Início » Brasil » Morte de macacos aumenta risco de febre amarela
RISCO MAIOR

Morte de macacos aumenta risco de febre amarela

Segundo pesquisadores, com macacos sendo executados, os mosquitos procuram outras presas e disseminam a doença entre os humanos

Morte de macacos aumenta risco de febre amarela
Apenas em 2018, 144 primatas mortos foram recolhidos (Foto: Vigilância Sanitária do Rio de Janeiro)

A morte de macacos no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Distrito Federal e São Paulo tem dificultado o combate à febre amarela, que tem se espalhado rapidamente, principalmente na região sudeste do Brasil. Isso porque, segundo pesquisadores, na ausência dos primatas, os mosquitos vão procurar outra presa. No caso, os humanos.

Além disso, os macacos atuam como “sentinelas” e “mártires”, sendo os alvos preferidos de mosquitos silvestres. Com isso, os primatas desenvolvem a doença e morrem. Dessa forma, os pesquisadores, ao notar o volume de corpos na região, conseguem identificar a presença da febre amarela, traçar o possível caminho do vírus e planejar estratégias imunizar as pessoas que vivem em áreas próximas ao local.

Os números da febre amarela são tão altos nos macacos, que existe o medo que os bugios desapareçam das florestas do Rio de Janeiro. Os primatas que, por sorte, conseguem não ser infectados pela doença, acabam morrendo pela desinformação dos seres humanos, que estão executando os animais com pedradas, pauladas e envenenamento.

Apenas em 2018, 144 primatas mortos foram recolhidos pela Vigilância Sanitária e Controle de Zoonoses do Rio de Janeiro para testes da doença. No entanto, o que se viu é que a maioria dos macacos (69%) foram executados, apresentando fraturas ou veneno no organismo. Em 2017, 602 animais foram encontrados mortos, 42% deles assassinados.

Nem mesmo primatas ameaçados de extinção, como o mico-leão-dourado, escaparam da ignorância humana, com corpos de animais dessa espécie que, assim como outros macacos, não transmitem a febre amarela, sendo encontrados com sinais de execução.

Ao matar macacos por desinformação, os humanos estão apenas aumentando o risco de contaminação por febre amarela, que pode matar. A doença é transmitida principalmente por mosquitos silvestres dos tipos Haemagogus e Sabethes, que moram na copa da árvore e preferem sangue de primatas.

O Aedes aegypti, famoso transmissor da dengue, também pode transmitir a febre amarela, mas não há casos de contaminação, até o momento, por esse tipo de mosquito – desde 1942 não há epidemia urbana de febre amarela. Com isso, as pessoas que já contraíram a doença o fizeram em alguma zona com mata.

O pesquisador Ricardo Lourenço, do Instituto Oswaldo Cruz, explicou que o homem ou macaco quando é picado por um mosquito portador do vírus, só carrega a patologia em quantidade suficiente para infectar outros mosquitos por aproximadamente três dias. Depois, o corpo produz anticorpos, fazendo com que a concentração do vírus diminua. Em cerca de 10 dias, os infectados terão morrido ou se curado, ficando imune à doença. Os mosquitos, por outro lado, mantêm as moléculas da doença, podendo passar o vírus até mesmo para os seus ovos, fazendo com que os filhotes já nasçam com a patologia.

“Mesmo que acabem todos os macacos de uma aérea, durante algumas gerações o vírus vai ficar ali. E o mosquito vai procurar o ser humano para se alimentar”, explicou Lourenço, autor de pesquisas sobre mosquitos transmissores. Com isso, as chances de contaminação em seres humanos aumentam, pois os mosquitos passam a procurar alimento em outro lugar.

Professor da Universidade de São Paulo e da britânica London School of Tropical Diseases, o epidemiologista Eduardo Massad reforçou o argumento de Lourenço, explicando que mais pessoas seriam picadas se todos os macacos desaparecessem.

Migração da doença

Em 1942, após fazer diferentes campanhas para a erradicação do Aedes aegypti, o Brasil conseguiu exterminar a febre amarela urbana, ficando concentrada apenas na região amazônica. No entanto, nos anos 2000, o vírus voltou a ser encontrado na região de mata de Minas Gerais e Espírito Santo, chegando mais recentemente a São Paulo e ao Rio de Janeiro.

Professor do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), o pesquisador Aloisio Falqueto crê que a patologia saiu da Amazônia, chegando até a região sudeste do Brasil usando os seres humanos como meio de transporte.

“A minha teoria é o elemento urbano. Muitas pessoas migram para a Amazônia sem tomar vacina. Uma pessoa pegou o vírus na Amazônia e entrou na Mata Atlântica depois, na altura de Montes Claros (MG), e aqui é um barril de pólvora, pela presença de macacos sem anticorpos e seres humanos. A força de transmissão é muito maior”, apontou Falqueto.

Ricardo Lourenço, por outro lado, acredita que a migração da doença ocorreu naturalmente, com mosquitos picando macacos, os primatas morrendo, e os insetos descendo as matas através de corredores e rios para buscar novas presas. Os mosquitos podem voar cerca de três quilômetros por dia.

“Mosquitos se dispersam por dois motivos: para achar lugar para colocar ovo e para achar fonte de alimentação sanguínea. Se começa a morrer macaco, ele começa a buscar sangue em outro lugar”, afirmou Lourenço.

Falqueto também chama a atenção para a importante função de sentinela que os macacos têm, com os pesquisadores percebendo a chegada da doença através da morte dos primatas. Desde o início dos anos 2000, os estudiosos têm alertado os governos federal e estadual para ampliar as ações de imunização em regiões onde foram encontrados animais mortos.

“Os macacos nos avisam da iminência do vírus. Quando começam a morrer, sabemos da existência e intensidade do vírus naquela região. Podemos calcular por onde ele vai se alastrar e quem devemos imunizar. A morte do macaco é um aviso de que devemos imunizar as populações nas áreas de risco”, diz Falqueto.

Fontes:
BBC - 'Se matarem macacos, mosquitos vão atrás de sangue humano': como massacre de primatas é tiro no pé contra febre amarela

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

1 Opinião

  1. carlos alberto martins disse:

    como sempre a ignorancia sempre acaba com os mais fracos,nesse caso os macacos.falta maior vigilancia e proteção para eles.o melhor seria fechar todos os parques até que o problema tenha acabado,visto que os visitantes que adentram ao parque contribuem com os envenenamentos.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *