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VACINA ENCALHADA

Medo de efeitos colaterais encalha vacinas contra febre amarela

Poucos são os casos de efeitos colaterais graves da vacina registrados desde o início da campanha de vacinação

Medo de efeitos colaterais encalha vacinas contra febre amarela
Campanha de vacinação em São Paulo foi estendida até o dia 2 de março (Foto: Flickr)

Milhões de doses da vacina contra a febre amarela continuam nos postos de saúde. Mesmo com o número de casos da patologia subindo desde o início de 2017, chegando a 93 mortes apenas em São Paulo, segundo a Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo, a situação passou de uma corrida pela vacina para um grande encalhe das doses devido a boatos espalhados, inclusive pela internet.

Com a quantidade de vacinas ainda nos postos de saúde, a campanha de vacinação em São Paulo foi estendida para o dia 2 de março. Porém, faltando três dias para o término, aproximadamente 5,1 milhões de pessoas não foram vacinadas em 54 cidades. A intenção era imunizar aproximadamente 9,2 milhões de cidadãos nas localidades.

“No início, as pessoas saíam de áreas não visadas pelo vírus para se sujeitar a pegá-lo nas filas das regiões em que havia casos; agora sobram doses nos postos. A gente vai ter de traçar uma segunda estratégia para atingir a meta dessa imunização preventiva”, explicou a diretora do Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo, Regiane de Paula.

Apesar de parte da população ter criado um pânico inicial pela doença, as pessoas parecem estar preocupadas com as novas “informações” a respeito da vacina. “Tem gente que está perdendo filho na barriga por conta de ter tomado a vacina”, “Vacina causa outras doenças no futuro, como câncer”, “Vacina é armadilha”, “60 médicos americanos dizem ao mundo não tomem o veneno da vacina da morte da febre amarela”, são algumas das frases possíveis de serem encontradas nas redes sociais.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a eficácia da vacina contra a febre amarela é superior a 95%, mesmo a fracionada, que protegeria a pessoa por, pelo menos, oito anos. “Não precisamos ter medo dessa vacina, ela é excelente”, reitera a diretora de Imunização da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, Helena Sato.

Desde o início de 2017, apenas três pessoas em todo o estado de São Paulo morreram por reação a vacina de febre amarela, todas com menos de 60 anos e sem registro de doenças anteriores. No entanto, os efeitos adversos não são exclusividade da vacina contra a patologia, mas para muitas outras.

É possível encontrar diferentes reações à vacinas de muitas doenças, como tétano, as hepatites, influenza, poliomielite, sarampo, entre outras, no Manual de Vigilância Epidemiológica de Eventos Adversos Pós-Vacinação, do Ministério da Saúde. Uma das referências do manual é a organização sem fins lucrativos Brighton Collaboration, sediada na Suíça, que conta com cinco mil especialistas que trabalham para tornar as vacinas mais confiáveis.

Efeitos colaterais

No Manual de Vigilância, o capítulo dedicado à vacina contra a febre amarela ocupa 9 páginas, já lembrando, desde o início, que a vacina é usada na prevenção da patologia desde 1937. O imunizante é composto por vírus vivo atenuado na cepa 17DD, cultivado em ovos de galinha embrionados, contendo sacaroso, glutamato, sorbitol, eritromicina, gelatina bovina e canamicina.

Com isso, a primeira contraindicação é para as pessoas que têm história de reação anafilática com qualquer uma das substâncias. Crianças com menos de seis meses de idade, pacientes com imunodepressão e idosos com mais de 60 anos também estão na linha de risco da vacina.

Entre os efeitos colaterais estão a febre, vermelhidão, dor no local da aplicação, dor abdominal, dor de cabeça. Já os mais graves incluem doenças autoimunes, encefalite, ânsia, vômito, fadiga, taquicardia, insuficiência renal e hepática, entre outros. Em poucos casos, pode levar o paciente a óbito.

Entre 2007 e 2012, foram registrados cerca de 4,2 casos com efeitos colaterais graves a cada 1 milhão de doses aplicadas, com dois casos a cada 1 milhão indo a óbito, segundo Regiane de Paula. De acordo com Regiane, os efeitos adversos da vacina estão bem claros, com apenas 5% deles podendo evoluir para uma doença viscerotrópica aguda.

Medo

Outros supostos casos não confirmados ganham força nas redes sociais, aumentando o medo da população. Vitória Marina Souza Gomes, de 15 anos, foi ao posto de saúde de Comendador Soares, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, no último dia 10 de janeiro para tomar a vacina de febre amarela.

Mesmo não morando e não viajando para nenhuma área com os mosquitos transmissores, Vitória achou melhor se proteger com a vacina. No dia seguinte, sentiu enjoo, dor de cabeça, febre alta e dores abdominais. Poucos dias depois acordou com os olhos inchados, com o edema se espalhando pelo rosto e pescoço, causando uma convulsão.

Após uma semana da vacina, a vermelhidão e as dores por todo o corpo a impediam de andar sozinha com segurança. Pouco mais de duas semanas depois, Vitória teve três paradas cardíacas, indo a óbito no Hospital Geral de Nova Iguaçu. No atestado de óbito, Vitória não morreu pelo flavivírus da febre amarela, mas pela bactéria Staphylococcus aureus. Segundo os médicos, a paciente faleceu devido a uma pneumonia.

Para a família, porém, a vacina também foi a culpada. Priscila, mãe de Vitória, afirmou ter avisado aos profissionais de saúde da Unidade de Pronto Atendimento (UPA), do Hospital Souza Aguiar e do Nova Iguaçu. “Mas preferiram apostar em sinusite, conjuntivite, alergia, infecção urinária, lúpus”, explicou Lorena.

Segundo Lorena, irmã de Vitória, os médicos fizeram exame de sangue para testar para febre amarela 14 dias depois da vacina, mas os familiares nunca receberam o laudo. Vitória sofria de bronquite, mas estava controlada, segundo a família. “Ela foi liberada para tomar a dose”, afirmou Lorena.

Agora, a família de Vitória não quer mais saber de imunização, mesmo que o irmão da adolescente, que também sofre de bronquite, só tenha relatado dor de cabeça depois da vacina.

Na página de Facebook de Lorena, diferentes pessoas comentam sobre a vacina, inclusive inspiradas em teorias da conspiração. “O governo quer acabar com o povo”, “a vacina é uma fraude”, “nunca confiei nessas vacinas, veja o caso do ebola, tudo criado”, “tá parecendo aquela injeção que mata”, “posso morrer de febre amarela, azul ou roxa, menos de vacina; disso sim já estou imunizada”, relatavam alguns dos comentários.

Regiane de Paula afirmou que a apuração dos casos não é tão simples como parece, explicando alguns dos processos para atestar possíveis efeitos colaterais. “São feitos, entre outros, um exame de histopatologia e de PCR [técnica de isolamento viral], além do levantamento do histórico familiar para confirmar se a pessoa tinha ou não uma doença de base”.

O caso de Murilo Pio, de 3 anos, que morreu cinco dias após a vacinação, em janeiro deste ano, ainda segue sem resposta. O Hospital Renascença, em Osasco, diagnosticou, primeiramente, como nasofaringite aguda, dois dias após a vacinação. A parada cardiorrespiratória, que levou a criança à morte, ocorreu no dia 19 de janeiro.

Nos comentários virtuais sobre a morte da criança, mais indignação. “A vacina está matando mais que a tal febre, ‘gadão’ sem noção”, “isso tem nome e chama-se homicídio culposo”, “temos tecnologia para produzir uma vacina com vírus morto, mas não é de interesse, pois é um vírus que existe no 3º mundo e não há retorno financeiro”.

Revoltas históricas

Mesmo com a indignação, nada parece com a Revolta da Vacina, que ocorreu em 1904, com a população do Rio de Janeiro protestando contra a vacina da varíola, virando bondes, destruindo lampiões, quebrando árvores e danificando fachadas de prédios. Na época, a população não tinha escolha, com os agentes sanitários invadindo residências e aplicando as injeções à força. Segundo teorias da conspiração, era uma técnica do Estado para eliminar as camadas mais humildes da sociedade.

Diferente de 1904, os agentes têm visitado residências em São Paulo para saber quem não tomou a vacina contra a febre amarela. Dessa forma, distribuem senhas para a vacinação e esclarecem dúvidas a respeito. “Ainda não temos certeza, mas acho que o Carnaval e o período de férias contribuíram para essa drástica diminuição na procura pela doses”, especula o coordenador de saúde da região sul do município de São Paulo, Marco Antônio Carvalho de Lima.

Em um quadro geral, a população ainda acredita que a vacina contenha efeitos colaterais, podendo interromper um momento de relaxamento, segundo Marco Antônio, que se refere ao período das férias. Agora, com o retorno do ritmo normal, a ideia é convencer as pessoas que ainda não tomaram a vacina que não existe nenhuma teoria da conspiração na vacinação.

 

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Fontes:
BBC - Depois de corrida aos postos, vacina da febre amarela encalha em meio a boatos sobre reações

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2 Opiniões

  1. Jeffwerson Tavares disse:

    O medo não é pra menos, muitas pessoas morrendo por reação e os médicos não conseguem explicar, visto nos casos citados. Não da pra saber o verdadeiro nível de segurança dessa vacina.

  2. Mauro A. Oliveira disse:

    Já tomei a vacina três vezes, a última com 63 anos, e não tive nenhum reação adversa.Tomo todas as vacinas oferecidas pelo estado.

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