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SANTA CATARINA

MPF investiga deputada do PSL suspeita de intimidação de professores

Ana Caroline Campagnolo pediu que estudantes filmem ou gravem 'todas as manifestações político-partidárias ou ideológicas' por parte dos professores

MPF investiga deputada do PSL suspeita de intimidação de professores
Professora de história, Ana Caroline Campagnolo gerou polêmica com pedido nas redes sociais (Foto: Facebook)

O Ministério Público Federal (MPF) abriu na última segunda-feira, 29, um inquérito para investigar a deputada estadual eleita Ana Caroline Campagnolo (PSL-SC). O objetivo da investigação é apurar suspeita de intimidação de professores de Santa Catarina.

Na noite do último domingo, 28, após a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) ter sido divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a deputada estadual eleita compartilhou uma imagem nas redes sociais pedindo para que estudantes filmem ou gravem “todas as manifestações político-partidárias ou ideológicas” por parte dos professores. A publicação gerou polêmica e chegou até o MPF.

Professores éticos e competentes não precisam se preocupar. Pedimos que não enviem vídeos de outros estados (como já…

Posted by Ana Caroline Campagnolo on Sunday, October 28, 2018

Além de abrir inquérito para investigar o caso, o MPF em Chapecó (SC) ainda orientou que as instituições de ensino superior impeçam qualquer tipo de assédio moral contra os professores, seja por alunos ou familiares. Ademais, pediu para que as instituições não sancionem ou atuem contra os professores.

Para o MPF, a orientação de Ana Caroline Campagnolo “além de configurar flagrante censura prévia e provável assédio moral em relação a todos os professores do estado de Santa Catarina – das instituições públicas e privadas de ensino, não apenas da educação básica e do ensino médio, mas também do ensino superior – afronta claramente a liberdade e a pluralidade de ensino”, segundo informou através de um comunicado.

O inquérito civil tem duração de um ano. Para iniciar os trabalhos, o procurador da República em Chapecó, Carlos Humberto Prola Júnior, determinou a anexação de cópias da tela do Facebook da deputada estadual eleita; elaboração de recomendação para que as instituições de ensino resguardem os professores; e informar as entidades representativas de professores sobre o inquérito, além de solicitar informação em eventuais arbitrariedades.

Além do inquérito civil, a nova deputada estadual catarinense ainda responde a uma queixa-crime de calúnia, difamação e injúria, iniciado por sua ex-orientadora de mestrado, a historiadora Marlene de Favéri, em resposta a um processo de “perseguição ideológica e discriminação religiosa”, aberto por Ana Caroline Campagnolo contra a professora. A Justiça, porém, considerou o processo de Campagnolo “improcedente”. A deputada estadual eleita está recorrendo a decisão, segundo informações da Folha de S. Paulo.

Postura nas redes sociais

Ana Caroline Campagnolo, de 27 anos, se descreve nas redes sociais como “professora, cristã, antifrágil, antimarxista e antifeminista”, além de defensora do “Escola sem Partido”. No Instagram, a deputada estadual eleita destaca que conquistou 34.825 votos em Santa Catarina, garantindo o seu lugar na Assembleia Legislativa do estado.

Antes de se tornar deputada estadual, Campagnolo gravava vídeos para o seu canal no YouTube, com o mais antigo ainda disponível datando de agosto de 2013. Na plataforma, Ana Caroline gravou conteúdo com temas como “antifeminismo”, “ensaio sobre a educação liberal”, “contra o cristianismo: a ONU e a União Europeia como nova ideologia”, além de falar sobre política e divulgar sua pré-campanha.

No site “Vlogoteca”, onde também compartilha seus vídeos e posicionamentos ideológicos, Ana Caroline Campagnolo escreveu um texto, em 2015, sobre “desinformação e a perniciosa mania de ‘fazer a cabeça dos alunos’”. Nele, a nova deputada estadual afirma que: “É possível encontrar doutrinação tanto para as visões políticas de esquerda como para as de direita, no entanto, o cenário atual deixa claro que a esquerda está atuando majoritariamente através da doutrinação marxista”.

No Facebook, onde é mais ativa, Ana Caroline Campagnolo vem fazendo constantes postagens a respeito de seu posicionamento em referência à educação desde o último domingo. Na primeira delas, após o fim do segundo turno, às 19h32 do dia 28 de outubro, a deputada estadual eleita ironiza: “Que pena que meus ex-professores comunistas me bloquearam. Eu queria muito ler a choradeira!!!”.

Ainda na noite de domingo, a deputada estadual começou a compartilhar matérias sobre a suposta incitação para intimidar professores por meio de gravações. Em um dos compartilhamentos, na manhã da última segunda-feira, Ana Caroline Campagnolo diz que a criação do canal anônimo de denúncia de professores é uma “promessa de campanha”.

Em uma publicação, também da última segunda-feira, a deputada estadual questiona o motivo das críticas por parte dos professores. “Por que a possibilidade de gravar a aula está desesperando tantos professores? O que tem sido dito que a sociedade não pode saber?”.  Nos comentários com os maiores números de reações na rede social, o posicionamento foi de apoio, inclusive de alguns professores.

Divisão de opiniões

Na publicação original, que solicita a denúncia dos professores, é possível ler diferentes comentários contrários e a favor da iniciativa. Em primeiro lugar entre aqueles com o maior número de reações, um homem disse estar “enojado” com a “publicação ridícula”, afirmando ainda que Ana Caroline Campagnolo deveria “agradecer a presença de professores críticos”. A deputada estadual, então, respondeu ao comentário, apontando os equívocos cometidos: “Você mal sabe escrever”.

Em outra resposta, uma usuária da rede social explicou que a utilização de imagem sem autorização é crime. A deputada estadual, no entanto, afirmou que as gravações não seriam divulgadas, mas sim investigadas para “verificar as medidas cabíveis em cada caso”, destacando que o movimento não quer “gravar uma novela”.

Outros comentários prestaram apoio à nova deputada estadual, compartilhando imagens que seriam supostamente de doutrinações da esquerda. Ademais, outros usuários do Facebook parabenizavam Ana Caroline Campagnolo pela iniciativa.

Duas petições foram criadas a respeito da medida, uma a favor e uma contrária a deputada estadual eleita. No abaixo-assinado favorável à medida, compartilhado pela própria Ana Caroline Campagnolo, o número de assinaturas ultrapassou 8,4 mil na manhã desta terça-feira, 30, tendo como meta chegar a 10 mil.

Já na petição contrária a medida, que pede a impugnação da nova deputada estadual catarinense, já foram ultrapassadas as 240 mil assinaturas, tendo como meta chegar a 300 mil. Os criadores do abaixo-assinado destacam que “a liberdade de expressão dos professores em sala de aula foi explicitamente atacada” com o anúncio da iniciativa.

 

Leia também: Denúncias coordenadas, diligências simultâneas. Não é o que parece?

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2 Opiniões

  1. José Antonio Alves disse:

    Em parte, esta Deputada está coberta de razões. De longa data, estudantes de universidades federais vem sendo doutrinados pela esquerda com ideias Marxistas-Leninistas e também Cubanas/bolivarianas, sem que os responsáveis sejam punidos. Universidade é para estudarem matérias concernentes ao currículo da futura função do estudante e não para transformá-lo em um esquerdopata revoltado com tudo e com todos.

  2. José Antonio Naves disse:

    “Em parte, esta Deputada está coberta de razões.”

    Quando alguém acha que uma figura pública pode intimidar milhares de professores a expressar livremente o pensamento crítico, essa pessoa tem que dar um tiro em sua própria cabeça.

    Tome vergonha nessa cara, seu canalha.

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