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OPERAÇÕES POLICIAIS

Morte da menina Ágatha expõe falência da segurança pública

Morte de menina, atingida por tiro de fuzil, coloca em xeque a política de confronto do governador do Rio, Wilson Witzel, e o pacote anticrime de Moro

Morte da menina Ágatha expõe falência da segurança pública
Somente neste ano, 1.249 pessoas morreram em operações policiais no Rio (Foto: Instagram)

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“Não foi o filho dele nem a filha dele não. Foi a filha de um trabalhador, tá? Ela fala inglês, tem aula de balé, era estudiosa. Não vivia na rua, não. Agora vem um policial aí e atira em qualquer um na rua. Acertou minha neta”.

A declaração que marcou o último fim de semana provém do desabafo de Airton Félix, avô da menina Ágatha Félix, de oito anos, morta na última sexta-feira, 20, após ser atingida por um tiro de fuzil nas costas, quando estava dentro de uma Kombi, voltando para casa, na região da Fazendinha, no Complexo do Alemão – conjunto de favelas localizado na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

Segundo testemunhas, o disparo que matou Ágatha partiu de PMs que estavam no local. As testemunhas afirmam que os agentes dispararam contra dois homens que passaram em uma moto e acabaram acertando a menina dentro da Kombi.

Em nota, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) informou que os agentes revidaram a ataques de criminosos. Moradores, no entanto, contestam a versão, afirmando que não havia troca de tiros no momento em que a Ágatha foi atingida. Uma investigação para apurar as circunstâncias foi aberta pela Coordenadoria de Polícia Pacificadora (UPP).

A morte de Ágatha trouxe para o centro do debate a política de segurança dos governos estadual e federal. A menina foi a 16ª criança baleada este ano no Rio, e a quinta a vir a óbito. Somente neste ano, 1.249 pessoas morreram em operações policiais no Rio, um número recorde de óbitos.

O número abrange também agentes mortos em conflitos. No mesmo dia em que Ágatha foi morta, morreu também o policial Leonardo Oliveira dos Santos, de 31 anos, atingido dentro de uma viatura, em Niterói, região metropolitana do Rio. Leonardo se tornou o 37º agente morto em confronto neste ano no estado.

A política de “mirar na cabecinha”

O salto no número de óbitos em ações policiais vem colocando em xeque a política “de mirar na cabecinha” do governador do Rio, Wilson Witzel (PSC-RJ), um dos mais cobrados a ser posicionar durante o fim de semana. Witzel chegou ao Palácio da Guanabara – sede do governo do Rio – embalado por um discurso de confronto e tolerância zero contra a criminalidade.

Adepto do “estilo Rambo”, em abril, ele gerou polêmica ao posar para uma foto empunhando uma metralhadora, durante uma apreensão de armamentos no Complexo do Alemão, a mesma comunidade onde Ágatha foi morta.

Em maio, ele se envolveu em polêmica ao aparecer ao vivo na televisão, a bordo de um helicóptero, que sobrevoava uma comunidade em Angra dos Reis, enquanto um agente atirava a esmo na região. “Vamos botar fim na bandidagem”, dizia o governador no vídeo. Posteriormente, veio a informação de que o local alvo dos disparos era uma tenda religiosa.

Witzel também já causou polêmica em agosto, ao aparecer descendo de um helicóptero, na Ponte Rio-Niterói, celebrando de forma efusiva e caricata a morte de um sequestrador que mantinha pessoas reféns em um ônibus.

Ele também já gerou polêmica ao desfilar dentro de um tanque do Exército durante o desfile de Sete de Setembro no Rio – cena que desagradou o presidente Jair Bolsonaro (PSL).

O governador do Rio não esconde sua intenção de disputar a presidência da República em 2022. A estratégia é usar o discurso de confronto e tolerância zero para angariar apoiadores, em especial da base de Bolsonaro. Tal ambição resultou no racha do PSL com o governador no Rio. Recentemente, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) afirmou que os deputados do PSL que quiserem manter o apoio a Witzel devem deixar o partido.

A estratégia de Witzel, no entanto, não parece surtir efeito. “A opção pelo confronto tem se mostrado ineficaz: a despeito do número recorde de 1.249 mortos em ações envolvendo agentes do estado apenas este ano, a sensação de insegurança permanece. No caso das favelas, ela se agrava”, diz a Defensoria Pública do Rio, em nota de solidariedade aos familiares de Ágatha e do policial Luciano Oliveira dos Santos.

A opção pelo confronto armado por vezes é exaltada como uma resposta à sociedade acuada pela criminalidade. Algumas ações resultam em apreensões recordes de armamentos. Porém, não há fábrica de fuzis em comunidades. Embora tais ações, em um primeiro momento, possam gerar uma sensação de resposta para alguns setores da sociedade, seu resultado é falho.

Mais eficaz seria investir em inteligência para cortar a trajetória que o armamento faz até as comunidades. Porém, um levantamento divulgado em fevereiro do ano passado, quando o Rio estava sob intervenção federal, apontou que o Rio é o estado que menos investe em inteligência policial.

O pacote anticrime de Moro

A morte de Ágatha também trouxe para o centro do debate o pacote anticrime do ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro. O principal ponto em questionamento é o chamado “excludente de ilicitude” – que isenta de punição policiais que matem em serviço, em casos de “escusável medo ou forte emoção”.

O temor é que a medida, se colocada em vigor, aumente ainda mais o número de mortes em operações. No último domingo, 22, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), manifestou solidariedade aos familiares de Ágatha e defendeu uma avaliação “cuidadosa e criteriosa sobre o excludente de ilicitude”.

“Qualquer pai e mãe consegue se imaginar no lugar da família da Ágatha e sabe o tamanho dessa dor. Expresso minha solidariedade aos familiares sabendo que não há palavra que diminua tamanho sofrimento. É por isso que defendo uma avaliação muito cuidadosa e criteriosa sobre o excludente de ilicitude que está em discussão no Parlamento”, disse o deputado.

Moro, por sua vez, afirmou não haver nenhuma relação entre a morte da menina e “a proposta de legítima defesa constante no projeto anticrime“. A opinião do ministro é corroborada pelo relator do texto do projeto, o deputado Capitão Augusto (PSL-SP). Em entrevista ao Globo, Augusto disse que o projeto vai ser rejeitado no grupo de trabalho, não por conta do episódio, mas porque os integrantes do grupo já tinham formado opinião contra o pacote.

No entanto, Augusto acredita que a derrota será momentânea, e que o projete deve ser resgatado pela bancada da bala, atualmente da maior da Câmara, com 305 do total de 513 deputados da Casa.

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5 Opiniões

  1. salomao disse:

    O OPORTUNISMO POLITICO sobre esta tragedia esta simplesmesmente nojento!
    Por acaso ja concluiram a pericia para saber se o tiro foi da policia ?

  2. rene.labore@gmail.com disse:

    Quantas meninas, mulheres, garotos e homens de família morrem diariamente nas mãos de bandidos que posteriormente, se forem presos, passam a serem sustentados pelas famílias dos entes assassinados, pena de morte é muitas vezes a melhor solução, a colocação da reportagem só serve para quem não quer regras mais rígidas para marginais, ai surgem os oportunistas.

  3. Rogerio de Oliveira Faria disse:

    Quando o saudoso Governador Leonel Brizola proibia os policiais de subirem nas favelas, não era a toa…
    São uns despreparados.

  4. Áureo Ramos de Souza disse:

    A policia sempre tem uma defesa para seus soldados, as palavras do povo não vale nada.

  5. Pesali disse:

    A falência está na moral das pessoas que apoiam bandidos. Ágatha foi vítimas do crime organizados e seus apoiadores. Vocês compram cocaína de traficantes, se drogam e financiam armas, correntes grossas de ouro, mansões e soldados do tráfico. Quando há confronto entre o estado e os soldados do tráfico financiados por quem compram drogas, sobra para inocentes como a Ágatha.

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