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Crise econômica

Muita sede ao pote

A atual crise brasileira é decorrente do remédio aplicado para consertar os efeitos calamitosos dos excessos de despesas do governo

Muita sede ao pote
Como já foi dada a largada para as eleições de 2018, vamos esperar que a corrida ao pote seja feita com menos sede (Reprodução/ABr)

Em 2018 esperamos novas eleições presidenciais no Brasil. Neste mesmo ano se comemora o centenário da primeira constituição da República Socialista Federativa Soviética da Rússia, promulgada em 10 de julho de 1918, poucos meses depois da revolução de outubro de 1917 e da Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado de janeiro de 1918. Em termos históricos, 100 anos é muito pouco, foi praticamente ontem.

Neste documento a Rússia é proclamada uma república de conselhos (sovietes) de trabalhadores, soldados e camponeses. O objetivo, claro e publicado, aqui transcrito, seria abolir toda a exploração do homem pelo homem, eliminar completamente a divisão da sociedade por classes, esmagar a reação dos exploradores, estabelecer o regime socialista e atingir a vitória do socialismo em todos os países.

Para tanto, ficava abolida a propriedade privada no campo, sendo toda a terra, edificações e equipamentos agrícolas proclamados “propriedade da população trabalhadora”.

Desta forma, a ideia de se exportar a revolução atingiu com sucesso os países da Europa Oriental e a mente de muitas forças políticas no Ocidente, inclusive no Brasil. Esmagar os exploradores e os adversários, como se registrou claramente no governo de Josef Stalin (1922 a 1953), conforme os próprios camaradas denunciaram alguns anos depois, já estava previsto na cartilha.

Não há, em princípio, quem possa contestar a legitimidade de se proteger os trabalhadores e os explorados, embora estas qualificações passem por uma acepção opinativa. Assim, a criação de um “partido dos trabalhadores” no Brasil, na década de 1980, foi capaz de trazer a adesão de muitos. Não havia porque disfarçar a influência do Partido Comunista da União Soviética e de outros partidos que lhe seguiram, mesmo em oposição, como se dizia na época, à “linha russa”. As próprias bandeiras vermelhas e estreladas, e até mesmo a terminologia “companheiro fulano”, podem ser entendidas como uma tropicalização dessa herança.

É assim possível que, em não se poupando esforços para garantir a vitória do socialismo, tal como no regime ditatorial do proletariado, não houvesse escrúpulos que se contrapusessem ao fortalecimento do partido para ganhar as eleições e se agarrar ao poder.

A atual crise brasileira – redução do ritmo de atividades e investimentos, queda na renda dos trabalhadores, aumento do desemprego e inflação alta – é decorrente do remédio aplicado para consertar os efeitos calamitosos dos excessos dos últimos anos em termos de despesas do governo (um crime, não fosse modificada a lei de responsabilidade fiscal) e, também, do empobrecimento da maior empresa brasileira, a Petrobras, que tem confissão de culpa publicada com aval de auditores externos.

Junto com a queda no preço do petróleo à metade, os desvios de recursos e a desgovernança generalizada na Petrobras resultaram numa avalanche que vem soterrando fornecedores, prestadores de serviço, empregados, com reflexo ainda maior no Estado do Rio de Janeiro, cuja economia é das mais dependentes da Petrobras e dos royalties do petróleo. Evidentemente, os royalties para o Estado são calculados pela produção de petróleo e os recursos desviados maltratam os investimentos para aumentá-la. Cuidem-se os fluminenses.

O uso dos recursos da Petrobras e outras estatais para fins de sustentação partidária, com a releitura atenta da Declaração dos Direitos de 1918, evoca o conceito de que, para os trabalhadores, eventualmente acionistas através da União, as perdas da estatal para os ganhos partidários foram apenas uma transferência de um bolso para o outro da mesma calça. Quanto aos exploradores – os demais acionistas, investidores e partes relacionadas (stakeholders) – pouco importa se forem esmagados.

É claro que a dose do remédio faz parte da bula: o princípio ativo das substâncias só vale em proporções recomendadas, já que a diferença entre tomar uma aspirina e todos os comprimidos é, obviamente, mortal. Dirão os defensores da situação que “assim fizeram todos”, que a corrupção veio nas caravelas portuguesas em 1500 e aqui floresceu.

Como já foi dada a largada para as eleições de 2018, vamos esperar que a corrida ao pote seja feita com menos sede. Ocorre que nos últimos anos erraram muito na dose e a paciente economia brasileira, com duplo sentido, deveria se recuperar numa desintoxicação eficaz, um lava-jato estomacal, que aparentemente foi iniciada, mas ainda inspira cuidados.

 

*Paulo Gurgel Valente é economista e sócio fundador da Profit Projetos

1 Opinião

  1. helo disse:

    O artigo analisa muito bem os excessos do governo.
    Imoral justificar a corrupção atual com o “assim fizeram todos”. O passado justifica o crime presente? A afirmação conteria alguma justificativa? Pior, existe na afirmação uma tentativa ou sugestão de que a corrupção é parte integrante do ato de governar e a que o torna possível? A autobiografia de Mujica conta que Lula disse que sim. Lula o desmentiu logo em seguida.

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