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'ESCREVA POR DIREITOS'

Marielle Franco é destaque em campanha global da Anistia Internacional

A campanha global ‘Escreva por Direitos’ mobiliza, através de cartas, apoio a ativistas ameaçados ao redor do mundo por sua luta em prol dos direitos humanos

Marielle Franco é destaque em campanha global da Anistia Internacional
Nesta edição, pela primeira vez, uma brasileira está entre as listadas na campanha: Marielle Franco (Foto: Divulgação/Psol)

A Anistia Internacional lançou nesta quarta-feira, 10, a campanha Escreva por Direitos (Write for Rights), que convida apoiadores dos direitos humanos ao redor do mundo a escreverem cartas de apoio a ativistas de diferentes países, que se encontram ameaçados e em situação de risco, além de cartas para pressionar as autoridades responsáveis por proteger estas pessoas.

Iniciada em 2001, a campanha anual é a maior da organização. Nesta edição, o foco será em mulheres, gênero e em defensoras de direitos humanos. Pela primeira vez, uma brasileira está entre as listadas na campanha: Marielle Franco, vereadora executada a tiros, junto com seu motorista, Anderson Gomes, em uma emboscada na região Central do Rio de Janeiro, em 14 de março deste ano. Sete meses após o assassinato, o crime segue sem solução. A mais recente informação sobre o caso, repassada pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, aponta que foram identificados o tipo biométrico do autor dos disparos e novos locais por onde o carro usado na emboscada passou.

O lançamento da campanha ocorreu na sede da Anistia Internacional, no Rio, e foi acompanhado pelo Opinião e Notícia. Estavam presentes no lançamento a diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, Jurema Werneck; Marinete da Silva e Antonio Francisco da Silva, respectivamente, mãe e pai de Marielle Franco.

Aos jornalistas, Jurema Werneck explicou a escolha de Marielle, a única, dentre as ativistas listadas nesta campanha, que não está mais viva. Werneck explica que, além de buscar proteger ativistas, a campanha também visa apresentar exemplos de forma a inspirar aqueles que se mobilizam. “Marielle Franco foi um forte exemplo neste período eleitoral. Tem sido um forte exemplo para o Brasil. Ela inspira e vai continuar inspirando pessoas no Brasil e no mundo, bem como todas as outras ativistas que estão inseridas nesta campanha”, explica Werneck.

As mensagens são enviadas diretamente. No caso de Marielle, elas podem ser endereçadas à família da vereadora ou ao interventor federal no Rio, o general Walter Souza Braga Netto.

A escolha dos listados em cada ano na campanha são fruto de uma extensa análise da organização. Além das cartas, a campanha disponibiliza no site da Anistia Internacional um Guia de Atividades para Educação em Direitos Humanos, que aborda seis dos dez casos listados na campanha. Educadores podem baixar o material e usar na condução de atividades educacionais dentro e fora da escola. Em 2017, mais de 23 mil educadores tiveram acesso ao guia digital.

A mãe de Marielle, Marinete da Silva, ressalta a importância da campanha na defesa dos ativistas no mundo e alerta para a crescente ameaça aos direitos humanos no Brasil. “É uma campanha que reivindica, não só em relação a minha filha, mas às mulheres que estão sendo ameaçadas a nível mundial. Ter Marielle numa campanha dessas é gratificante para a gente, é mais uma forma de cobrança. Os direitos humanos, hoje, estão vivendo um processo bem complicado, mas a nível de Brasil é muito pior”, diz Marinete.

O pai de Marielle, Antonio Francisco da Silva, aponta para a importância de manter a memória de sua filha, especialmente neste ano eleitoral. “Estas eleições estão trazendo um retrato, infelizmente, que podem ocorrer outras violências, incitadas por pessoas que estão sendo eleitas, simpatizantes dessas pessoas que estão sendo possíveis candidatos vitoriosos nas eleições. Isso tem nos preocupado”, diz Francisco.

Ele alerta para uma tendência de calar aqueles que falam pelos direitos humanos. “As pessoas não querem, talvez, que outras marielles surjam para falar em nome dos direitos humanos. Porque o recado que estão passando para nós é de medo. Eu não sei se essas pessoas [os ativistas] vão conseguir continuar falando em defesa dos direitos humanos. Isso tem me preocupado”, diz Francisco.

Francisco também falou do episódio referente a uma placa em homenagem a Marielle, colocada em uma das esquinas da Praça Floriano, na Cinelândia, onde fica a sede da Câmara Municipal. A placa foi destruída por dois membros do PSL (ambos eleitos deputados federal e estadual no último domingo, 7). O ato de vandalismo contou com a presença de Wilson Witzel, que atualmente disputa o segundo turno das eleições para o governo do Rio de Janeiro. Francisco alertou que casos do tipo estão se alastrando pelo país.

“A placa da minha filha foi uma homenagem que nós não queríamos. Nós preferíamos ela sendo homenageada pessoalmente. Mas como ela foi assassinada, essas homenagens estão sendo feitas em reconhecimento pelo que ela fez, pelo que defendia. E tem outras violências que nós temos assistido a nível de Brasil. Teve o caso do capoerista em Salvador [assassinado a facadas, por um apoiador de Jair Bolsonaro, após se declarar petista]. Será que nós vamos retroceder aos anos de 1964, de 1970? Quem viveu esse período, sabe das dificuldades do ir e vir, do direito de falar, nós não queremos isso. Eu não quero”, disse Francisco.

A placa não foi a única homenagem vandalizada. Um grafite em homenagem a Marielle, localizado na praça Edmundo Rêgo, no Grajaú, zona norte do Rio, também foi vandalizado e teve o rosto da vereadora apagado. Recentemente, a arte foi restaurada. O registro foi feito pelo músico e morador local, Gimmy Guimarães.

(Foto: Gimmy Guimarães)

Arte foi restaurada com a inscrição ‘Ideias são à prova de balas’ (Foto: Gimmy Guimarães)

 

Além de Marielle, foram listadas na campanha deste ano:

Pavitri Manjhi, da Índia: Pavitri luta para que sua comunidade indígena Adivasi não seja despejada por um projeto que prevê a construção de duas usinas de energia. Sendo uma liderança comunitária, ela ajudou a registrar quase 100 queixas formais contra as empresas donas do projeto. Agora, ela enfrenta ameças de homens que tentam forçá-la a retirar as queixas.

Atena Daemi, do Irã: Atena luta pelo fim da pena de morte no Irã e, por conta de postagens em redes sociais e participação em protestos, foi presa e condenada a sete anos de prisão em um julgamento que durou apenas 15 minutos. Atualmente, recebe um tratamento violento e degradante atrás das grades.

Gulzar Duishenova, do Quirguistão: Gulzar perdeu os movimentos das pernas em um acidente de carro, em 2002. Desde então, sua missão de vida é garantir uma vida digna para pessoas com deficiência em seu país. No entanto, enfrenta ameaças diárias, uma vez que vive em um país onde a sociedade defende que mulheres não deveriam se posicionar e que enxerga pessoas com deficiência como inválidas.

Nawal Benaissa, do Marrocos: Nawal é uma ativista que luta para que a região onde vive receba mais atenção do governo, mas foi condenada a dez meses de pena suspensa por “incitar e cometer ofensas”.

Nonhele Mbuthuma, da África do Sul: Nonhele lidera a luta em sua comunidade contra uma companhia que quer explorar titânio em suas terras ancestrais. Ela já sobreviveu a uma tentativa de assassinato, mas avisou que não vai recuar.

Vitalina Koval, da Ucrânia: Vitalina luta pelos direitos da comunidade LGBTI em sua cidade, Uzhgorod. Ela foi violentamente atacada após organizar uma manifestação pacífica no Dia Internacional das Mulheres deste ano.

Geraldine Chacón, da Venezuela: Geraldine luta para capacitar jovens e torná-los conscientes de seus direitos em seu país. No entanto, ela tem sido perseguida pelas autoridades. Ela já foi presa por quatro meses e está impedida de deixar o país. Seu caso ainda está em aberto, o que significa que ela pode ser presa novamente, sem nenhuma razão ou aviso.

Me Nam, do Vietnã: O nome Me Nam significa “Mãe Cogumelo”. Ela é uma das blogueiras mais influentes do Vietnã e luta em prol das questões ambientais e contra a brutalidade policial. Em 2017, como parte de uma campanha do governo para silenciar aqueles que se manifestam publicamente, ela foi presa e condenada a 10 anos de prisão por “conduzir propaganda” contra o Estado e por compartilhar seus artigos nas redes sociais.

Comunidades Indígenas Sengwer, do Quênia: a comunidade Sengwer é composta por apicultores e pastores de gado, e tem um laço profundo e centenário com a floresta Embobut. Porém, eles vêm sendo violentamente expulsos de suas terras pelo governo. Há relatos de casas sendo incendiadas por guardas e ataques a tiros contra membros da comunidade.

 

Leia também: Malala pinta desenho de Marielle Franco

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1 Opinião

  1. AO disse:

    Terrível este momento onde as pessoas buscam seus direitos de forma legítima, e a corda acaba roendo do lado mais fraco

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