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DESLIZAMENTO

Niterói: morro vem abaixo no bairro do ‘upgrade em sua moradia’

Secretário Nacional de Defesa Civil afirma que problema é a ‘cultura dos que não querem deixar locais de risco’. Morador do morro diz: ‘Vou pra onde?’

Niterói: morro vem abaixo no bairro do ‘upgrade em sua moradia’
Deslizamento ocorreu na madrugada do último sábado, 10 (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Um deslizamento no morro da Boa Esperança, no bairro de Piratininga, em Niterói, região metropolitana do Rio, matou 15 pessoas na madrugada do último sábado, 10 de novembro. Há oito anos, em 2010, 48 pessoas morreram no morro do Bumba, também em Niterói, também num deslizamento de terra causado por chuvas acima da média.

A Região Oceânica de Niterói, onde fica o morro da Boa Esperança, recebeu vultosos investimentos em urbanismo e mobilidade nos últimos anos, no âmbito das obras de implantação do Corredor Viário TransOceânica, do tipo BHS (Bus High Quality). A principal obra foi a construção de um túnel que tornou possível reduzir pela metade o tempo de deslocamento da Região Oceânica até os locais de trabalho, estudo e baldeação localizados nas áreas mais centrais da cidade.

No bairro de Niterói onde desde a madrugada de sábado ecoa o Bumba, retine também, portanto, a boa esperança do boom imobiliário. Construtores informam que Piratininga é hoje “uma promissora opção” para quem quer fazer “um upgrade em sua moradia atual”, apregoando “varandas maiores com kit gourmet”. Corretores gostam de mostrar a quem pensa em update “plantas humanizadas” das mais novas unidades, com cores, luzes, sombras e “componentes da biblioteca de mobiliário”.

“É um bairro onde o mercado imobiliário está aquecido e com a mobilidade resolvida”, disse um executivo da Brasil Brokers ao jornal O Fluminense.

O túnel do Cafubá foi inaugurado em maio de 2017. Mas, para o grosso da massa trabalhadora, para quem vive nas inúmeras comunidades verticais ou horizontais da Região Oceânica de Niterói, não há hoje passando pelo túnel uma linha de ônibus municipal sequer – nem low, nem high quality – com trajeto até as áreas onde a vida mais se faz.

Deslizando suave

Em Piratininga, a mobilidade está resolvida, até agora, para quem sai para o trabalho todos os dias dirigindo seu próprio carro; para quem pode estacioná-lo ao custo de R$ 10 a diária, logo na boca do túnel, e pagar R$ 16,90 no bilhete do Catamarã que sai da praia niteroiense de Charitas e leva até o Centro do Rio, deslizando suave na Baía de Guanabara.

Quanto a “fazer um upgrade em sua moradia atual”, um morador do morro da Boa Esperança disse assim a um repórter da Rede Globo sobre viver numa área de risco: “Vou pra onde?”.

Neste domingo, 11 de novembro, o secretário Nacional de Defesa Civil, Renato Newton Ramlow, disse in loco e ao vivo, no morro da Boa Esperança e na GloboNews, que o problema é a “cultura dos que não querem deixar locais de risco”, e “a gente fica muito chateado com isso”.

“A cidade construiu o túnel do Cafubá, por exemplo, e não fez nada deste tamanho para prevenir deslizamentos”, alertou em abril desse ano o professor de Engenharia Civil da UFF Elson Nascimento, por ocasião do oitavo aniversário da tragédia no Bumba.

Nesse 2018 faz 530 anos que Bartolomeu Dias dobrou o cabo que é da Boa Esperança (como o morro), também conhecido como cabo das Tormentas (como o morro agora também). Para seguir em frente, as pessoas que habitam onde não é o Bojador terão, contudo, também elas, que passar além da dor: “quantas mães choraram, quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar”.

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5 Opiniões

  1. Renata b. disse:

    Parabéns pelo texto! Você mostrou com excelência o infeliz contraste da Região Oceânica de Niterói.

  2. carlos alberto martins disse:

    a verdade é que Rio de Janeiro e São Paulo tem muitas áreas invadidas de forma predadora,com o beneplácito olhar do poder público e políticos inescrupulosos,criando-se locais de alto risco para moradores.nossos morros,serras,rios e represas,estão sendo tomados por uma massa predadora do meio ambiente.com organizações de associações inescrupulosas apoiados por politicos de má fé tudo está sendo destruido.o único conselho que posso dar a éssa populaçaõ é que voltem a seus estados de origem e cobrem das autoridades locais investimentos para que mantenham os seus cidadões de forma em que possam viver com dignidade.

  3. Ivone disse:

    Carlos Alberto
    Você considera que alguém em sã consciência escolhe morar às margens de um rio ou no alto de um morro?
    Por favor, seja mais sensível à miséria humana.
    Somos todos CIDADÃOS brasileiros e ainda não há nenhuma lei que nos impeça de sair de nossa cidade/estado e buscar nova vida em outra cidade/estado.
    Infelizmente, nem todos conseguem sucesso. Por favor não pense que continuam pobres porque
    “são preguiçosos” ou coisa do gênero.

  4. carlos alberto martins disse:

    IVONE.por favor leia atentamente o que declarei.em nenhum momento disse que sou totalmente contra um cidadão procurar entre nossas fronteiras local para habitarem ou trabalhar.o maior problema acima como detalhei é que não tem condições de se alojarem em locais aonde põe em rico suas próprias vidas e de seus entes queridos.em nenhum momento efetuei que são pobres ou preguiçosos isto porque tenho o maior respeito pelo ser humano.fico isto sim preocupado com o problema de as ocupações serem desordenadas e sem a minima preocupação com segurança ou conforto.aqueles que defendem tal situação estão defendendo demagógiacamente e com fanatismo incoerente pelo que passam os brasileiros.pratiquemos justiça.

  5. Jorge Hidalgo disse:

    com as escusas pelo desabafo, mas o brasil é um lixo mesmo! trata – e pior, cuida mal – de seus cidadãos, fazendo obras para os cidadãos de primeira, os da segunda, terceira ou qualquer outra classe, leia-se pobres – me incluo, nessa categoria, a quem paga ônibus/metrô, etc para chegar ao trabalho saindo da periferia, para que não digam que estou falando do que não sei… – que esperem ou sonhem – não há moradia decente, nem saúde que valha a pena, nem transporte que dê orgulho, etc…parabéns pelo texto, resumiu a ópera…faz-se túneis mas não se cuida de encostas…tristes trópicos – e esses políticos malditos só falando em reformas…para pobres, claro!

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