Lama chega ao litoral do Espírito santo (Foto: Secom/Governo do Espírito Santo)

Lama chega ao litoral do Espírito santo (Foto: Secom/Governo do Espírito Santo)

Segundo Júdice, por ser muito fina, a pluma não pode ser retirada do mar. “Ela não é espessa como petróleo. É como um achocolatado misturado ao leite. Não há como retirar.”. Mas a maior preocupação, segundo ele, não é a mancha, e sim os sedimentos depositados no fundo do mar que podem comprometer toda a vida marinha primária.

“Nossa preocupação é com a vida marinha primária, aquela que se encontra no fundo do mar: os plânctons e fitoplanctons. São eles que produzem a cadeia primária para outros animais marinhos, os peixes menores comem esses organismos e assim sucessivamente. A pluma tinge cerca de um metro e meio do mar, abaixo disso há água limpa. Já no fundo do mar, há um material mais pesado que se sedimentou. O mesmo material que se sedimentou na foz do Rio Doce. Esse é o elemento que mais nos preocupa a médio e longo prazo.”

Resposta da Samarco é insuficiente

Uma das maiores queixas de Júdice é relativa à postura da Samarco diante da tragédia. Segundo ele, a mineradora age apenas de forma reativa e a multa por descumprimento de exigências da empresa já passa de R$ 1 milhão. A letargia da Samarco obrigou os governos de MG, ES e Federal a entrar com uma ação civil pública que obriga a empresa a criar um fundo privado de R$ 20 bilhões para a contenção dos danos, sendo os primeiros R$ 2 bilhões de depósito imediato e o restante diluído em parcelas pagas até 2025. Porém, a empresa ainda não fez nenhum depósito, nem se manifestou.

“A ação foi proposta tendo em vista que a empresa, até o presente momento, não se manifestou como deveria, nem apresentou um plano de mitigação dos danos a médio e longo prazo. Nossa expectativa é que ela se apresente publicamente para a sociedade e se manifeste favorável à ação. Está nas mãos dela concordar ou não com a saída alternativa que os governos criaram para a recuperação da bacia hidrográfica do Rio Doce. Mas, até esse momento, a gente não viu essa postura da empresa. Não estou dizendo que ela não está fazendo nada, ela vem fazendo análise da água. Mas pela magnitude do dano, o envolvimento deveria ser bem maior. Se compararmos com as ações tomadas por empresas em outros desastres ao redor do mundo, percebemos que a Samarco está distante da realidade vivenciada em outros acidentes.”

Procurada pelo O&N, a assessoria da Samarco não respondeu até o final desta reportagem.

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5 Opiniões

  1. Roberto1776 disse:

    O que se poderia esperar de uma empresa cujo principal acionista é outra empresa cujo controle acionário está nas fétidas mãos do governo petista que nos assola de maneira muito pior há mais de 13 anos?

  2. Áureo Ramos de Souza disse:

    Isso mesmo a Samarco é a responsável mais segundo venho lendo e é subsidiada pela Vale que era nosa e foi vendida. Até quando vamos viver com desgovernos e ainda á quem os defenda, sei o porque dos defensores que asteiam bandeira como os Sem Terra, CUT, CGT que são pago pelo governo do PT. Sempre me pergunto como OS SEM TERRA tem condição de ter BONÉ, CAMISAS, BANDEIRAS, FAIXAS e seus representantes são pessoas que possuem uma dicção melhor que muitos locutores de TV e tem conhecimento profundo pela causa. Digo isso pois acredito que sem terra são pessoas sem estudos e lavradores.

  3. Joaquim Caldas disse:

    Maior impacto social é Lula está com mandato de prisão internacional,pela sacanagem com Portugal,um rombo de 700 milhões.

  4. Markut disse:

    Diante do tsunami de descalabros de toda ordem,que nos acometem, a nossa habitual memória curta,vai acabar apagando da tela do radar um acontecimento trágico como esse, pleno de lições a extrair , quanto á nossa imaturidade institucional,que se reflete no descaso, irresponsabilidade e arraigado sentimento de impunidade.
    E o mau exemplo vem do alto da nossa pirâmide social , esparramando-se para a base desinformada e anestesiada.

  5. jorge cardillo disse:

    A Samarco está demorando para entregar o plano de ações das das barragens ainda intactas porque provavelmente descobriu que estão em condições críticas.

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