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Procurando enxergar além do endeusamento e da atmosfera mística que envolvem atualmente a figura do ex-presidente Juscelino Kubitschek, o Opinião e Notícia conversou com o historiador Marco Antonio Villa, da Universidade Federal de São Carlos (SP).
O romantismo exacerbado presente no seriado exibido pela TV Globo e em outros programas que pegam carona na série sobre o período JK não são confirmados pelos fatos históricos.
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| Juscelino em campanha, em 1955 |
Marco Antonio Villa não nega os benefícios trazidos pelo governo de Juscelino ao Brasil. No qüinqüênio juscelinista o país cresceu 7,5 % ao ano, modernizou-se, foram construídas grandes estradas e diversas obras de infra-estrutura. A abertura da economia ao capital estrangeiro – tão polêmica à época – possibilitou que a indústria desse um grande salto e a lembrança da instalação de grandes montadoras de veículos é inevitável – conta, e ainda completa: O otimismo juscelinista não era produto do discurso mas de uma prática administrativa ousada. O grande benefício foi o crescimento econômico e a abertura de novas áreas para o investimento.
Apesar do desenvolvimento promovido, houve uma série de problemas, que os programas televisivos pouco exibem. Juscelino buscava o crescimento a todo custo – dentro de sua campanha dos 50 anos em 5 – e nessa empreitada faltou planejamento. A inflação aumentou ano a ano, cresceu a dívida externa e disparou a dívida pública. Quando passou o governo a Jânio Quadros, (JK) deixou algumas bombas econômicas de efeitos retardados e o país com sérios problemas de crédito externo, pois em 1959, em um gesto preparatório para a campanha de 1965, rompeu com o Fundo Monetário Internacional, lembra Villa.
O pensamento vigente na época era o de que a industrialização era a solução quase mágica para tirar o Brasil do rol dos países subdesenvolvidos, ao superar o antigo modelo agro-exportador. O capital estrangeiro entrou com força no país para bancar as possibilidades apresentadas pela indústria automobilística, e isso fez a dívida externa ascender. A emissão de papel-moeda foi uma das medidas causadoras da inflação, que por sua vez provocava a desvalorização dos salários e empregos e aumentava o custo de vida. Os novos produtos industrializados acabavam ficando restritos aos consumidores mais ricos – a burguesia e a classe média. Para resolver o problema da dívida galopante o governo recorria ao FMI buscando empréstimos, até que o órgão negou a Juscelino um pedido e o presidente decidiu romper com o Fundo.
A construção de Brasília e a transferência da capital foram também realizadas com prejuízos para o país. Esse assunto era matéria constitucional desde 1891, quando Floriano Peixoto organizou uma comissão chefiada por Gastão Cruls que foi ao Planalto Central para identificar o local onde seria construída a nova capital, conforme conta o historiador. Juscelino retomou o projeto com empenho e exigiu rapidez na conclusão das obras, que no total duraram cerca de três anos.
Houve benefícios trazidos pela construção da cidade. Ela passou a integrar o Centro-Oeste e parte da região Norte à economia do litoral, que representava o Brasil desenvolvido.
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| Construção do prédio do Congresso Nacional, Brasília, 1958 |
No entanto, graças à pressa de JK para finalizar as obras, os acidentes de trabalho eram freqüentes, mas ficavam abafados pelo governo. O Rio de Janeiro prejudicou-se e iniciou seu processo de decadência econômica devido à falta de um programa federal que possibilitasse a transição da antiga capital para o Estado da Guanabara. Além disso, a parcela oriental do Nordeste reclamava que o governo dava mais atenção à região delimitada pelo Polígono das Secas – que abrange oito estados nordestinos mais parte do norte de Minas Gerais – em obras para resolver o problema dos períodos de estiagem que assolam esses locais.
A administração de JK não escapou de práticas que se observam governo a governo no país. A corrupção estava presente à época e, segundo Villa, para ser confirmada basta ver os anais do Congresso Nacional. O historiador enfatiza os desvios de dinheiro público denunciados inúmeras vezes pela oposição no Congresso. O governo não só dificultou a instalação de CPIs para investigação das denúncias como cooptou oposicionistas. Um deles foi o deputado udenista Antônio Carlos Magalhães.
O nepotismo também encontrava respaldo no governo JK. O Dnocs – Departamento Nacional de Obras Contra as Secas – serviu como instrumento eleitoral nas eleições estaduais de 1958, ano de seca no Nordeste. Para o deputado Armando Falcão, ministro da Justiça de Juscelino por um ano e meio, Kubitschek deu de presente um cartório, antes de deixar a presidência da República.
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