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DECLARAÇÃO POLÊMICA

Ministro japonês das Finanças tem um quê de Damares Alves

No país onde o trabalho doméstico sobra para as mulheres como em nenhum outro do mundo desenvolvido, Taro Aso distribuiu culpas a quem não dá à luz

Ministro japonês das Finanças tem um quê de Damares Alves
Deputados japoneses exigiram que Taro Aso se retratasse (Foto: Kremlin.ru)

No último domingo, 3, o ministro das Finanças do Japão, Taro Aso, saiu-se com essa, sobre o aumentos dos custos da seguridade social no país:

“Há muitas pessoas estranhas que dizem que os idosos são os culpados, mas isso está incorreto. As que não estão dando à luz é que são o problema”.

A declaração polêmica, para dizer o mínimo, de Taro Aso foi dada durante um evento no Japão sobre taxas de natalidade, envelhecimento populacional, acesso à saúde e idade para aposentadoria. Sobre, portanto, temas que estão na ordem do dia em vários, em muitos, quiçá na maioria dos países do mundo, enquanto considerandos fundamentais para serem abordados, debatidos, reformados, em nome da saúde financeira, do equilíbrio fiscal dos Estados nacionais.

Estão na ordem do dia, para não ir longe, no Brasil, onde a reforma da Previdência cada vez mais se confirma como a pedra angular do governo Bolsonaro.

Deputados japoneses exigiram que Taro Aso se retratasse. Na terça-feira, 5, ele acabou pedindo desculpas, ainda que tímidas, pela declaração, dizendo que lamentava que o que havia dito tenha soado “desagradável”, não sem culpar a mídia por repercutir suas palavras “fora de contexto”.

Pois é justamente o contexto, o contexto e a realidade do Japão, que inevitavelmente tornam, digamos, “desagradável” a declaração do ministro, que não é o único membro do governo do primeiro-ministro Shinzo Abe que vez ou outra culpa as japonesas que não dão à luz pelos desequilíbrios demográficos do país.

Como este Opinião e Notícia informou no último 1º de janeiro, em 2018 o Japão registrou o maior declínio populacional desde que dados desse tipo começaram a ser coletados: 25 mil pessoas a menos em relação a 2017.

‘Lugar de mulher é em casa’

Em janeiro, no Fórum Econômico de Davos, Shinzo Abe, como “bom” político que é, gabou-se de uma estatística citando-a pela metade: o Japão tem hoje sua maior taxa já registrada de mulheres trabalhando “fora”, 67%. “Mais do que dos EUA”, disse Abe. Isso foi o dito.

O não dito é que o papel desempenhado pelas mulheres no mercado de trabalho, em matéria de carreira, postos-chave, liderança, remuneração é especialmente limitado no Japão, na comparação com os homens e na comparação com outros países do mundo desenvolvido.

Atribui-se isso precisamente ao fato de que, no Japão, os homens participam do trabalho doméstico e dos cuidados com os filhos menos do que em qualquer outro país do mundo desenvolvido. O resultado é que mais da metade das mulheres japonesas que têm um emprego remunerado trabalham em regime part-time, e cerca de um terço têm contratos de trabalho temporários. Só metade das mulheres japonesas voltam ao mercado de trabalho após o nascimento do primeiro filho.

Além de tudo, todo esse cenário, que poderia ter como epígrafe algo de Damares Alves, como “lugar de mulher é em casa”, afeta o próprio desenvolvimento da economia japonesa, num momento em que há no Japão escassez não propriamente de gente, mas de mão-de-obra.

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