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Está em debate um projeto para levar água do Rio São Francisco para regiões de Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte para perenizar rios que chegam a secar inteiramente em períodos de estiagem. Muitas coisas me incomodam nesse projeto uma vez que projetos faraônicos me assustam. Eis alguns exemplos que justificam meu receio:
• A Transamazônica onde jogamos fora bilhões de reais numa outra tentativa de solucionar o problema da seca do nordeste.
• A represa de Aswan, no Egito, que pretendia pôr ordem no Rio Nilo, é na verdade um desastre ecológico.
• O Mar Aral, na Rússia, que está secando depois que os rios que o alimentavam foram desviados para um projeto de irrigação .
• Desde criança ouço falar na diminuição da vazão do São Francisco, que já foi muito mais navegável do que é hoje. Será que dá para sangrá-lo? Os estados por onde ele passa estão contra o projeto temendo que o rio se torne inavegável. Já se falou em canalizar o Tocantins para o São Francisco e, então, desviar as águas engrossadas deste para alimentar outros rios. Essa idéia foi abandonada para diminuir o custo do projeto, mas uma coisa preocupa: será que então vão secar o rio?
• Tentando fugir dessa briga mudaram o nome do projeto de “Transposição” para “Integração”, mas isso não engana ninguém. A idéia básica é a mesma.
• O governo federal visivelmente está fugindo de debater a fundo o assunto e a imprensa não está percebendo isso.
• Os especialistas geralmente são a favor de múltiplas ações locais (pequenos açudes, poços artesianos) e não de soluções monumentais.
• A gente ouve falar que existe uma tradição no nordeste de as oligarquias políticas fazerem obras em benefício próprio. O projeto nem está aprovado ainda e aparentemente a farra já começou. Em notícia publicada pela Folha de São Paulo em 31/10/04 é denunciada a compra de terreno de um correligionário do Ministro Ciro Gomes pelo DNOCS, órgão do ministério de Ciro, de forma censurável.
• Finalizando, uma pergunta que não quer calar, mas que não tenho visto a imprensa fazer. O projeto diz que a água tirada do São Francisco só pode ser usada para beber, seja por humanos ou animais – não pode ser usada para irrigação. Muito bem, ninguém vai morrer de sede, mas se as plantas não podem ser irrigadas o que é que os bichos e as pessoas vão comer? A tragédia da seca não é só as pessoas passando sede – não é difícil abastecê-las com caminhões-pipa. A tragédia é também o gado morrendo de fome, e as plantações secando. Se não se viabilizar a agricultura não adianta dar água de beber. Se não for possível salvar as plantas, as pessoas vão ter de ir embora, fugindo da seca, como fazem há mais de cem anos.
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